Entre o dedo indicador e o do meio, escapava uma das patinhas protorácicas. Do indicador pra lá, a cabeça solta e as antenas ainda grudadas. Do do meio pra cá, a outra protorácica, as duas mesotorácicas, o par de longas metatorácicas, dois terços do exoesqueleto e o cheiro de medo. Os olhos cansados de Narcisa têm dificuldade de focar a cena. Um pouco pelos mais de cinquenta anos de uso, um pouco pelos mais de 50% de teor alcoólico do gin e um outro pouco pelo movimento rápido e descoordenado do bicho que parecia ter levado um choque.
Narcisa tinha deitado de vestido ainda. Quando o elevador deu tranco pra subir, ela começou a fazer conta meio que no automático. Voltava do jantar de Maitê, do sétimo. Já perto de sair, ouviu uma discussão sobre o teor alcoólico do gin que tomavam todos desde o fim da tarde. Tinha aposta de 50%, de 57% e de 63%. Ninguém se deu ao trabalho de checar a garrafa. Ela tomou cinco drys. E fazer conta quebrada a essa hora não era uma possibilidade. Aí tranco do elevador, 5×50, ela tinha o que, uns 250% de álcool circulando no sangue? Deu medo e sono essa matemática troncha. Entrou em casa tropeçando e tirando o sapato, abriu a janela na intenção de acender a luz, bateu a porta com a chave pro lado de fora, jogou anel, pulseira e colar pra tudo que é lado e deitou no sofá mesmo. Nunca teve problema pra dormir, até porque Zolpidem. Tomou com o último gole do quinto drink. O vestido era de alça e de seda da boa, fazia calor no Chopin e talvez não houvesse camisola capaz de deixá-la mais confortável.
Do lado de fora da janela, mirando a Avenida Atlântica, barata também usava preto. Um marrom escuro, quase preto. Lutava contra o vento, as luzes e o barulho dos carros. O calor do apartamento fez convite e ela entrou numa sala cheia de espelhos que lhe atrapalharam os sentidos. Voou até um dos sofás. Nos sofás, aquela quantidade perturbadora de cores e estampas, a textura duvidosa da almofada arrepiou os pelinhos das antenas, as patas se puseram nervosas. Viu no vestido escuro de Narcisa, os poucos centímetros de paz do ambiente. Foi para lá que barata abriu asas.
Narcisa tinha o corpo inteiro acomodado no sofá que não é que nem o meu, ou o seu sofá. Dá pra dormir esticado, de pernas e braços abertos, pra quem dorme esticado, de pernas e braços abertos. Dá pra dormir como quiser e acordar sem dor no corpo. Mas ela ia encolhidinha, quase abraçando os joelhos, virada pro encosto, as costas livres. O vestido subiu, como sobem todas as camisolas longas, por melhores que sejam. Havia uns dois centímetros de pele entre a calcinha e a seda. Por ali mesmo barata começou a caminhada.
Tomaram as duas um sustinho de nada quando um corpo encostou no outro. A que se dedicava a descansar, seguiu descansando. A que se dedicava a se abrigar, seguiu se abrigando. As patinhas que já tinham pisado meio Rio de Janeiro, só hoje, pisavam milímetro a milímetro a coluna vertebral de Narcisa. Ela foi sentindo o movimento. Foi se agoniando um pouquinho. Pôs a mão nas costas, mas tocou o centímetro anterior. Barata já no próximo. A dança seguiu, uma na lombar, a outra na torácica, uma na torácica, a outra na cervical. Até que barata tomou confiança, pisou duro, ganhou velocidade. Narcisa levantou no desespero, barata alcançou o pescoço, Narcisa se deu tapas fortes, pulou de um pé pro outro, fez o grito chegar no apartamento de Maitê. Barata passou pra cabeça. E pra testa. E pro nariz. E pra bochecha. E pro pescoço. O tapa se deu no meio dos peitos.
Os olhos desfocados de uma, tentaram olhar para os caleidoscópicos já mortos de outra. Não rolou. O corpo, esse sim vivo super, se esfregou no dedo de Narcisa até ela se dar conta do asco. Aí outro grito. A bicha voou e os vizinhos apareceram pra acudir a convidada que tinha sido a primeira a sair da casa de Maitê. Cada qual com pra lá de 500% de álcool no sangue. Bem, a festa passou pra sala de sofás coloridos e a discussão passou a ser quantos dias uma barata segue viva sem a cabeça. Isso foi fim de semana passado. Narcisa tem dormido acompanhada desde então, embora não saiba. São 30 dias, eu pesquisei.

