Dia do índio

Por Susy Freitas

I. A tia

A tia já estava perdendo a paciência. Depois de envolver seus cabelos loiros num coque firme bem no topo da cabeça com a caneta, juntou mais uma vez as pontas da faixa de papel verde. A superfície espelhada reluziu o metal do grampeador e ameaçou cegá-la por um segundo. Procurava em vão o encaixe perfeito na cabeça da Moara, o último ajuste antes de a turma estar pronta para o desfile do Dia do Índio. Mas não importava o quanto reduzisse o diâmetro da faixa, o papel sempre escorria pela franja da menina, os fios pretos e grossos já colados na testa devido ao suor. O papel colorido que fazias as vezes de pena pendia para a frente, num prenúncio de que toda aquela fantasia acabaria mal. A cabeça de Moara era pequena como a de um coelho, e a tia teve vontade de esmagá-la. Enfiaria seus dedos nas órbitas dos olhos, até que o que quer que houvesse dentro escorresse para fora. Seus bracinhos tentariam impedi-la, os maços de papel metalizado presos em seus punhos fazendo um barulho que lembra o de chuva, perdido entre os gritos e brincadeiras dos coleguinhas. Já as pernas chacoalhariam de leve. Apenas o suficiente para revelar a fina camada de algodão da calcinha da menina, porcamente oculta pelas tiras de papel crepom. A pequena mijaria no chão em agonia, o rostinho já arroxeando e o líquido quente descendo da calcinha. Bem devagar. Passaria por suas coxas roliças, depois por cima das feridas de seus joelhos, fazendo arder os pontos em que as casquinhas foram arrancadas e comidas cedo demais, até atravessar suas panturrilhas, onde o veio do mijo se dividiria, um para cada dedinho, e enfim encharcando as solas dos pés, encerrando um circuito que se repetia na cabeça da tia várias e várias vezes, ao longo de anos. Moara, sentindo o cabelo cada vez mais repuxado pelo grampo que prendia a faixa, levou a mãozinha à cabeça. Nesse movimento, tocou a mãozona da tia, seus dedos longos, de unhas pontiagudas e peroladas, agora cobertos por dedos pequenos como lagartixas. Um raio de temor e prazer percorreu o corpo inteiro da mulher, permanecendo como uma cicatriz em seu sexo. A menina então virou a cabeça, olhando no fundo dos olhos da tia, e inspirou forte uma bolha de catarro que começava a se formar entre o nariz e a boca, fazendo-a desaparecer. Deu um gemidinho, acompanhado de suspiro grave e grande. A faixa, já quase por cima de seus olhinhos rasgados, desceu mais um pouco, até que ela pôde soprar a pena presa na faixa, fazendo-a subir e descer no espaço de seu curto fôlego. As crianças, outrora colaborativas, agora corriam e arriscavam perder as poucas tiras de papel que formavam seus cocares, saiotes e adereços. As meninas indistinguíveis dos meninos, com seus peitos retos e berros estridentes, restando os cabelos para diferenciá-los. Alguns carregavam arcos e flechas, tentando, a todo custo, cegarem-se uns aos outros e oferecem à diretora a desculpa perfeita para abrir um processo administrativo disciplinar e acabar com aquilo de uma vez por todas. A tia, ao fitar o relógio em cima da lousa, viu que já eram quase dez. Com suas duas mãozonas, ergueu Moara da carteira, esfregou o dedo médio pelo meio de suas pernas, ajustou a faixa uma última vez e a encaixou na fila de indinhos, prontos para sair da sala para a quadra, onde os pais, tios e avós já os aguardavam para o dia de brincadeiras. Não há nada de mais no que a tia fez, não importa o que a diretora fale. Aquilo foi apenas uma demonstração de cuidado e carinho. Com certeza muitos seriam os pais agradecidos por terem seus pequenos sob a responsabilidade de uma jovem com tamanha dedicação às crianças, zelando por seus corpos nos mínimos detalhes. Isso selava o caso.

II. Moara

A vovó era a única com sombrinha na hora da saída, os outro iam com a mãe, com o pai, tinha umas que ia de carro, de carro era mais bonito ainda, sair de carro da escola, mas só eu ia com a vovó e andando e de sombrinha, queria morrer, me esconder das menina que me batiam, me chamavo de cabocona, de pobre, índia piolhenta, perguntando porque eu moro no meio do mato, como que eu estudo em escola de gente se eu vivo cum macaco, e nem é verdade, nem tem macaco lá pert’de casa!, só guariba de noite, mas guariba não conta, guariba nunca vai pra den’de casa, a vovó me ralhando pra não pisar na lama, pra não levar lama pra den’de casa, falando naquela língua dela, do interior, segurando a min’a mão, eu não gosto do interior, lá o banheiro é fora de casa e a gente passa pelo capinzal, a mão dela cheia de pelanca, pelanca por cima do olho, o olho grandão den’do óculos, soprando a pena pra pena sair da minha cara, voltando pra casa a pé, subindo lá pro buritizal, a rua dois, rua dois, a vovó disse pra eu aprender, rua dois, mas nem rua aquilo é, porque o chão é de barro, se o chão é de barro então não devia ser rua, ou será que é rua, eu vou perguntar da Tia Leda amanhã na escola, os meninos nem com mãe volta, vai de condução, condução é muito bonito, o banco bem alto, a gente vai lá em cima, na janelinha, não pisa na lama, do lado escrito es…co…lar, eles me olham com nojo de den’do carro, pra mim e pra vovó, às vezes eles cospe em mim e eu quero chorar, e às vezes eu choro, começo a chorar e não passa até chegar em casa, a vovó pergunta o que foi menina, e eu digo que tá doendo, tá doendo o meu passarinho, e ela diz tá doida, menina?, para de falar besteira senão tu apanha, e a condução passa num monte de lugar, um monte, que a Carina me contou, e eles não sua porque tem ar-condicionado no carro, cada casa bonita, ela disse, casa com quintal, com aquele cachorro do filme, mas lá em casa é feio, tem lodo, lodo, lodo, o cachorro vai pra rua de noite, a porta do banheiro não fecha mais, a mesa bambinha cheia de semente, que a vovó faz colar, pulseira, pra vender na feirinha, eu não gosto de ir pra feirinha, é feio lá no centro de artesanato, e eu não entendo nada que eles falam, por isso que na escola eles vestem a gente de índio americano, índio americano com uma pena de papel na cabeça, assim que é índio certo, pena que os papelzinho do meu braço já caíram, eu ia mostrar pro Seu Carlos a minha fantasia quando chegasse na taberna, aí ele vai me dar um picolé, eu vou escolher o de goiaba, o de goiaba não, o de buriti, e se eu sentar no colo dele eu levo os dois, os dois picolés, mas o de buriti é o meu favorito.

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