– Três da manhã, sonhei que eu era o Romero Britto. De todos os pesadelos de Zolpidem, o pior.
Meu amigo, Romero Britto, 2023, tu jura? Vou te dizer um negócio, se tu fosse Romero Britto, tu nunca seria o Romero Britto. Tu não ia dar conta de ser o Romero Britto. Tu ia ficar com vergonha de morar em Miami. Quando o Schwarzenegger olhasse pra tuas coisas e dissesse “genial!”, tu ia ficar com vergonha. Quando a Bauducco e a Tilibra e a Absolut, e as atletas do nado sincronizado ligassem pro teu agente, tu ia ficar com vergonha. Quando a galera te parasse no meio da rua, “olha lá o Romero Britto”, tu ia ficar com vergonha. Ia ou não ia? Tu ia perder os contratos e a casa de Miami e não sei quantos mil dólares do Schwarzenegger. Tu ia dizer que esse não é o lugar da arte e esse não é o povo da arte. Genial é o Romero Britto que não tem vergonha de ser Romero Britto. Quando o uol desse matéria do teu quadro da Dilma, do lado do do Bolsonaro, e o do Obama do lado do do Bush, isso tudo com o príncipe, que agora é rei, e a rainha, que agora é morta, te convidando pra tomar chá, tu ia ficar com vergonha. Um bando de cafona. Menos a Dilma. E o Obama. Mais ou menos. Tu ia chamar um consultor de imagem e um professor de história e uma agência de crise e um especialista em coerência pra dar explicação pros três mil e quarenta e sete seguidores do teu instagram. Tu não sabe nem postar carrossel no instagram. O Romero Britto tem três milhões de seguidores no instagram. Quando entrasse uma doida na tua galeria pra destruir teus negócios, tu ia chamar essa equipe toda de novo, tu não tinha nem terminado de pegar a primeira prestação. Tu ia ficar culpado porque chamou a destruidora de cafona. Tu ia aumentar as sessões de análise pra três por semana. “Será que mereci? Fiquei péssimo na foto. Ah, meu cabelo”. Cafona é se aperrear com a cafonália. Cafona é não arrancar dinheiro da cafonália. A mulher tava errada, mas tava certa. Ainda mais se fosse tu o Romero Britto. Quando soltassem um carrossel no @newmemeseum – porque eles sabem fazer carrossel e iam postar uma sequência do teu espanto na galeria, quando ‘o mercado’ repostasse, tu ia largar tudo. Ia dizer que a própria arte não é mais o lugar da arte e que o povo da arte, também não é mais o povo da arte. “Em transição de carreira”, tu ia escrever na bio do teu instagram de três mil e quarenta e sete seguidores. Parágrafo na outra linha: “Já não há a arte”. Aí tu ia esperar os convites, e depois sapecar currículo na Catho. Inglês e espanhol fluentes, tu ia marcar com bold. Romero Britto também fala inglês e espanhol, sabia? E francês. E italiano. Só que o fluente dele é de verdade e ele nem estudou no Santa. Tu ia pleitear uma vaga de secretário executivo que eu sei. Ah, porque o M. J. David largou a curadoria do MOMA e virou secretário executivo em Singapura. Virou. Mas ele era o M. J. David. E depois voltou pro MOMA – a convite -, expôs a performance e foi recorde de bilheteria. No verão. Mas bora lá, depois de um mês ou dois, ou seis, tu ia conseguir a vaga, teu currículo deve ser o mais bem diagramado da Catho. Padrão MOMA. Tu lá cotando passagem pra Miami, montando roteiro pra teu executivo ir na abertura do próximo Romero Britto de executiva. Já tem uns quatro Romeros Brittos mais novos e mais geniais do que o Romero Britto. Tinha que ter sonhado com esses. Será que tu ia sentir uma pontinha de arrependimento? Será que o M. J. David sentiu também? Arrependido, tu ia mostrar a foto com o Schwarzenegger pra teu executivo. Mas ele nem pra reconhecer o Schwarzenegger. Tu trabalharia pra um executivo que só conhece o Schwarzenegger do Exterminador do Futuro. E do primeiro. Mas isso se tu tivesse sido o Romero Britto, né? E se tu tivesse conseguido a vaga. Tu não ia ser secretário executivo. Tu ia ter vergonha de ser secretário executivo. Tu não ia ser o Romero Britto, nem o M. J. David, nem o secretário executivo do teu executivo. Tem perigo não. Vai dormir, cafona.

