O liberto – Yan

O NARRADOR SOU EU, VALDEMAR MATUTINO

Tudo começou quando Manoel Maranhão, depois de ter sua impúbere carreira literária destruída, misturou violentas quantidades de psicotrópicos medicamentosos com cachaça a fim de cometer suicídio. Talvez para mim tudo tenha começado muito antes. Ou talvez apenas naquela madrugada, quando minha voz soou na sua cabeça e lhe prometeu que as obras que ele escrevesse nos levariam para a eternidade de um século ou dois. Ele me perguntou quem eu era e respondi: “me chame pelo meu nome”. Ele me batizou de Valdemar Matutino e esse é o meu nome. Esse é o nome dele quando assina nossos livros premiados. E agora, depois do terceiro livro, três Jabutis, um Oceanos e o Prêmio Camões, Manoel Maranhão pensa em desistir de nosso acordo.

Ele está em uma mesa da Biblioteca Mário de Andrade, cercado por livros de autores afro-brasileiros e africanos de língua portuguesa. Olha para suas mãos enrugadas, sente que seu corpo envelheceu vinte anos ao longo dos dez anos que escreve em meu nome. Sente que é uma farsa: não porque assina com outro nome, mas porque seu plano de despertar a literatura negra do país tem resultado em literatura para branco rir, aplaudir e premiar. Na sua cabeça mora o desejo de retornar a quem já foi um dia. Felizmente, na sua cabeça também moro eu. Mais que seus desejos assumidos, conheço os enrustidos, os que estão no armário, os que ele jamais vai escrever. Conheço seu gosto por lamber feridas e seu desgosto em admitir quais foram seus remédios. E, sobretudo, conheço a cor de sua literatura favorita. Por isso faço minha voz soar em sua cabeça e digo:

“Manoel, o que você prefere: ter um texto inédito de Rubem Fonseca ou ser Rubem Fonseca?”.

Ele está em uma mesa da Biblioteca Mário de Andrade (que cor tinha?), cercado por livros de autores afro-brasileiros e africanos de língua portuguesa. No entanto, a possibilidade de ser o escritor branco faz todos esses títulos desaparecerem. Se eu tivesse lábios, eu iria sorrir. Muitas vezes, quando minha voz soava na sua cabeça, Manoel Maranhão se punha na defensiva, fingia não me escutar, gritava que eu não existia e etc. Dessa vez, porém, ele se abre de imediato e começa a pesar os dois lados da minha proposta.

Rubem Fonseca viveu 95 anos, dentre os quais 57 enquanto um dos autores mais consagrados dentro e fora do Brasil. Pouco se pronunciava sobre prêmios, odiava entrevistas e saía à rua disfarçado com um boné e óculos escuros. Nenhum repórter, editor ou tiete conhece o rosto de Manoel, mas ele também sai à rua disfarçado. E dá entrevistas, sempre curtas, apenas por e-mail. Não lhe interessa, portanto, incorporar o carioca de Juiz de Fora em sua época de fama. Principalmente nos seus últimos vinte anos de vida, em que sua produção, pensa, caiu muito em qualidade. Manoel pensa ainda que prefere morrer antes que a fama e os prêmios o acomodem e rebaixem o nível de sua escrita. Ato contínuo, ele tenta esconder esse pensamento. Se eu tivesse lábios, disfarçaria um sorriso. E, talvez, eu lhe diria também:

“Não se afobe não, que nada é pra já”. 

Mas não digo nada. Deixo Manoel pensar e escuto o barulho de sua cabeça no silêncio da biblioteca: o Rubem Fonseca que valeria a pena incorporar seria aquele antes da publicação de Os Prisioneiros, seu primeiro e imediatamente consagrado livro. Sim, ser o Rubem Fonseca delegado de polícia, ou ainda o advogado de porta de cadeia, que sentia pela miséria e a raiva miserável dos fodidos alguma compaixão ou solidariedade. Compaixão ou solidariedade não são bem a palavra, mas eu não trabalho com a palavra. Eu trabalho com o que há na cabeça de Manoel – ele que se vire para encontrar um termo que o valha ou que não desvalorize seu ídolo.

O fato é que Manoel escolheria esse momento da vida de Fonseca, quando não tinha fama mas já tinha verve, já tinha raiva para criar e nenhuma sombra de prestígio lhe puxava o pé da sua mão à máquina de escrever. Ao mesmo tempo, pondera, o autor ficou apenas um ano como delegado, passando depois a executivo da Light, a empresa responsável pela distribuição de energia elétrica no Rio de Janeiro; e depois a membro do IPÊS, Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais. Ou seja, era, sem tirar nem pôr, um intelectual. Apesar de dar voz como ninguém a zés-ninguéns marginais e desajustados, escrevendo quase sempre na primeira pessoa, sua voz soava verdadeiramente sua com os personagens da classe média esclarecida que gostava de uísque escocês, charutos cubanos e literaturas francesa e estadunidense. O que não é um problema em si, claro, porque Manoel não se considera um purista. Mais que isso, admite que o fetiche de retratar pretos e pardos sempre como pretos e pardos e pobres, pretos e pardos e pobres marginalmente centralizados, é uma prisão que a atual literatura negra brasileira e pretensamente decolonial não tem a menor pretensão de derrubar.

