Por Susy Freitas
Julia corre no areal em direção à mata. Ela sabe que corre mais pelos músculos do que pelo pensar zonzo do mormaço. E no balanço do corpo, seu destino arde e chacoalha. Arde e chacoalha. Arde e chacoalha.
O sol, é impossível ver. Um calor certeiro, que seu corpo não consegue ignorar, resseca a planta de seus pés descalços ou derrete raias pelos olhos, tamanha a claridade. E no meio das raias, longe e grande, o verde, uma chance de escuridão. Não é fácil correr. A areia exige demais, dá ao corpo um peso e um prumo que não são seus. Dá e tira, passo a passo. Além disso, o sol despeja uma certa confusão, que a pressa absorve e repassa para a vista em frangalhos.
Perto da mata, Julia agora precisa andar. A respiração ofegante, os pulmões em busca de uma umidade outrora existente nas sombras projetadas pelas folhas. Ela fecha os olhos, imagina que inspira o verde e expira o cinza, como a professora ensinou nos minutos finais da última aula, quando, Julia pensou nas árvores entrando pelo seu nariz, descendo pela faringe, laringe, traqueia, brônquios. O rosto de ladinho, o desenho na apostila de Biologia.
Mas agora as cores não têm senso de direção: Julia inspira o cinza, e depois mais cinza, e depois mais um pouco, e nada sai de seus pulmões. O vento bate, pesa quente como um tapa, e folhas secas cobrem as mechas rosa de seu cabelo e o chão inteiro começa a ruir. Ela cai e a queda engole tudo em silêncio. A terra marrom fica ocre e puxa para si a areia branca, que escorre como farelos de beiju. Não há grito, apenas quentura.
O despertador toca e Julia acorda sem ar. A luz da manhã entra pela porta do banheiro no corredor, a qual ela consegue ver de sua cama porque a mãe a proibiu de fechar a porta do quarto. Assim a fumaça sufoca menos quando entra den’de casa, explicou. E é com a forma da fumaça que os raios de sol gingam e se alastram aos poucos pelo apartamento. Zonza, a menina tateia a tela do celular para interromper o hit coreano programado para acordá-la.
Como o ar-condicionado resfria, se muito, metade da cama, Julia começa o dia com o tronco molhado de suor. Ela se enxuga com o próprio lençol, fininho, de flores. O pano rasga, ela nem liga. Ainda deitada, estende o braço até a corda da persiana, abrindo-a. O movimento lerdo e irregular revela o céu branco de fumaça, silhuetas difusas do bloco de apartamentos vizinho e uns poucos contornos de personagens na praça de alimentação do outro lado da rua.
Na praça, Seu Antônio sobe a porta da vendinha, que parece pesar uma tonelada. O som metálico começa e pára três vezes até que cessa, indicando o início dos trabalhos. Jairo, seu filho, ganha uma forma mais ampla, provavelmente erguendo os braços até o rosto para ajustar a máscara, levando em seguida uma mesa para o lado de fora. Lentamente, cores desbotadas pela fumaça transformam a mesa em uma banquinha de café da manhã.
A janela do quarto deve permanecer fechada, e por isso Julia apenas imagina o cheiro do pão com tucumã e queijo coalho e café com leite. Mesmo que abrisse a janela, o cheiro de tudo seria um só, o mesmo de dentro de casa, de seu lençol rasgado, da corda da persiana, de suas roupas. Por isso ela busca o perfume do café da manhã nas lembranças da Estação Sem Fumaça. Tenta ainda esticar o pescoço e tenta ver se dessa vez eles prepararam bola de sardinha. Aperta os olhos, concentra-se, mas é difícil distinguir qualquer coisa em meio ao branco. Do que ela mais sente falta é do cheiro do presunto esturricado na chapa. Um misto de sebo e manteiga velha enchia a praça de rosa para anunciar que a vida continua.
Dentre raias e flashes cada vez mais brilhantes nos olhos, Julia observa Dona Helena arrastar as últimas cadeiras para dentro do bar no quiosque ao lado. Ela para e anda, talvez balance a cabeça para tentar, com o movimento, ajustar uma mecha de cabelo para trás da orelha sem usar as mãos, e apenas um estalo alto anuncia uma das pedras do calçamento da praça soltando em seu pequeno trajeto.
