Dois pra lá, dois pra cá (de Carol Schettini)
Dulce não sabe do que ele morreu. Alguns disseram parada cardíaca, infarto fulminante, tanto de suplemento, já viu, né? Logo agora. Dulce ficou muito tempo em casa, não saía para nada. Descobriu uma aula de dança numa academia perto e no ritmo da valsa, do funk e cha, cha, cha, voltou a se divertir. Uma sina. O professor ali morto no caixão.
Dulce não conhecia ninguém no velório. Nenhuma das suas colegas apareceu. Devem estar todas mortas. Ao chegar perto, achou o rosto dele estranho. Estava com a boca para baixo e viu a boca subir como se puxasse os cantos com um anzol. Boneco de ventrículo tinha muito no antigamente. O professor morto abriu o olho direito e piscou. Dulce levou tanto susto que pulou para trás e, dando um gritinho minúsculo, derrubou um arranjo de flores. Com mais vergonha do grito do que das pétalas ao chão, Dulce levou as mãos ao rosto num falso choro convulsivo e foi embora. Não teve coragem de contar a ninguém sobre a piscadela. Espasmo involuntário ou caduquice poderiam dizer.
Esqueceu da piscada do morto até o dia em que foi passear no centro da cidade. Quem estava lá atravessando a avenida, com os pés trançando em ritmo de samba? Ele, o professor. O mesmo cabelo, porte físico, pés, ah, os pés, Dulce não conhecia mais ninguém que andasse flutuando.
No grupo de whatsapp da academia havia o contato dele. Mandou uma mensagem, o número não existia mais. Na rede social, descobriu seu nome com o sobrenome. Pediu ajuda a uma amiga que trabalhava num banco para acessar seu cadastro no banco de informações. A amiga disse que ainda não haviam anexado sua certidão de óbito (sabia) e passou o contato de um parente próximo. Ligou, fingindo ser uma pessoa do passado e confirmaram sua morte. Alguém estava mentindo para ela. Ela não era biruta. Tá certo que estava sem óculos na rua, mas para ver pés sambando ninguém precisa de muita nitidez.
Foi na delegacia. O agente queria dispensá-la na triagem. Talvez pela insistência, talvez pela muita idade, o delegado concordou em recebê-la. Dulce contou a piscadela, o morto sambando na faixa de pedestres. O delegado nem piscou. Dulce apelou para a novela. O senhor não viu quando enterraram a personagem e ela apareceu vivinha da silva no dia seguinte? Ele não tinha tempo de assistir televisão. Dulce foi na antiga Grécia, buscou Romeu e Julieta, não lembra?, um tomou veneno falso para fingir de morto e o outro acordou, viu o falso morto, pensou que era de verdade e apunhalou com uma faca e aí o falso acordou e suicidou. O delegado perguntou se tinha um morto e uma faca? Não, não tinha. O agente da portaria trouxe uma cópia da certidão de óbito para mostrar a ela. Não pode ser falsa? Pouco provável. Quão pouco? O delegado não quis falar só em novela, com medo de alimentar a loucura da velha. Por que a senhora não procura um novo professor? Ou um centro espírita? Dulce sentiu-se ofendida. Como chamar um morto para conversar se o morto está vivo, ora essa?
A ideia da academia não era tão ruim. O professor não poderia ficar sem trabalho. Onde ele ia arrumar um ofício novo, sendo morto? As aulas foram canceladas, informaram na recepção. Posso ir na sala dar uma olhadinha? A moça estava no celular e nem percebeu quando Dulce se esgueirou para dentro.
A sala vazia sem som, sem luz, só chão, parede e espelho. Silêncio. Dulce sentiu-se deprimida com a falta da música, com a falta das conversas fiadas, o silêncio ecoava dentro dela, como se ela fosse todo o silêncio. Ela se estica alongando os braços ao alto. Primeiro como um zumbido ao longe, depois, forte e vivo. Ei, veio dançar? Está na hora? O professor ali parado na sua frente. Pode ligar a música? Dulce vê o professor inteiro, vê embaçado, vê tudo branco e não vê mais nada. Acorda deitada num colchão no meio da sala. Não se lembra de ter um colchonete por ali. Ainda mais um azul!
Dulce saiu da sala e correu até a recepção. Posso alugar a sala no horário da antiga aula?
Dulce se arrumou e ficou preparada esperando. Quando o professor chegou, ligou a música baixa, não tinha caixa de som, apenas o volume do celular. Isto bastava. Ela seguiu seus passos, dois pra lá, dois pra cá. Sentiu dificuldade em acompanhar a coreografia. Se antes dançava para a direita, agora fazia tudo ao contrário. Está difícil assim, ela reclama. Ora, Dulce, você precisa se acostumar. Aqui estou eu vivo. Dentro do espelho.
