Desencontro
Marisa é marqueteira, workaholic, viaja para descansar. Miguel é mascate, cachaceiro, viaja para trabalhar. Miguel dorme na rede, Marisa dorme no colchão. Marisa come açaí com granola, Miguel come açaí com farinha. Miguel dorme no convés, Marisa dorme na cabine. Marisa persegue a natureza, Miguel persegue o progresso. Miguel gosta da proa, Marisa gosta da popa. Marisa quer jogar dinheiro nas canoas dos ribeirinhos, Miguel quer chegar lá se a canoa não virar. Miguel é marrom e anda amarelo, Marisa é branca e anda mais rosa que o boto. Os dois se esbarram na borda do bordo para assistir ao encontro das águas. Passam trinta horas embarcados e não se veem no mesmo navio.
(Negro e Solimões, Amazonas)
Todo rio corre para o mar
Nem tudo que reluz é prédio espelhado. Nem todo trem é lotado. Nem todo mano é mano. Nem todo corre é adianto. Nem toda marginal atrasa lado. Nem todo motoqueiro é loki. Nem todo nordestino é baiano. Nem todo touro é de ouro. Nem toda moeda é trabalho. Nem todo job é trampo. Nem todo concreto é firmeza. Nem toda quebrada é pedaço. Nem todo operário tem salário. Nem todo amor não existe. Nem todo dia é útil. Nem todo descanso é preguiça. Nem todo prédio é tédio. Nem todo metrô é subterrâneo. Nem toda vidraça é válida. Nem todo pedreiro edifica. Nem toda maloca é saudosa. Nem todo narciso quer espelho. Nem todo grafite grita. Nem todo céu é cinza. Nem todo monumento merece. Nem todo tempo é dinheiro. Nem todo carioca é malandro. Nem todo paulistano é otário.
(Tietê, São Paulo)
Cacoete tem perna curta
Biriba tinha intuição pra chuva. Tanto que morava há anos na boca da enorme tubulação que deságua nas margens cimentadas do rio e nunca se afogou por causa de seu cacoete. Sentia o joelho esquerdo doer e se mandava pra debaixo da marquise antes que a tubulação jorrasse a água dos esgotos vizinhos. Mas na semana passada Biriba foi atropelado e amputaram sua perna. Na hora da chuva sentiu dor no vazio do joelho esquerdo, mas achou que era só a síndrome do cotoco. A dor no joelho esquerdo só parou quando ele morreu afogado.
(Comprido, Rio de Janeiro)
A medida exata das coisas
Todo recifense tem mania de grandeza.Todo recifense gosta de dizer que o Capiberibe e o Beberibe se encontram pra formar o Oceano Atlântico. Todo recifense tem mania de grandeza e Renata, como boa recifense, deu pra dizer que Fábio não a tratava como ela merecia. Fábio, como bom paulistano, sabia o valor das coisas e a mandou à merda. E agora, depois de chorar uma pocinha, Fábio se dá conta de que Renata era uma ilha grande e bonita no mar de merda que é a vida dele.
(Oceano Atlântico, Pernambuco)
Leis da física 1
Victor Hugo era calouro de engenharia química na USP e sempre ficava boiando nas aulas de Física I. Na festa de integração da Escola Politécnica no Velódromo, ficou boiando na rodinha das meninas bonitas quando o marombeiro do rugby apareceu. Descobriu que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo, principalmente se um for marombado e o outro for gordo. Deram um sintético pra ele se soltar, ficou espaçoso, o expulsaram da festa e o mandaram esvaziar a bolinha. Horas depois, o pessoal da geração saúde que sai pra remar ao amanhecer encontrou o corpo de Victor Hugo boiando na Raia Olímpica: cheio de ar.
(Pinheiros, São Paulo)
Essa gente tão pra cima
Você vê essa gente fanfarrona, simpática, marrenta, humilde, raivosa. E pensa que essa gente dá sempre um jeito de ficar por cima, seja num arrastão que engole a areia ou num deslizamento de terra durante as chuvas de verão. Você sente o perfume do Tietê e pensa que é tudo a mesma merda. Mas as águas que aqui esgoteiam, não esgoteiam como lá. Você vai à terra deles, é tratado mal. Eles vêm à sua terra, são bem tratados, te chamam de otário por isso, você ri. De um jeito ou de outro, eles sempre levantam seu astral. Mas, meu, não se engane: o carioca é subterrâneo.
(Carioca, Rio de Janeiro)
Sapas, cachorra e lontra
Selton ajudou a ex-esposa a carregar o caminhão de mudança, guardou as duas chaves no bolso e foi nadar. Estacionou num rancho entre a estrada e o rio, encontrou um velho reclamando que uma lontra tinha roubado seus peixes. Nadou um quilômetro até a ilha do Meio. Tentou voltar, a correnteza castiga, ele boiou e mexeu as pernas feito sapo, pensou em sapas, quis afundar, alcançou a margem. Queria parar em rancho com acesso para a estrada, foi dar no quintal de uma casa.
“Não entra, moço. Não entra pelo amor de deus”, uma mulher gritou da varanda. Ele pensava em voltar a nadar quando chegou um menino, mandou ele entrar, o guiou até o portão e abriu o cadeado.
“Fui prender a cachorra, que é muito racista”, o menino disse.
Correu descalço e de sunga pelo acostamento até o carro, se sentiu Abebe Bikila, sua ex gostava mais de Roberta Gibbs. Viu passar voltando para a cidade o caminhão, agora vazio, que ele ajudou a carregar.(Paranapanema, Paraná)
Leis da física 2 ou o nome das coisas
Bibiana não sabia dizer o que era um estuário, não sabia explicar pro marido por que voltou tão tarde, nem por que voltou ensopada depois de trepar com um vizinho no alagado do arroio perto de sua casa. Mas sabia que não nasceu pra apanhar e sabia que corpos boiam. Por isso amarrou uma pedra no pé do marido antes de jogá-lo no estuário, que ela não sabia dizer o que era.
(Guaíba, Rio Grande do Sul)
O luto dos homens bons
O casal de atores protagonistas foi nadar na margem direita do rio no intervalo da gravação do último capítulo da novela. O ator foi pego no pé por um redemunho e seu corpo só foi encontrado já em noite alta. Apesar de se afogar perto da foz, flutuou contra a jusante, como quem procura a nascente.
Enquanto os jornalistas mal começavam a tocaiar sua casa em São Paulo, onde morava com a mulher e os filhos, grupos de pelada e churrasco no WhatsApp fizeram uma pausa na pornografia e ajudaram a viralizar uma mensagem que dizia:
“Atenção, amigos. Favor não mergulhar depois de comer pitanga”.
(São Francisco, Sergipe)
Curva de rio
Do dicionário informal: diz-se que um determinado lugar ou pessoa é que nem curva de rio, porque tudo quanto é tranqueira (em termos humanos ) acaba encalhada por lá.
