Aquele da sorte

por Américo Paim

– Cê fez o quê?

– Calma, benzinho.

– Num tô crendo!

– Repare…

– Esse assunto num tava superado?

– Fale baixo, não chame atenção.

– Ah, tá bom…

– É só continuar a festa. Normal, sorria.

– Pra você é fácil.

– Meu dedão do pé esquerdo tá coçando. Sinal de sorte, você sabe.

– De novo essa maluquice, Margô?

– Nunca falhou.

– Eu preciso de outra dose.

Disse e se afastou dela rápido. Margarete contou a Wilson não por se sentir culpada ou algo assim. Havia algum orgulho pela façanha. Sempre houve. Mesmo quando aceitou o tratamento, contava tudo à psicanalista sem desconforto e com uma gota de prazer. Via suas brancas mãos delicadas e pequenas como armas. A velocidade com que se moviam no ato eram satisfação para ela. Seu rosto impassível também. A maquiagem leve não borrava porque ela sequer suava, mesmo tensa. O sorriso franco e os olhos juvenis completavam o quadro de completa inocência se alguém lhe lançasse dúvidas sobre a conduta. Só uma vez lhe pegaram. Foi naquela loja de bijuterias, há muito tempo mesmo. Ela gostava de pensar que foi um vacilo, por quebra de rotina. Eles não transaram na véspera, o que ela achava determinante para sua falta de concentração. O advogado teve trabalho, mas foi libertada após pagamento da fiança. Mudaram de cidade. Nunca ninguém soube do ocorrido. Prometeu a Wilson parar com aquilo, embora ele ficasse preocupado com o dia seguinte toda vez que rolava sexo na noite anterior.

Ela seguiu a sugestão que fez ao companheiro. Circulou pela festa sem constrangimento, cumprimentando, sorrindo, comendo e bebendo. O apartamento enorme, duplex, de decoração cara, mas um tanto brega, estava cheio de gente. Seu vestido preto básico lhe valorizava a beleza. Chamava a atenção. Observou tudo, em detalhes: decoração, luzes, rostos, roupas e acessórios. Era bem dela isso. Sempre de olho no que chamava de oportunidades. A maioria das pessoas lhe era estranha. Avistou a dona da festa, Walquíria, mulher linda e rica que gostava de ostentar e que conhecia da academia. Lhe pareceu tensa. Girava a cabeça de lado a outro, conversava com algumas pessoas. Seus gestos ficando mais enérgicos. Algo estava fora do lugar e Margarete aguçou os sentidos. O que estava acontecendo? O gesto definitivo foi quando a anfitriã escondeu seu rosto com as mãos. Era choro. Não demorou e todo mundo soube o que houve, assim que entraram os policiais.

Depois de um grito histérico de Walquíria, seu marido Onésimo falou a todos que ninguém poderia sair do apartamento. Anunciou desajeitado que uma joia dela havia desaparecido e que eles tinham certeza de que estava ali, com alguém. As pessoas se entreolhavam com expressões diversas, a maioria de absoluto choque com a novidade. Era o 10º andar. Ninguém tinha saído, nem pela porta de serviço. As pessoas seriam revistadas.

Começaram com os empregados e contratados, sem sucesso. No burburinho ouvia-se “absurdo”, “onde já se viu?”. Wilson foi discreto o quanto pôde, mas logo se viu puxando Margarete para um canto. Sem olhar para ela e apertando-lhe o braço com força, ele falou baixo, quase sem mover a boca.

– Você enlouqueceu de vez?

– O que é?

– Roubo de joias? Tá lesa?

– Ah, tá pensando que fui eu? Eu mermo não…

– Margô, isso é muito sério!

– Devia confiar mais em sua mulher.

– Como? Se você mesma me disse…

– Ah, para. Eu lhe falei que foi coisa pequena. Não foi assim um roooooubo…

– Oxe, tá variando? Uma joia é pouca coisa?

– Benzinho, relaxe, vá por mim.

A festa estava acabada, claro, mas longe de se resolver. Margarete falou aquilo, porém, sabia que podia se dar muito mal. Seu rosto seguia frio, embora sentisse arrepios e coceiras. Enxergava tudo como excitação. Aquela chegada da Polícia não estava nos planos. E se fosse apanhada? O que diria? Nunca esteve preparada para aquilo. Como escapar do constrangimento? Sua imagem mergulhada na lama, assunto para a eternidade. Ninguém naquela cidade sabia sobre seu passado e estava ali há quase oito anos. Bebeu água e continuava nervosa. Abriu um chiclete, mania se estivesse agitada. Aproveitando a balbúrdia, ela circulou até uma roda de amigas, todas indignadas com aquilo. Se movimentar a ajudava a pensar e ela tinha que ser rápida. Não ter previsto que aquilo tomasse tal rumo, lhe deixou estressada, só que atenta. Wilson a vigiava de longe, mas só via sorrisos relaxados na mulher. Era um sinal claro que havia carta na manga. Apesar de confiar, seu estômago revirava. Ele estava bem assustado. Nunca havia chegado àquele ponto. Sempre coisas pequenas, desprezíveis, “arte pela arte”. Prazer de realizar e não ser apanhada. Aquilo era bem diferente. Seria cadeia pesada, exposição em redes sociais, consequências no trabalho e muito mais que ele não conseguia pensar naquele instante. Teriam que se mudar de cidade outra vez? De volta dos devaneios, não mais a viu em meio à confusão de pessoas em movimento.

