Eu tava sonhando que era o Goku do Dragon Ball. O Goku é o herói mais forte, mais durão e mais corajoso do desenho. Até que o Freeza, que é o vilão mais malvado do desenho, me segurou no ombro e me sacudiu com força e gritou: “você vai morrer, inseto!”. Tentei dar um soco, tentei soltar um kamehameha, tentei fugir voando. Mas nada adiantou. Eu tava fraco e com medo. O Freeza me sacudiu mais fortão e eu deixei de ser o Goku e virei um pedaço de Amoeba bem molengona. Aí eu abri os olhos e minha mãe tava me sacudindo no ombro e gritando: “acorda, Miguel!”.
Ela pegou eu e a Dorinha pela mão, enfiou um pano molhado na nossa cara e empurrou a gente pra fora do quarto. Na sala tava um fumacê danado que saía da cozinha. Eu ouvi meu pai gritando pra alguém abrir o registro, o pai do Jorginho entrou correndo com um balde. Minha mãe entregou a gente na mão da dona Maria João e entrou na cozinha com o pano molhado na cara. O pai da Luísa tava no corredor segurando a mangueira da portinha de vidro que nunca abre. O vidro da portinha era um monte de caquinho no chão e eu tava descalço. A mãe da Luísa me pegou no colo e depois me soltou na escada. A Dorinha tava com o chinelo da Xuxa e a dona Maria do Céu tava de pantufa peluda que parecia pelo de urso. A gente descia os degraus e a Dorinha chorava pela mamãe e pelo papai, a idiota. Eu desci da nossa casa no sexto até o segundo andar sem medo nenhum. Mas aí a gente chegou no primeiro, eu olhei pra pantufa da dona Maria João de novo e percebi que tava vestindo o meu pijama de ursinho.
Eu tinha tanto pijama… Era melhor que fosse o que tem a cara do Goku na camisa e várias esferas do dragão laranjinhas no short. Também podia ser o de bola de futebol, o do Flamengo, até a camisa com a foto do meu pai mostrando o muque na praia escrito “pai herói”, que a minha mãe mandou fazer no dia dos pais. Até de cueca era melhor. Não, até pelado era melhor. Mas eu tava com o pijama de ursinho. A droga do pijama, o idiota do pijama de ursinho. Aí eu abri a porta do primeiro andar pra me esconder na casa do Tiago, porque só eu não chamo o Tiago de Cocão, ele gosta de mim e não ia contar pra ninguém do pijama. Mas aí a dona Maria João falou que já tava todo mundo do prédio lá na portaria. Aí eu fiquei mole de medo, disse que ia descer na frente, desci correndo na frente e abri a porta da escada no andar do play.
Eu abri a porta, fechei a porta e ouvi do outro lado as duas descendo a escada. A Dorinha não parava de chorar pela mamãe e já tinha parado de chorar pelo papai, a idiota. A dona Maria João: “calma, filhinha. Tens de ser corajosa que nem teu irmão”. Elas continuaram descendo e eu andei pelo corredor. O play ainda tava fechado, porque só abre às oito. Da grade do portão do play eu vi que tava tudo escuro. Dava pra descer até a portaria. Se eu ficasse bem encolhido talvez ninguém reparasse no meu pijama. Mas aí eu vi que eu que era o idiota. O Jorginho ia reparar, porque ele repara em tudo. Depois ele ia abrir o bocão de sacola e todo mundo ia reparar também. Eu não podia descer de jeito nenhum.
Quando o garoto do terceiro andar tinha acabado de se mudar e foi pro play com uma camisa do Sansão, o Jorginho chamou ele de Moniquinha, falou “pega aqui no meu coelho molhado”, essas coisas. O garoto caiu na pilha e o nome caiu na boca dos moleques. Ele nunca mais apareceu no play e eu até hoje não sei o nome do Moniquinha. Não foi culpa dele, ninguém avisou. Se eu tivesse visto antes eu avisava, mas agora não dá tempo, não posso deixar ninguém me ver conversando com ele pra não me chamarem de Cebolinho ou coisa tipo assim. Até porque deu muito trabalho pros moleques me chamarem só pelo meu nome.
