Muita coisa foi falada sobre a morte do Amazonas. Cardiologistas, peritos forenses, repórteres, mães de santo, pastores, um arcebispo conhecido do Papa e muitas páginas de memes comentaram sobre o caso. Nenhum deles, porém, pode dizer nada tão preciso quanto essa história. O que não quer dizer que é preciso conhecer essa história, assim como muitas outras. Poucas valem a língua que as conta e, com certeza, não é o caso dessa. Ela não vai entrar para a eternidade – porque pessoas passam, histórias passam. Mas a vida, feliz ou infelizmente, continua. E contar histórias às vezes ajuda a passar o tempo.
O personagem dessa história tem por nome de registro Josemar Elígio. Conhecido em toda a zona norte carioca como Amazonas, ele é frequentador infalível da Vila Mimosa, a mais emblemática área de prostituição da cidade. É porteiro em um prédio residencial na zona sul, onde também o chamam de Amazonas e desconhecem que ele é cearense de Barbalha. Já morou no Méier, na Mangueira, em Caxambi, em Campo Grande e até na Cruzada, cortiço (ou Selva de Pedra ou favela vertical) que é a pedra no sapato do coração do Leblon. Sua residência favorita da vida toda, porém, é a atual, um quarto e sala na rua Ceará, na Praça da Bandeira, a poucos metros da Vila Mimosa.
Uma semana atrás ele entrou no cabaré O Cabaré, bordel mais barato da área. Muitas prostitutas – ou, como ele gosta de dizer, “vizinhas” – o viram entrar acompanhado no quarto mais barato da casa. Tina Turner, uma veterana da vida e velha conhecida do Amazonas, o ajudou a tirar os sapatos. É uma tarefa muito difícil de se fazer sozinho por conta de sua barriga bojuda. Os dois tiraram a roupa e ela ficou de quatro na cama, única posição possível para trabalhar sem ser esmagada pela barriga bojuda. Depois dos dois minutos de praxe, ele despencou no colchão e ela olhou para o relógio de parede com posições sexuais, pegou um cigarro na mesinha de cabeceira e se deitou para esperar os 56 minutos até o próximo cliente. Encostou no pé do Amazonas e percebeu que estava gelado.
Tina Turner sacudiu o Amazonas. Ele não se mexia de jeito nenhum e tinha na boca aberta uma puxadinha de sorriso. Na época em que as janelas d’O Cabaré não tinham mosquiteiro é que seria bom, ela pensou. Uma mosca entraria na boca do homem e o acordaria. Mas não veio mosca nem mosquito, não veio suspiro nem bufo. Tina Turner ficou desesperada. Não tanto pelo Amazonas, que provavelmente gostaria de morrer no lugar que mais amava, mas por sua própria reputação. Além de ser puta velha famosa por usar dentadura, ficaria com fama de viúva negra e sua carreira, seu sustento, chegaria ao fim. Ela começou a gritar. Amaral, ex-PM e segurança ciente da fama de inadimplente do cliente em questão, entrou correndo com um pedaço de pau na mão. Como os gritos da mulher continuaram e não se ouviu barulho de paulada, outras mulheres entraram também, Todas viram o Amazonas duro como nunca, gelado, morto. Algumas fizeram o sinal da cruz e uma fingiu um choro.
“Esse priquito é velho mas é perigoso, hein”, disse Kelly, uma prostituta de vinte e poucos anos com cabelos descoloridos cor de cobre. “Tininha da sentada fatal”.
Tina Turner avançou em Kelly e lhe deu uma mãozada na cabeça. Amaral teve um certo trabalho para separar duas. Uma saiu com a mão sangrando por conta da mordida de dentes originais e bem duros de vinte poucos anos, outra saiu com poucos cabelos descoloridos cor de cobre na cabeça. Devido à confusão, ninguém ouviu o ponteiro do relógio mexer. O ponteiro dos minutos e o das horas estavam no mesmo lugar quando o Amazonas endureceu e esfriou: sobre a figura de um boneco de palito azul, de pé, atrás de um boneco de palito rosa, de quatro, marcando 00:00. Devido à confusão, ninguém ouviu o relógio marcar 00:05, nem a cama ranger sob o peso de uma barriga bojuda, nem a pedra de um isqueiro ser riscada.
“Bora parar com isso, briga de rapariga é pecado. Eu amo todas igual”, o Amazonas disse e riu enquanto acendia o cigarro.
Muitas prostitutas se ajoelharam no chão e gritaram “milagre!”, outras gritaram maldição. Umas chamaram por Santa Maria Madalena, outras chamaram por Maria Padilha. Amaral largou o pedaço de pau e chamou pelo Doutor, um ex-médico que perdeu sua licença por fazer abortos clandestinos (mas sem nunca matar ninguém) para as mulheres da Vila Mimosa. Doutor chegou com um jaleco encardido por manchas de batom e de gordura. Trazia uma maletinha branca com uma cruz vermelha numa mão, uma lata vermelha e amarela de cerveja na outra e um estetoscópio no pescoço. Auscultou o coração do ex-defunto e constatou que batia bem lento, como que adiando algum compromisso, mas batia. O Amazonas olhou seu relógio de pulso e disse:
“Quase meia-noite já, macho. Me libera pra eu terminar meu tempo com Tininha”.
“Tá maluco, Amazonas?”, Tina Turner disse. “Teu tempo já era e eu que nunca mais deito contigo, nem pelo dobro do preço”.
“Oxente. E que hora é essa?”, o Amazonas disse.
