PADARIA
Se a assinatura na malha estivesse mais visível, Fermina nem ia dar um Google. Sob a ilustração de um caminho até a porta de uma casa, ainda se podia ler a frase também desbotada. De cabeça baixa, enquanto buscava o autor, o homem terminou de prender a bicicleta ao lado da janela e entrou na padaria. Fermina só o percebeu mais perto quando ele se sentou no balcão e foi logo pedindo um suco de laranja antes do pão na chapa e da média escura. Ela não entendeu a pressa. Por pura intuição, achou que a velocidade do pedido não combinava com o Gabriel Garcia Marques que acabava de descobrir na busca. Fermina leu os movimentos rápidos das mãos do homem, releu sua camiseta e guardou o celular numa espécie de vergonha por nunca ter lido “O Amor nos Tempos do Cólera”.
O ciclista de ombros largos ficou numa posição diagonal à sua. Da mesa, Fermina conseguia ver os olhos verdes, ainda mais verdes com o sol da janela. Ela pensou nos seus próprios olhos sob o mesmo efeito de luz e pensou também nas suas rugas destacadas. Não fosse o suco de laranja, teriam feito pedidos iguais. Bobagem. Todo mundo pede uma média e pão na chapa. Incomum era a frase na camiseta.
O balconista o chamava de patrão. O moço devia ser conhecido e além dos olhos, brilhava nas mãos uma aliança. Fermina preferiu voltar para a média, o pão e a paisagem. Antes do último gole da xícara, notou de novo a sombra do corpo magro perto da janela de vidro. O ciclista teve mais pressa que fome. Ele destravou o cadeado e seguiu para a avenida sem olhar pra trás.
“El susto de la amor”, Fermina guardou a frase no bloco de notas.
FARMÁCIA
O caixa da farmácia me perguntou se tinha ca DRAS to. Desviei o olhar para as pastilhas de garganta e respondi um sim quase inaudível, como se o tom de voz baixo pudesse amenizar meu constrangimento.
O balconista ouviu o erro e sem qualquer discrição, olhou de lado e silabou “CA DAS TRO”, três vezes, antes de apontar o dedo para o colega e gargalhar.
O caixa riu junto, provou que sabia falar CA DAS TRO e me refez a pergunta:
“Você tem cadastro?”
Mais aliviada, respondi de novo que sim. Então o rapaz finalizou a venda e me entregou o saquinho de papel com os analgésicos:
” Até logo, moça e desculpa pelo to PRE ço.
CALÇADA 1
Ainda é possível enxergar as penas e o penacho de George pelos rasgos no cartaz no poste. A calopsita macho fugiu há uma semana. Segundo os donos, a fêmea Lowen anda triste e solitária. Como podemos ajudar?
Lowen, minha querida! Voe também.
SUPERMERCADO
A fila tomava todo o corredor ao lado das gôndolas. Os itens supérfluos piscavam os preços mais baixos feito mimos pra finalizar a compra. Por que não um chocolate, um chiclete, amendoins, palavras cruzadas? Vi quando o homem, três clientes adiante, ora encarava os doces ora a caixinha nas mãos. Vi também quando meteu a mão no bolso, contou as notas soltas, deixou a pasta de dentes e levou o pão de mel.
ÔNIBUS 1
As unhas compridas da passageira dificultavam abrir a janela. Ela tentou várias vezes sem sucesso. O moço ao lado ofereceu ajuda e soltou a trava. Assim que o ar entrou, a moça atirou pra fora a embalagem do chocolate.
CALÇADA 2
Sra Mentora Espiritual do Cartaz Preso no Poste, quem disse que eu quero um amor a meus pés?
CALÇADA 3
A moça vem se equilibrando num salto 10, para na minha frente e me dá as costas:
– Você pode fechar meu zíper?
– Claro – fico na ponta dos pés e atendo ao pedido.
– Obrigada. Sozinha eu não consigo.
– Entendo. Quer também que eu feche a sua válvula de inflar?
ÔNIBUS 2
– Linda a marca no seu pulso. É de nascença ou cicatriz?
Soltei o braço da alça, puxei a manga da blusa e desci no próximo ponto.
ZONA 2
Vestiu uma membrana impermeável e saiu da bolha.
BAR
Chegam antes do burburinho dos happy hours e ainda há uma mesa livre na calçada. É o primeiro encontro no mundo real e o homem sugere uma cerveja japonesa. Ela gosta da ideia. Ao pedido, ele acrescenta duas caixinhas de chicletes.
– Você faz escolhas diferenciadas.
– Esta cerveja é ótima.
– E os chicletes? Por que os japoneses?
O homem coloca as duas mãos na borda da mesa, escorrega o corpo alguns centímetros no encosto da cadeira e encara a mulher de longe:
– Porque não grudam na prótese.
CONSULTÓRIO
Beth encontrou a amiga na sala de espera. Conheço Beth de outras idas ao dentista e aprendi seu nome pelo pingente que brilha num cordão de ouro colado ao pescoço.
– Carlinha – Beth se levantou para cumprimentar a amiga. Que bom ver você! E essa camiseta, hein?
– Viu só? Eles vêm para o Brasil. Começam em Salvador, depois Belo Horizonte, Rio, Curitiba e São Paulo.
Tentava me distrair com as imagens da TV sem som e a revista de celebridades, mas Beth sentiu a obrigação de me colocar na conversa.
– A Carlinha aqui é super fã do “Los Coisitos”.
Olhei para os quatro rapazes de terno estampados na camiseta preta de Carlinha e descobri que não fazia a menor ideia de quem eram os “Los Coisitos”. Disfarcei a ignorância coloquei alguma graça no sorriso e virei a página da revista.
Carlinha, insatisfeita com minha apatia, estufou a camiseta no peito, olhou para Beth, virou para mim e acrescentou à explicação da amiga:
– Sou, na verdade, é a Presidente do Fã Clube do “Los Coisitos” no Brasil.
– Ah! – eu respondi. Foi um alívio ter o que dizer.
Então fechei a revista e voltei para a TV sem som.
