Vergonha

Nunca passei uma vergonha, pequena que fosse.  Nem no dia que perguntei o signo ao escultor, pintor e fotógrafo em vez de coisa mais consistente sobre sua obra. Foi o que me ocorreu assim que me chamaram. Sei que nem devia ter me inscrito no debate, sei que devia ter feito anotações. Foi tão de surpresa que lancei o que me veio à cabeça e fiquei decepcionada quando ele respondeu Libra. Ele era tão cheio dele mesmo que esperava um Leão. Quinze anos mais velho, bem experiente nestes eventos, se não me achou burrinha, tirou da pergunta a possibilidade de um flerte. Na saída, no hall do auditório, vi o artista, numa rodinha de estudantes sedentos por sua atenção.  Desligado das perguntas, ele alongava o pescoço procurando por alguém que descobri ser eu quando me fez um sinal com a mão. A rodinha de estudantes se abriu e eu mal entendi o gesto. Apertei os olhos, estiquei os lábios num sorriso tímido, fiz um aceno rápido e entrei no banheiro feminino.

Lá dentro, a responsável pela limpeza cochilava na cadeira plástica de braços. O corpo largado escorregando do encosto. As barras da calça do uniforme dobradas até as canelas. As pernas meio abertas e relaxadas. A mão direita segurava a cabeça. Ela despertou com a minha presença, alisou o logo na camisa e endireitou a postura sem tirar de mim uns olhos desconfiados e ao mesmo tempo gentis. O olhar estranho só buscava um jeito de me contar sobre a mancha vermelha que tomava toda a saia do meu vestido florido de verão. A minha surpresa com a notícia poderia ter sido parecida com a do multiartista e a minha pergunta vazia sobre o signo. Só foi diferente porque a observação feita pela mulher foi muito mais valiosa e útil. Para me deixar à vontade, ela comentou a sua própria experiência com um fluxo menstrual exagerado e as muitas roupas manchadas que costumava ver nos banheiros onde trabalhava.  

– Nossa! Muito obrigada, Nice! Fiz questão de agradecer pelo nome que estava no seu crachá. A mancha era grande. e todos da rodinha deviam ter notado, inclusive o artista. Fiquei na ponta dos pés para enxergar melhor no espelho sobre a pia. O borrão lembrava um mapa numa bandeira.

– De nada – ela respondeu e me aconselhou a erguer a saia até a pia para lavar a roupa, mesmo que numa posição incômoda e torta.  Com o calor da tarde, o algodão fino ia secar logo.

Segui o conselho. A lavagem, que começou com cheiro de ferro e sabonete líquido,  aos poucos foi diluindo o vermelho como uma tinta de aquarela  Três estudantes de arte entraram.  A mais velha me reconheceu.

– Foi você que fez a pergunta do signo, não foi?

  Logo em seguida, contou também das vezes que tinha passado pela mesma situação com a roupa e emendou as vantagens do coletor menstrual. A mais nova pediu permissão para fotografar a cena dramática do sangue, a outra da mesma idade apoiou.

                – Desde que você não me exponha – respondi compreensiva das inquietações visuais da jovem artista.  Quando me mostrou o resultado da imagem, vi que poupou meu corpo e rosto, mas mostrou as mãos. Quem saberia que eram minhas?  Permiti o uso da foto, mas não me entusiasmei com a ideia. As duas meninas mal saídas da adolescência ainda tinham poucas histórias de manchas na roupa como eu, Nice e a mulher mais velha.

                As três deixaram o banheiro enquanto eu torcia a saia e a agitava o tecido para que o molhado passasse a úmido.

                Como disse, nunca passei uma vergonha, pequena que fosse.  Esta história, feito outras, foi esquecida por mim e por todos como a água vermelha que clareou e desapareceu no ralo da pia. Como as tantas histórias que Nice presenciava. Quando deixei o banheiro, o hall estava vazio e os seguranças estavam prontos para fechar as portas de vidro que davam para a calçada. Na esquina, as três mulheres conversavam com o multiartista. Meu vestido estava praticamente seco e eu me senti mais à vontade para chamar um táxi ou carro de aplicativo. Também mais à vontade para acompanhar os gestos largos e as risadas na conversa dos quatro.  Eles não riam de mim.

 Meu carro levou sete minutos para chegar e os quatro ainda estavam na esquina. Passei por eles e pelo vidro traseiro vi que a conversa estava tomando o rumo de um dos bares das ruas transversais. Eles não me viram mas me despedi do grupo pensando que estava leve depois de tanto sangue lavado. As mãos não guardavam cheiro de ferro. Da mesma forma que nunca mais encontraria com as tantas pessoas desta cidade que já me viram bater a cara num poste, tropeçar num buraco, cair sentada na chuva nunca mais voltaria a ver o artista e as três mulheres.

                Semana passada, visitei uma exposição do pintor, escultor e fotógrafo. Na quarta obra, uma estrutura com várias telas, reconheci a imagem do meu sangue descendo pelo ralo. No resto da mostra não achei qualquer referência à astrologia.

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