Um grupo de coroas fala alto na porta do quiosque, conta o troco e alguns alternam entre enfiar a fuça nas máscaras acopladas a seus cilindros de oxigênio e dar goladas na última long neck. Pão Mofado e sua turma, Julia reconhece só pela vozes, encerram uma noitada pós-jogo do Manaus FC. Uma vitória retumbante e o sonho da série B virou realidade. Três jogadores do time adversário foram parar no hospital por causa da fumaça depois do jogo, comenta Pão Mofado, enquanto o Cabelo de Boneca Velha decreta: isso é coisa de fresco. Ele, como a maioria do bando, não carrega um cilindro de oxigênio. Ele esquece que nossos jogadores estão melhor adaptados à fumaça, mas não os de times de fora. Dona Helena puxa as últimas cadeiras imundas com uma mão e o seu mini cilindro surrado com a outra no meio da conversa.
Quando criança, Julia tinha uma brincadeira: esperava a Estação da Fumaça acabar para estudar as marcas deixadas pelas rodinhas dos cilindros na praça. Ela pegava suas barbies, abria seus braços flexíveis e fingia que elas eram aviões. Ficava ali, taxiando as bonecas como se estivessem num labirinto de pistas de pousos e decolagens. Anos depois, restou apenas o barulho da rodinha do cilindro da Dona Helena, que acorda Julia de manhã cedo aos domingos. Isso ou a vinheta do Auto Esporte. Mas hoje é sábado, e ela tem outros planos.
Julia levanta da cama e topa com o mindinho na quina da cômoda. O dedo lateja, mas seu corpo é incapaz de qualquer grande reação. É sempre assim quando a fumaça passa de oitocentos no aplicativo que informa a qualidade do ar. Só pela tontura, ela sabe que o dia começou mais ou menos por aí. Os principais efeitos da inalação contínua de fumaça são olhos secos, garganta irritada, falta de ar, dores de cabeça e confusão mental – ao sentir algum desses sintomas, procure atendimento médico, diz o letreiro branco na tela pela enésima vez, assim, só com vírgulas, ao iniciar o aplicativo. Depois uns anúncios de trinta segundos, porque essa não é a versão paga. Qualidade do ar no bairro Chapada: novecentos e doze.
Depois do banho, Julia se veste com pressa. Tem a esperança de que resquícios da água permaneçam mais tempo em seu corpo, abafados pelo moletom preto que ela insiste em usar apesar da sensação térmica de quarenta graus. Enxugando apenas os olhos, ela baixa um pouco as pálpebras rasgadas e puxa um traço negro com o rímel enquanto cantarola uma mescla de canções de k-pop. O olhar fixo no espelho gera uma lágrima salgada, que mal consegue chegar na boca. Ali, envolta por uma camada de fumaça quase imperceptível, ela sonha com o dia em que seu rosto moreno e cheio de espinhas será liso e branco como o de uma idol. Um dia que ela duvida que chegará, mas que, em sua mente, enxerga com mais detalhes que o outro lado da rua.
Franjão rosa para fora do capuz, Julia acena com a cabeça para o pai, que permanece inerte no sofá. Ela já desistiu de pedir para ele comprar um cilindro de oxigênio. Desde que a Estação da Fumaça se tornou regular, especialistas alertam sobre os riscos da não utilização das máscaras e dos suportes respiratórios, mas seu pai sempre achou isso um absurdo. Eles só querem é botar mordaça no povo, bando de filho da puta. E assim ela se acostumou a ver, ano após ano, seu pai perder peso ou ter as crises de asma agravadas nessa época. Depois do último check up obrigatório da firma, ele deixou escapar seu que seu pulmão parece o de um fumante de 65 anos. Ele não fuma, e tem 51.
Julia coloca a máscara. Atrás dela, seu pequeno cilindro rosa choque, que ela mesma pintou com spray. Ela ainda não percebe que o alívio do oxigênio é falso como o do ar-condicionado, mas isso ficará claro assim que colocar os pés para fora do apartamento. Antes disso, desliga a tevê, e como sempre, o pai acorda somente para dizer: eu tava assistindo. Despenca em seguida, embalado pelo torpor que a fumaça dá aos desprotegidos. A barriga subindo e descendo, subindo e descendo, o mindinho próximo ao umbigo, um suicida à beira do precipício. E assim Julia parte, consumida pelo branco do corredor.
