Pingentes

Não imaginava que aquele tanto de gente esperava também o 665- Vila Oratório. Embarcaram ali pelo menos vinte, número suficiente para o corredor virar uma massa compacta de corpos onde não caberia nem um braço ou uma perna avulsa. Fui das últimas a subir. Sem reclamar, como os que imploravam por espaço perto da porta de saída, permaneci agarrada aos ferros dos bancos com a mochila diante do corpo entre a cabeça do passageiro sentado e o banco na sua frente. Melhor nem passar a catraca. Para meu alívio, a privilegiada da janelinha mantinha o vidro aberto e para meu espanto ela usava o pingente com o canino de leite que um dia foi meu.

A mulher olhava para o movimento de fora com a cabeça apoiada num pacote de papel pardo gordo e macio. De frente para ela, consegui ver as mãos firmes no embrulho, o cabelo mal preso no alto da cabeça, as veias no pescoço flácido , a correntinha dourada cheia de berloques e o meu dente, um único dente que parecia sorrir. Era Virna, tive certeza. Agora com uns cinquenta e oito anos, ultra maquiada, uma coleção de pulseiras barulhentas e os anéis grandes do indicador ao mindinho feito minha mãe a descrevia. As mãos franzidas e manchadas não eram as mesmas de vinte e cinco anos atrás. Como a minha mãe, já devia ter se aposentado e, diferente dela, ainda estava viva. Para reforçar minha certeza, precisei olhar para os sapatos e confirmar se ainda eram os scarpins de saltos muito altos e finos.

O vizinho de banco ou ela mesma deviam ter acomodado uma sacola no chão que me impedia a visão dos seus pés. Imagino que a embalagem de papelão com estampas fosse mais dela que do homem. Nas mãos, ele só carregava o celular com fones de ouvido e estava muito interessado nas cenas do que devia ser um filme de ação.  O ônibus tinha passado uns dois pontos e continuava apertado. Para obter a confirmação sobre os calçados de Virna, precisei levar minha mão ao pescoço e fingir uma dor que justificasse o movimento da cabeça para a direita. O homem em pé ao meu lado entendeu o gesto e tombou também a cabeça na mesma direção para me ceder um mínimo de espaço possível e suficiente para ver que ela usava scarpins com salto fino.

Endireitei minha cabeça e mirei de novo o dente. Ele brilhava no meio de outros penduricalhos: um elefante, um trevo de quatro folhas, um crucifixo e uma letra V, a prova de que a mulher era mesmo Virna, a professora de português. E aquele era o meu canino de leite entregue por minha mãe à Liliane, a professora que revendia joias e conhecia um ourives para pequenas encomendas. Virna entregou um dente manchado e escuro de sua filha e, quando minha mãe estava em licença médica por conta de uma amigdalite, aceitou de volta o meu branquinho sem qualquer embaraço. Para minha mãe restou o canino manchado. Dentes são todos iguais, ela nem vai saber. Qundo minha mãe voltou para as aulas, Virna já desfilava o pingente trocado e resignada , minha mãe não discutiu. Em casa, ela retirou o dente feio do engaste e disse que um dia mandaria fazer outro. Nunca fez outro e não me lembro de algum dia tê-la visto usar qualquer pingente no pescoço.

Virna continuava a contemplar a vista da rua pela janela. Se eu puxasse a corrente, conseguiria meu dente de volta e junto uma confusão no ônibus. Na rua, agiria na rua. Pelo sossego com que contemplava a vista da janela, a ex-colega de minha mãe ia descer era no ponto final sem os apertos para chegar à porta de trás, sem os movimentos espremidos para abrir caminho.

O ponto ficava só umas quadras depois de minha casa. O troféu valeria andar um pouco mais.  Arrancava a corrente, pegava o dentinho, devolvia o resto. Isso. Melhor agir na rua e fugir.

Ela, com os scarpins de salto não ia tentar correr. Quem sabe gritar. Não. Virna vai gritar e eu vou ser linchada. Ah! Virna! Que tanto amor por este dente? Nem é de sua filha, nem é seu e você sabe.  E tanto tempo depois ainda no seu pescoço. Sua filha já tem minha idade. Esta idade de ter filhos para mandar fazer pingentes com os caninos ou os incisivos de leite.  Fique com os outros berloques, devolva o que é meu. Reparei que você não têm berloques daqueles com netinhos. Você tem todo o jeito de avó que pendura os netinhos junto com os dentes. Um casal. Você parece avó de um casal sobre o qual conta histórias e mostra fotos. Ainda não tenho filhos para mandar fazer pingentes com dentinhos. Nem sei se vou ter e, se tivesse, não faria pingentes.

            Que você carrega neste pacote gordo que te serve de travesseiro? O ônibus está ficando mais vazio. Posso pedir desculpas por estar incomodando a viagem e contar a história. Quem sabe eu junte algum dinheiro. Nunca o valor do pingente. Você vai ficar constrangida, Virna. As pessoas vão me filmar. Não. Num gesto de suavidade, nem precisa ter arrependimento, você vai soltar a corrente, separar o dente e me devolver. Vou perguntar de sua filha. Acho que não devo perguntar de sua filha. E se você nunca teve esta filha?   Só quero o pingente e já nem sei se quero.  Posso tentar conversar com você sem rancor. Não guardo rancor. Nem minha mãe guardou. Ela só foi guardando um vazio como o colo sem pingentes.

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