Sempre que a gente brincava de Dragon Ball e eu pedia pra ser o Goku, o Jorginho mandava eu ser o Majin Boo. Ele falava: “o Goku não pode ser uma chupeta de baleia”. Na primeira vez que ele falou isso voltei pra casa chorando e minha mãe falou que podia me ajudar a fazer dieta e eu parei de chorar e fiquei com raiva. Minha mãe é boazinha, mas não sabe de nada. O meu pai falou que eu tinha que aproveitar meu tamanho e amassar o Jorginho na barrigada. Meu pai sabe algumas coisas, mas não sabe me ensinar a brigar. Eu tentei, mas o Jorginho me acertou um soco antes e eu voltei pra casa banguelo e chorando mais e com mais raiva. Aí o meu pai falou: “tem algum preto nesse desenho?”. Eu disse que tinha o Senhor Popo, que é um gordo com a pele da cor da bandeira do Flamengo e a boca como se tivesse passado batom da cor da bandeira do Flamengo. O Jorginho tem a pele marrom escuro e a boca marrom claro, mas não gostou nada quando eu chamei ele de Senhor Popo. Ele ficou tão nervoso que errou o soco, eu acertei a barrigada e agora todo mundo só me chama pelo meu nome. Meu pai sabe bastante coisa.
O tempo foi passando e pela grade do portão do play eu vi que o sol tava nascendo. Ouvi uma sirene de longe, o som ficando mais alto e mais perto. Alguém gritou de um dos andares mais altos, bem alto: “agora, Barrichello?”. Aí eu lembrei do meu pai, que adora gritar palavrão pro Barrichello na TV. Aí eu lembrei do meu pai gritando pra abrirem o registro, a cara vermelha dele toda preta de fumaça. Fiquei pensando se ele tava bem e tive vontade de subir as escadas pra minha casa e vi que o meu pijama tava sujo de sangue que não era meu. Fiquei com pena do meu pai, que deve ter se cortado abrindo a portinha de vidro da mangueira que nunca abre. E lembrei da minha mãe, que sabia abrir minha mochila com o fechecler emperrado e abrir meu sorriso quando os moleques me faziam chorar. Fiquei com pena da minha mãe, que ia ter que limpar a cozinha toda preta de fumaça depois.
Eu tinha que voltar pra casa pra ver meus pais. Meu pai sempre diz quando vai pro trabalho: “agora você é o homem da casa”. E minha mãe sempre diz quando eu chego chorando do play: “homem de verdade não liga pra implicância de menino”. E eu não ligava mesmo, eu só ligava pro meu pai e pra minha mãe. Acho que até ligava pra Dorinha, que devia ter ficado chorando aquele tempo todo, a idiota. Mas aí eu pensei no meu nome tão bonito que ia ser trocado por um apelido idiota. Tirei o idiota do pijama de ursinho e resolvi subir de cueca mesmo. Mas aí eu olhei pra baixo e vi que a cueca tinha um ursinho idiota na frente, bem na altura do pinto. Tudo porque minha mãe diz que é bom se vestir combinandinho, mesmo pra dormir. Minha mãe não sabe de nada. Vesti de novo o idiota do pijama e resolvi esperar até os bombeiros irem embora, o porteiro ligar o elevador de novo e todo mundo voltar pra casa.
Acordei com a voz do Jorginho falando assim: “Guel, tu tá aí!”. Meus pais quase me mataram quando eu cheguei, mas depois me beijaram e me abraçaram. Meu pai tava com a cara preta de fumaça e tossindo um pouco, mas disse que tava bem. Minha mãe tava com uns curativos no braço porque socou a portinha de vidro com a mangueira que nunca abre, mas disse que tava bem. A Dorinha tava tão bem que parou de chorar quando eu cheguei e me deu um beijo, a idiotinha. Só o seu João Maria, marido da dona Maria João, que foi pro hospital fazer nebulização. O curto-circuito no benjamin do quartinho de empregada que o meu pai fazia de escritório destruiu o computador, o mouse de bolinha e o quadrinho do Tintim que o meu pai guardou da infância dele, com um loirinho quase e um homem preto de boca vermelha. Mas meus mangás e quadrinhos da Mônica, que ficavam no meu quarto, estavam inteiros. Então no resto todo mundo tava bem e feliz porque eu também tava bem. Todos os moleques me abraçaram e me deixaram ser o Goku. Eu fiquei bem e feliz. Naquele dia eu fui o herói mais forte, mais durão e mais corajoso de todo o play.
No dia seguinte, o Jorginho não me zuou por causa do pijama de ursinho. Só por ser medroso, cagão, peida-na-farofa, maricão, medroso, veadinho e frouxo por fugir do incêndio. E agora todos os moleques só me chamam de Bombeirinho.
