Sem roupa e bem vestida

– Preciso dormir um pouco antes de morrer. Que coisa é essa de você ficar me revirando na cama?  Me deixa sem roupa, me enterre pelada, só vestida de flores. Quem vai perceber? Me deixa dormir.

– A senhora já está morta.

– Então me deixe. Que coisa é essa de você ficar me revirando na cama?

– Estou vestindo a senhora

– Já disse. Me enterre pelada. Entenda como um último desejo, já que você não me deixou dormir.

–  Mas a senhora morreu dormindo.

– E quem é você?

–   Danusa, maquiadora e estilista.

– Estilista de defunto? Me vista de flores.

– Mas tem aqui uns modelos lindos. Roupas do seu tamanho. Coisas sem uso do seu próprio guarda-roupa.

– Doe a quem precisa. Pegue pra você.

– Posso?

– Claro! Assim você me deixa sumir pelada. Dizem que tiram roupa antes de cremar.

– Mentira.

– Mentira nada. Tem brechó só de roupa de gente cremada. E se for mentira, não me interessa. Meu desejo é sair do mundo do mesmo jeito que entrei.

 – A senhora devia ter deixado o pedido por escrito. Como vou explicar aos seus parentes e a meu chefe?

– Me vista só de flores e evite os crisântemos, que têm cheiro de morto. Quero flor perfumada. Damas da noite e jasmins daqueles cheiros tão carregados que enjoam.

– Ideia boa e ao mesmo tempo linda.

– Já entendeu por que, não é?

– O perfume é tão forte que ninguém vai suportar ficar olhando a senhora por muito tempo.

– Isso. Nem vão conseguir ver os pedaços de pele aparecendo.

– E depois a senhora é tão branca que vai se confundir com as flores.

–  Mais branca depois de morta.

– Da cor do leite.

– Tantas vezes me falaram isso. Branca como o leite. O sol me fazia mal. Tinha que ir vestida pra praia. Vivi vestida, quero morrer pelada.

– A senhora já está morta.

– Tem certeza? Não posso tirar um cochilo antes?

– Não faz sentido.

– Estou cansada.

– A senhora vai descansar eternamente.

– Como você sabe? Já morreu?

– É o que dizem.

– Dizem que você já morreu?

– Não. Que a morte é o descanso eterno.

 – Mas eu queria só um cochilo. Que horas são?

– São treze horas.

– Tá vendo? Hora do meu sono da tarde.

– Que almocei hoje?

– Não sei, Dona Alzira. Cheguei aqui depois do almoço.

– Onde é aqui?

– O necrotério do hospital.

– Frio, não acha?

– Por isso a roupa. Era melhor a senhora vestir uma roupa. Ficar mais elegante.

 – E pelada não é elegante? Meu corpinho murcho ainda tem beleza. Sabe quantos anos eu tenho?

–  Diz aqui 88.

– Oitenta e oito e em março, 89.

– Que dia é hoje?

– Dezoito de dezembro.

– Pertinho do Natal. Os parentes não vão gostar. Deixa eu dormir um pouco. Diz pra eles que estou descansando e eu morro depois do Natal. Melhor ainda. Depois do Ano Novo ou melhor ainda, ainda. Morro no dia do meu aniversário, assim dou um trabalho só.

– Por que um trabalho só?

 –  Cumprimento e lamento no mesmo dia, depois as cinzas e o fim definitivo sem parabéns, nem pêsames. Pronto. Vão todos esquecer de mim.

–  Podia ser desse jeito.

– Com prazo de validade redondo?

–  É. Morrer no mesmo dia que nasceu.

– Complicado, Danusa.  É Danusa, não é?

– Danusa das Neves.

– Então, Danusa. Isso aí com data marcada, dá ansiedade. Não serve.

 –   Foi só um pensamento aqui.

 –  E depois tem gente que prefere nem esperar. Como faz com estes?

– Verdade! E esses? Já vesti e arrumei uns assim. Nem sei por que tive a ideia.  Posso vestir a senhora? Fazer as unhas, maquiar, arrumar o cabelo?

  – Pode tudo. Só não pode vestir. Quero as flores. Esqueceu?

– Claro que não!  Já consultei os seus filhos e netos e já pedi num site.

– Que beleza! Pediu também uns copos de leite? 

–  Pra servir na cerimônia?

– Não, Danusa! Pra juntar com o jasmim e a dama da noite. Quero segurar um buquê de copos de leite.

–  A flor! Me desculpe. Vou refazer o pedido.  Mas nem confirmaram o outro. Se não der tempo,  vou ter que vestir a senhora com o tailleurzinho verde água.

 – Jura que foi a roupa que escolheram?

– Por quê?  Tem outras, mas seus filhos pediram esta.

– Ah é? Detesto. Fico com cara de beata. Agora é que eu quero seguir pelada.

– Tão bonito!

–  O tailleur? É seu, Danusa! Pode ficar. Leve as outras roupas também.

– Tá certo, Dona Alzira. Obrigada.  Fica tranquila. Tô vendo aqui que vai dar tempo para as flores. Só preciso sair pra buscar.

– É longe?

– Não. Uma loja duas quadras daqui.

–  Conseguiu os copos de leite?

– Sim, Dona Alzira! Duas dúzias. A senhora vai ficar bem vestidinha de flores. Estou saindo pra buscar, tá?

– Vai, minha filha! E pode demorar. Enquanto isso, eu durmo um pouquinho.

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