Golden hour, golden shower

Ele se aproxima, pergunta se o lugar está vazio. Faço que sim com a cabeça. Ele pede uma cerveja desamassando uma nota de um dólar pra gorjeta. Pergunta se sou russa. Só uma russa atrás de um marido sairia de casa com essa neve pra beber num bar num domingo à noite. Respondo que sou quase, brasileira. Mas meus avós eram russos e não, não quero um marido. Mas se ele quiser casar comigo ficaria feliz com o greencard. 

Ele não é necessariamente bonito, é alto. Me lembra um Benício del Toro mas com cabelo liso pra baixo das orelhas. Depois descobri que o pai dele era porto-riquenho, o que faz total sentido pra mim, talvez tenha algum parentesco perdido com o ator.

Eu só tô na rua porque eu perdi a chave do airbnb e só vão conseguir um nova pra mim no primeiro horário da manhã. É pra ser uma noite longa e o bar já vai fechar no tempo de mais uma cerveja. Pedimos mais um shot de whisky pra assentar. A bebida foi descendo pela garganta e eu senti meus mamilos endurecerem. Nossos joelhos se encostando. Aquela intimidade que o grau etílico vai criando e dali pra casa dele nem lembro bem. Só lembro que tava um pouco difícil de andar por causa da neve.

Ele mora no primeiro andar de um desses predinhos no Park Slope. Assim que batemos a porta começamos a nos atracar no hall. Não fosse o tanto de casaco, a gente tinha transado ali mesmo, na escada que leva pro andar de cima. Vamos até o fundo do corredor e entramos pela cozinha. É daqueles apartamentos compridos que atravessam o prédio todo e o acesso pra todos os cômodos se dá por um único corredor. Ele tranca a porta, ouço a tv da sala ligada. Sou apresentada pra uma senhora de 82 anos, minha futura e insone sogra que assiste Downton Abbey. O botão da minha blusa estava aberto e senti que ela julgava a estampa do meu sutiã.

Vamos rindo até o fim do corredor que dá pra rua. Nos fechamos na sala de visitas. Uma mesa de escritório grande com uma cadeira de madeira estilo xerife numa ponta. Em cima dela discos e livros empilhados. A gente ri porque acha aquilo tudo engraçado. O sofá é bem comprido, mas estreito e curvo e vinil rosa antigo, meio anos 50/60 calculo. O aquecimento da casa estava funcionando bem, então tirar a roupa não foi um problema. Ele coloca “Wouldn’t it be nice” pra tocar na vitrola, declarando que Beach Boys é melhor que Beatles. Pra mim não faz a mínima diferença. E começamos os trabalhos. Começamos, terminamos e recomeçamos. Tinha até esquecido da velha na sala. Gemi mais alto, mas ela não escutava bem mesmo. Cansamos. O único lugar que dava pra gente se espalhar era no sofá rosa. Ele, bem mais alto que eu, corpudo deitou ocupando o sofá. Nós dois não cabíamos lado a lado e eu me deitei com a cabeça na outra ponta de forma que nossas pernas ficaram ainda entrelaçadas e trocando roçadinhas afetuosas. A agulha do disco e seu ploc ploc anunciando o fim do lado A faz tempo. Acabamos dormindo assim mesmo. Lá pelas tantas acordo meio suada, querendo fazer xixi. Achando a sala quente. Sinto o pé um pouco molhado. Acho estranho ele suar tanto. Tateio com o pé e sinto um splash splash contra o vinil do sofá. Receio que eu tenha mijado mas quando levanto a cabeça percebo que é ele quem mija durante o mais profundo sono. Levanto rápido pra não mergulhar mais naquela situação. A claridade de fora anunciando o dia. Tento acordar o rapaz e nada. Desmaiado. Eu realmente não queria ter que lidar com aquilo. Cato as minhas coisas. Seco meu pé na camiseta dele que acho largada em cima do meu sapato. E saio de fininho pela porta da frente. Segurando o meu próprio xixi. Não queria correr o risco de errar a porta do banheiro e cair no quarto da mãe dele. Imagina. Lá fora está bem mais frio, parou de nevar, as calçadas estão um pouco escorregadias. Estou a umas 4 quadras de casa. Vou andando devagar, meio miserável, meio constrangida, querendo chorar, querendo mijar, esqueci que talvez seja muito cedo pro chaveiro ter chegado. Levo um escorregão e caio de bunda no meio fio. Tento levantar. Meu sapato é muito errado e liso. É impossível ficar de pé. Caio de novo. Apenas aceito o quentinho que toma conta das minhas calças. Ao invés de chorar eu me descontrolo e rio, rio alto, gargalho. A minha bexiga ri junto, aliviada.

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