Copacabana

Copacabana (de Carol Schettini)

Com a mania de abrir várias abas no computador, fui logo avisada da chegada de um novo e-mail enquanto procurava passagens baratas nos sites de busca por voos. Um e-mail avisando que o meu mini-doc estava pronto. Parei tudo para baixar o arquivo.

Estava pesado e nos minutos de espera, a internet me ofereceu muitas coisas para comprar. Já reparou? Se a pessoa demora um segundo com o olho a mais na tela, todos os dias da vida, inclusive depois da sua morte, o objeto será apresentado para seu cérebro e o momento da compra será imprescindível para se continuar a viver ou morrer em paz.

Foi o que aconteceu com uma bolsa de praia que vi e fiz a burrice de clicar no anúncio. Todos os dias a bolsa rosa e laranja pipocava na minha frente. Quando entrou em promoção, cliquei logo, mas havia se esgotado. Com medo da outra cor acabar também, tratei de arrematar a bolsa em verde e azul. Não sei como é a logística na casa de vocês, mas aqui mal você paga, toca a campainha entregando a encomenda. Quando abri a sacola, um susto. A bolsa era um quadrado de papelão revestido de veludo neon, imitando a calçada de Copacabana. Pesava quilos. Com um enfeite de plástico com a cara do Zé Carioca. Na propaganda, a modelo a carregava no sovaco como se fosse uma pluma maleável. Aquela caixa pesada e dura não cabe no braço de uma pessoa normal. Com a bolsa, veio a opinião da minha filha. “O que é isso?””Uma bolsa linda, não tá vendo?””Você só podia estar esclerosada para comprar, né?””Tão linda!” “Quanto custou?””Estava de promoção!””Papai, a mamãe comprou uma bolsa caríssima…” Podia ter devolvido, não deu tempo, no dia seguinte o tijolo virou uma boa aquisição quando saiu de um churrasco lotada de lembrancinhas.

Baixou. O mini-doc baixou. Abro e fico em estado de choque. Meu Deus! Um minuto de duração. Um minuto de propaganda para eles. Eles usaram meu dinheiro para fazer um documentário falando bem deles. Não era um documentário para fazer propaganda de mim? Pulo para a aba do whatsapp e pergunto no grupo se mais alguém recebeu o documentário e o que acharam. A maioria recebeu um com duração de cinco minutos. Detesto reclamar. Detesto mais as pessoas que ficam, “ah, você tem direito”, “ah, você tem que ficar satisfeita”, dá vontade de responder: “ah, vai cagar”.

Mando um e-mail reclamando e já sabendo que a arrumação não vai rolar e o valor pago será debitado no resgate. Criei um hábito para não adoecer nem ficar pensando em coisas poucas (mesmo que o dinheiro seja muito) que perdi. Penso que gastei para pagar um resgate.

Estou tão craque na história, imagino os sequestradores, o cativeiro, as balaclavas nos seus rostos, incluo diálogos, o pagamento do resgate, se duvidar coloco cenas segurando jornal, e, por fim, a minha liberdade. Pronto. Não penso mais no assunto. 

Do e-mail de reclamação, recebo outro documentário, um pouco mais longo, não muito melhor. Sabia que aquela filmagem de baixo para cima dando close nas minhas olheiras não iria cair bem. Continuo fazendo a propaganda para eles e um minuto a mais, olhando para o além, muda, parecendo um panda pensativo.

Não autorizo a exibição do mini-doc nas redes sociais e, em seguida, estou sendo sequestrada por bandidos violentos, pago quinhentos reais de resgate e sou solta na calçada de Copacabana usando minha bolsa verde neon. Fecho todas as abas do computador, menos a da companhia aérea. Volto toda a atenção para a procura de passagem sabendo que não poderei pagar por assentos e irei só com mala de mão. 

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