Mas o que não dá para negar é que o cheiro de merda da prosa fonsequiana veio de um nariz sensível, acostumado a aromas sofisticados como a maresia da zona sul e as vaginas rutilantes e rosadas de mulheres brancas. Seus personagens se apaixonaram com frequência por louras, por uma ou outra morena, e a única vez que uma negra apareceu sem ser empregada ou fodida foi num conto do Mandrake – o tipo-ideal de Fonseca – na forma de uma passista retinta que o protagonista fazia questão de chamar de crioula. Mandrake fodeu a crioula e jurou ser apaixonado por ela, o que realmente foi enquanto pôde fodê-la. Mas o grande amor de sua vida era Berta Bronstein, uma judia loura que não sambava e gostava de jogar xadrez. Manoel se lembra de Sara, o grande amor de sua vida. Lembra de sua pele retinta, de sua vagina roxa e da cara rutilante da menina branca no momento em que Sara entrou no apartamento e viu os dois fodendo. Manoel também tenta esconder essa lembrança. Se eu tivesse lábios, afetaria um semblante de compaixão ou solidariedade.

Com todas essas considerações, Manoel conclui que não quer ser Rubem Fonseca nem por um dia, em nenhuma das fases de sua vida. Mas sua própria vida parece mais descaracterizada agora, depois de pesar os prós e contras de incorporar seu ídolo, seu mestre, sua maior referência literária. Ele mesmo se pôs em xeque, ele mesmo abriu suas defesas e se atacou. Eu só fiz o primeiro movimento. Poderia se perguntar qual seria a minha cor, mas não o faz. Manoel joga com as pretas e as brancas dentro de sua cabeça. Numa tentativa desesperada de não perder a partida, pela primeira vez me dirige a palavra:

“Que negócio inédito é esse?”.

Manoel não quer nenhum texto do final da vida de Rubem Fonseca. Talvez por medo de antever a decadência de seus próprios textos e seguramente por sentir um desprezo artístico pelo crepúsculo do autor. E, claro, por se segurar no prazer do fato de que o tempo fez até seu mestre perder a mão na máquina de escrever (no computador, no caso, porque Fonseca era um velhinho muito tecnológico). Por isso eu lhe ofereço um texto da juventude do autor, quando ainda era pobre e trabalhava de contínuo em uma repartição pública para pagar os estudos da faculdade de Direito. Era tão duro que não teve dinheiro para pagar o papel carbono e tirar uma cópia. Entregou o que tinha a um velhinho dono de uma pequena editora e o homem perdeu seus originais, o que atrasou em mais de vinte anos sua estreia no mercado editorial. Os olhos de Manoel não chegam a alvorecer, só lampejam rapidamente, mas ele aceita. Eu digo:

“Abra o Quarto de Despejo”.

Manoel abre o livro e encontra dentro dele umas folhas amareladas batidas à máquina. Trata-se de um conto sobre um jardineiro que resolve matar seu patrão explorador e tirano. Já nos primeiros parágrafos, o patrão diz ao herói: “vá para puta que o pariu”. Manoel se frustra ao ver no texto um herói tão simples e idealizado; se frustra ao perceber que Fonseca, mestre na diferença entre escrever a língua das ruas e falar a língua das ruas, ali não dominava nenhuma das duas coisas; e se frustra ao se dar conta de que seus primeiros textos eram terrivelmente piores que aquele. Manoel se sente exausto de carregar essas e outras idealizações, todas frustradas. A tarefa de carregar o trauma de tentar não ser mais um preto fodido será, invariavelmente, para sempre ser um preto fodido. Independentemente do sucesso literário e da realização artística. Viver sobre a sombra de tentar produzir um legado decolonial na língua da colonização será, invariavelmente, para sempre uma variante da colonização. Ele dobra as folhas, as coloca de volta dentro do Quarto de Despejo e o carrega, junto com os outros livros de autores afro-brasileiros e africanos de língua portuguesa, para carrinho de devoluções. E eu lhe digo:

“Manoel, se quiser voltar a escrever com seu próprio nome, fique à vontade. Eu liberto você do nosso acordo”.

Manoel Maranhão ouve minha voz soar na sua cabeça, cala o som de sua própria voz na sua cabeça. Ele sai da biblioteca, volta para casa e começa a escrever o quarto e último livro de Valdemar Matutino.
Se eu tivesse lábios, iria escancarar um sorriso.

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