“Quase meia-noite e meia”, Tina Turner disse e apontou para o relógio na parede.
O ponteiro menor estava sobre a figura de um boneco de palito azul, de pé, atrás de um boneco de palito rosa, de quatro, marcando meia-noite; o ponteiro maior estava do outro lado do relógio, quase sobre a figura de um boneco de palito azul, de pé, e um boneco de palito rosa, ajoelhado e com a cabeça na cintura do boneco azul. O Amazonas olhou para o relógio na parede e se assustou. Ele mexeu apressado no seu próprio relógio, no pulso direito, e em seguida despencou na cama. Doutor se aproximou do Amazonas com o estetoscópio, mas não auscultou nada. Ele estava duro como há meia hora atrás, gelado, morto. As mulheres voltaram a gritar, Amaral deixou cair o pedaço de pau, Doutor deixou cair a maletinha (mas não a lata de cerveja). Devido à confusão, ninguém ouviu o relógio marcando 00:35, nem a cama rangendo sob o peso de uma barriga bojuda, nem a pedra de um isqueiro sendo riscada.
“Eu vou é pra outro puteiro. Hoje vocês tão tudo emocionada”, o Amazonas disse, acendeu um cigarro, se vestiu e saiu d’O Cabaré. Todos ficaram chocados, inclusive o Amaral, que nem se lembrou de ameaçar o duas vezes ex-defunto com o pedaço de pau por conta da conta não paga.
Acontece que o Amazonas era igual ao tipo médio de frequentadores da Vila Mimosa em quase tudo: trabalhador pobre da zona norte, nordestino, pardo, acima dos 50 anos, fã de cerveja ou conhaque vagabundo ou os dois, e barrigudo ou careca ou os dois. A única exceção era seu gosto musical. Enquanto o que tocava na zona era principalmente brega, forró eletrônico e um pouco de funk, o Amazonas gostava mesmo era de Nelson Cavaquinho. Conheceu suas canções e ouviu todos os seus álbuns. O seu favorito era “Depoimento do Poeta”. Nele, Nelson Cavaquinho diz que nunca teve medo da morte e em seguida conta uma história (que vai passar um dia, assim como ele): Depois de sonhar que iria morrer às três da manhã, Nelson acordou às 02:30 assustado e atrasou o relógio.
Na semana passada, no mesmo dia em que entrou n’O Cabaré e saiu de lá duas vezes ex-defunto, o Amazonas foi ao Souza Aguiar com dores no peito. O doutor que o atendeu (que nunca tinha feito aborto, mas matou algumas pessoas com ponte de safena), disse que ele estava nas últimas. Depois que o Amazonas contou que tomava viagra quase todos os dias há mais de dez anos, o doutor respondeu que ele morreria assim que tomasse outro comprimido azul. O Amazonas foi para O Cabaré, atrasou seu relógio de pulso em meia-hora, tomou um viagra e morreu. A morte chegou na hora marcada, mas descobriu que o morto ainda tinha tempo.
Naquele dia, o Amazonas morreu e voltou ainda mais uma vez. Depois disso, passou a atrasar o relógio em intervalos cada vez maiores. Já era famoso na Vila Mimosa por ser xarope, mas ficou ainda mais, agora conhecido como “o homem que enganou a morte”. Ou, ainda, como “o homem que ganhou uma colher de chá da morte”. Sem saber quanto tempo as engrenagens do seu relógio antigo iriam aguentar tantas voltas de atraso, ele resolveu aproveitar. Deu um jeito de ser demitido no prédio residencial da zona sul, pegou o fundo de garantia e gastou em todos os estabelecimentos da Vila Mimosa. Pediu Kelly, a de vinte e poucos anos e cabelos descoloridos cor de cobre, em casamento. Bancou a saída dela d’O Cabaré para a Mosaico Night Club, o prostíbulo mais famoso e mais caro da área. Patrocinou uma peruca platinada e Kelly passou a se chamar Lady Gaga e a dançar no palco no horário nobre da Mosaico. O Amazonas pagava rodadas de uísque para todos, mesmo com a casa cheia. com a única exigência de tocar entre os funks e forrós uma música de Nelson Cavaquinho, que ele cantava sozinho na boate:
“Me dê as flores em vida
O carinho, a mão amiga
Para aliviar meus ais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais”
Até que hoje, depois de uma semana morrendo e voltando, o Amazonas aplaudiu o streap-tease de Lady Gaga e foi com ela para a suíte Catra, a mais cara da Mosaico. Tomou um comprimido azul, tirou a roupa da mais nova diva da Vila Mimosa (mas sem tirar a peruca platinada) e, depois dos dois minutos de praxe, foi para o banheiro. Estava se sentindo tão bem e poderoso, com o coração tão forte, que deixou o relógio na mesinha de cabeceira. Então Lady Gaga, depois de vasculhar a carteira de seu noivo, viu que o relógio dele estava atrasado, mexeu nos ponteiros e o colocou na hora certa. E aí eu finalmente cheguei. O Amazonas morreu e dessa vez foi de vez. Lady Gaga parou de chorar por ele assim que voltou a ser Kelly. Tina Turner foi a única que rezou para ele, uma prece e nada mais.Essa é a história da morte do Amazonas, que passou. A história dele também vai passar. Mas a vida, feliz ou infelizmente, continua – assim como meu trabalho. Essa história, assim como muitas outras de gente que tentou me enganar, vai passar. Mas contar histórias às vezes ajuda a passar o tempo.