Margô estava à vontade entre as amigas, acalmando as mais nervosas. Sob tensão ela pensava com uma clareza admirável, algo que desenvolveu com o tempo. Seu olhar escaneava as possibilidades, até chegar à solução. É certo que estava com mais medo, sentia seu corpo estranho, mas a conjuntura sexo e dedão lhe davam confiança. Pensava que todas a olhavam como se soubessem de tudo, se sentia um pouco perseguida e admirada ao mesmo tempo e era notável como não se lia no rosto. Observou as amigas todas falando em baixa frequência, quase sussurros, meio desconectadas do que acontecia em volta ou com objetos e pessoas. “Um bom cenário” – analisou, entendeu e agiu Margô. Precisou ser muito rápida e saiu andando de volta para Wilson com aquela cara indecifrável. 

Depois de responderem a protestos dos mais diversos, os agentes organizaram uma espécie de fila para revista. Quando chegou a vez de os dois se submeterem, Wilson suava frio. Teve que se sentar para ficar mais calmo. Margarete comentou com o policial que ele tinha crises de ansiedade e aquilo tudo ali estava sendo demais para ele. Walquíria se desculpou com ela: “você me entende, amiga, tenho certeza”. Ao que Margô respondeu: “claro, querida!”. Ela tirou tudo de metal que usava: brincos, pulseiras, colar, relógio, celular e colocou sobre uma pequena mesa. A cada movimento de checagem com o detector na mulher, sempre acompanhados de perto por Walquíria, Wilson não escondia a agonia. Ela o olhava repreendendo. Assim ele colocaria tudo a perder. Satisfeitos com as buscas, os policiais liberaram o casal. Eles recolheram seus pertences e foram embora.

No elevador, ela não deu palavra e o olhava, séria. Wilson sentia arrependimento por ter duvidado dela, mas estava feliz por não terem sido apanhados. Ainda assim, sabia que algo havia se passado, apesar de constrangido para perguntar a ela. Ela devolveu? Jogou lá de cima? Engoliu e teriam que ir para a emergência? O carro estava estacionado na rua. Ele acelerou o passo, pensando se não apareceria alguém de última hora para reclamar o item do roubo, como nos filmes. Ela manquitolava um pouco, queixando-se dos sapatos novos, balbuciando que deveria ter vindo com algo mais confortável. Antes de dar a partida, ele não aguentou.

– Não pense que não vi, Margô. Não pense!

– O que, criatura?

– Você muito esperta, querendo ser revistada logo.

– Oxe, tá vendo coisas.

– Tô não. O que você fez, como se livrou?

– Que coisa, né? Você viu, tô limpa.

– Difícil. Conheço bem esse riso aí…

– O que eu peguei não tá comigo. Tá lá no apartamento.

– Jura?

– Sim. Pena que tia Merúvia vai ficar sem presente de aniversário semana que vem.

– Você quer me dizer que…

– Ah, era um colarzinho. Nada muito caro.

– Ficou lá?

– Ficou. Não no mesmo lugar…

– Onde?

– Dentro da bolsa de Ondina.

– Você tá louca?

– Aquela vadia vai se virar pra explicar.

– Por que fez isso?

– Lembra que a gente chegou depois dela?

– E daí?

– Ficou me sacaneando, que nossas bolsas eram iguais, mas a dela era de Paris. Puta…

– Você pegou ar com isso?

– Na hora só um pouquinho. Depois, vi a oportunidade.

– E se ela descobrir?

– De que jeito? As bolsas todas juntas na saleta perto do aparador da sala de jantar. Foi fácil.

– Isso foi cruel.

– Nada. No máximo vai perder a amizade de Wal. Ninguém vai querer escândalo.

– Digitais?

– Claro que não.

– Como pegou?

– Wal é exibida. Já tinha mostrado o quarto, o escritório, as roupas, as joias, várias vezes.

– Você é doida varrida!

– Rolou um medinho só. Na próxima eu penso na polícia – falou e riu. Ele só arregalou os olhos.

Wilson tomou a grande avenida para casa. Estava mais calmo. Apesar de não concordar com o gesto da mulher, sua expressão era de alívio. Só não maior que a de Margarete quando conseguiu folgar os sapatos novos. Tirou também seu relógio e colocou sobre o painel do carro, deixando o fundo para cima, onde se via um pequeno pedaço de papel e um resto de chiclete onde estava grudado um anel de brilhantes. Ele quase bateu o carro. Ela nem ligou. Massageava o dedão do seu pé esquerdo. Aquele da sorte.

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