Francisco, na porta do Enem, sem caneta Bic preta

(Leticia Eboli)

Enzo cobria como repórter a sua primeira prova do Enem, tinha sido destacado para ficar na UERJ, a universidade estadual do Rio de Janeiro. Na primeira entrada entrevistou Rogério, ambulante na porta da prova, enquanto ele vendia caneta para o vestibulando Francisco. “Minha mãe viajou e ela que sempre arruma minhas coisas, acabou que esqueci né” e ria de nervoso o adolescente, de excitação o ambulante e Enzo de prazer com essas pequenas catástrofes. O segundo link ao vivo seria dos atrasados. Enzo mostraria os que choravam na porta porque por uma fração de segundos não conseguiram entrar. O repórter iniciante tinha o sonho secreto de fazer aquela cobertura. Aquela alegria de criança quando vê a outra se dando mal, tipo se fudendo mesmo. Mal escutava o diretor no ponto passando as orientações se lembrando do dia em que pediu pro pai “um dia podemos bater nele, só um pouquinho?” – perguntou quando tinha cinco anos ao lado do berço do irmão que havia acabado de nascer roubando o seu protagonismo. Naquele dia de cobertura do Enem, sonhava enfiar o microfone goela abaixo com perguntas de velório para candidatos que veriam o ano de estudo ser barrado no baile “como você se sente?”, “o que espera pro futuro?”. Ninguém perdeu a prova atrasado. E o diretor da transmissão deslocou a entrada para São Paulo, onde alguém que nem Enzo se lamentava abraçado à grade. 

Raquel, com garfo e faca, na sala de jantar 

Mas o que tem errado estar na sala de jantar com garfo e faca? Nada, se o jantar não fosse rã servida como prato principal. E Raquel fosse ela. 

No prato porcelana pintada a mão, as pernas brancas cruzadas uma sobre a outra como quem se deita de bruços para tirar uma soneca na tarde no outono. Na mais melancólica das estações, o outono, as folhas caem pra fazer cosquinha no verão, que uma hora se enche da brincadeira sem graça e leva o calor de vez pra longe. Não era ainda o caso, a essa altura o sol aquecia a pele embora não o suficiente para deixá-la dourada. 

A bunda murcha branco-azeda da rã, na refeição servida à francesa, na França, mais precisamente em Lyon, tirou Raquel daquele lugar e a levou de volta para a Praça Seca, no Rio de Janeiro. Se lembrou do Rogério, ex namorado da adolescência, que respondia ao apelido de Gosma. Ele não veio a óbito como a rã, porém deixou de existir na sua vida depois de tentar impedir a então namorada a fazer faculdade. Ver Rogério ressuscitar na lembrança de suas pernas flácidas de ex gordo em formato de rã aumentava ânsia de vômito de Raquel, que cursava seu pós Doc em infectologia. 

Ter sido convidada para um almoço de domingo na casa de Hugo Mallet mataria de inveja qualquer banca de doutorado. O convite tinha feito ela “desejar a todas as inimigas vida longa”. Raquel poucas vezes na vida se sentiu tão segura e confiante de suas escolhas. Só ela sabia as dores e delícias de estar ali abrindo uma brecha da família por seis meses importantes, justo no ano de vestibular de Francisco, o filho mais velho, que lhe veio como inspiração. Quando criança, Chico era especialista em fungir que comeu, espalhar tudo pelo prato, o que era sempre mais difícil quando se tem ossos. 

Mallet, o pesquisador octagenário, com indicação ao Nobel, era conhecido por levar uma vida muito discreta. O pequeno apartamento de térreo reforçava o seu recolhimento. Não havia iluminação direta e a casa de poucas palavras falava por si só através dos livros povoando todas as paredes, exceto as da sala de jantar rodeada de janelas. Raquel se sentou de costas para a janela e a sua frente Malet na parede com um aparador de madeira talhada com um porta-retrato com moldura estilo de marfim com uma foto de seu casamento e uma vitrola. 

Já havia desenvolvido tolerância a escargot e steak tartare, mas pensava que rã, se você não nasce comendo é impossível transitar por esse pântano. Focou nas batatas coradas em fatias finas formando uma flor tendo no centro o anfíbio triste. Desenhou a estratégia de comer as pétala por pétala de batata brincando de bem me quer, mal me quer enquanto a rã iria junto pensando que parece frango. parece frango. parece frango. parace. parece. parece. 

Padecia. 

Mallet se levantou para buscar o vinho na cozinha. Raquel era do tipo que não negava uma tacinha, “qualquer coisa com bebida fica melhor”, se consolava. Arquitetou afogar parte da rã na taça. Plano que se diluiu no “merci” ao ter o copo servido com vinho branco, que não daria conta de esconder nada. Espetou o garfo na coxa direita do anfíbio, chegou a encostar a faca para iniciar o corte. 

“Bon appetit”, brindou Mallet, dando um gole na bebida e, logo, se virando para colocar o vinil “Elis e Tom”. A faca de Raquel ao invés de ir de cima para baixo, foi de baixo para cima catapultando a rã para atrás dela em direção à janela. Raquel não conseguia ver mas a rã se arreganhou toda, abriu braços e pernas num vôo livre. 

Até o vidro da janela. Que estava fechada. 

Ela jamais imaginaria que na casa de um velho francês de unhas sempre encardidas o vidro seria tão limpo que desse a impressão de janela aberta quando se estava fechada. Devia limpar o vidro com jornal. 

Mallet usava aparelho de última tecnologia para audição. Na calma de Águas de Março começou a caminhar em direção ao incidente. 

Raquel reagiu com seu instinto ao vexame. Se livrou do “quel”, ficou apenas com o Rã.

Mallet fechando o verão se postou ao lado de Rã e rã. 

Rã se apressou em levantar da cadeira. Já no chão, com as duas pernas em posição de dez para as duas e as mãos esticadas paralelas ao chão, começou a pular em direção a sua bolsa no sofá. 

Mallet chegou até a rã desprezada, pegou a defunta e em pé, encostado na janela, começou a comê-la com as mãos. 

Rã catou a sua bolsa em cima do sofá de couro puído, a colocou atravessada no pescoço e saltou rumo a porta coaxando no ritmo da canção “Non, je ne regrette rien”. 

Mallet escutou a porta bater e logo viu Rã pulando em saltos largos pelo canteiro do prédio. Com as mãos sujas de erva fina, abriu a janela para documentar a cena em fotos sem reflexo. 

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