Maternidade
Uma amiga me disse que sonhava em ser atropelada pelo caminhãozinho da Tok & Stok. “É pequeno, não vai machucar muito, mas me garante pelo menos um mês de descanso no hospital. Eu ainda ameaço imprensa pra eles me indenizarem com créditos na loja, mando entregar antes da alta pra alguém montar, que aquilo lá vai ser um inferno”. As crianças não tinham nem cinco anos, ela só o pó e a casa toda esculachada. Quando eu soube que a Tok & Stok tava falindo me deu uma tristeza. Mãe não tem direito nem de sonhar.
Homo Sapiens
Deu errado.
Sombra
Minha mãe, meu pai, minha irmã e eu no maior cajueiro do mundo. A gente pequenininha, maravilhada, “como pode?”, “é que nem o de João pé de feijão”. Painho cheio de ciência: “é uma alteração genética, os galhos crescem pro lado, e não pra cima, com o peso caem e enraizam de novo”. “Mas sei lá, pode ser mágica também”, mainha adoçando. Eu e Poly aos pulinhos. Passa outro pai arrastando os dele: “isso é um pega besta, rapaz, o cara plantou um monte de árvore igual, num terreno quente e ainda cobra pra gente entrar”.
Pulseirinha vermelha no PS
– Nível da dor? É incompatível com a vida.
Leis da perspectiva
A segunda fase do vestibular de design era só exatas. Teve uma hora que o povo sacou os estojos e saiu arrastando tudo que é esquadro, transferidor e compasso no papel. Eu não sabia nem em que questão usar. Lembrei de uma lei que tinha lá em casa: se for convidada pra um almoço e não gostar da comida, se serve e cisca no prato, espalha, empurra as coisas de um lado pro outro e leva o garfo vazio na boca. Ninguém vai notar. Fiquei eu também alisando a prova com acrílico, pra ver se abençoava, sei lá. Passei, visse?
Frustração
Eu queria escrever um texto que os dois personagens principais se chamassem Frente Fria e Costas Quentes. Guardei essa ideia por anos. Parecia a coisa mais criativa do mundo. Mas agora, vendo assim digitado, ficou tão Ary Toledo.
Lei 12.112/2009
É urgente despejar de mim os inquilinos inadimplentes.
Contas
Depois que eu soube que Maria Bethânia tem pesadelo com prova de matemática toda vez que vai estrear um show, parei de me achar fraca. Período de prova, minha mãe (pediatra) me receitava Forten. “Nada de mais não, amor, pra te ajudar na memória”. Eu ficava tão magoada. Queria fazer bonito pra não tomar no ano seguinte, mas matemática. Acabava caindo, na recuperação, na re-ré e no conselho. Pronto, Forten. Só parei de tomar quando me dei por gente e decidi fazer prova de cara limpa. “Nunca mais”. Daí falei dessa na nutricionista semana passada, a gente tentando dar conta da memória fugitiva dos 45. “Forten é aminoácido e vitamina B, Rô. Tu já toma há mais de 20 anos”. Noves fora, nada.
Peixes com ascendente em câncer
– É de aproximação?
– Sou.
Trauma familiar
D ́Albuquerque é um sobrenome que carrega muitos erros. Primeiro, minha família é Albuquerque. O ´d´ a mais é exagero do escrevente no registro de meu avô. Meu pai, que é Júnior, herdou e transmitiu a herança. Segundo porque depois do apóstrofo deveria vir uma letra minúscula. Ou então o contrário, o ´a´ ficava grande e o ´d´ pequeno. Aí em formulário digital, tem que escolher se deixa um espaço, ou gruda tudo. A galera toma o apóstrofo por caracter especial, dá ruim. O pior são os formulários físicos. Você já nervosa porque tem escrever miúdo, não vai caber o nome todo, fica na dúvida se ocupa um quadradinho com o apóstrofo, se aperta no da frente ou no de trás. Aí você usa tanto a palavra apóstrofo que já nem sabe se é apóstrofo, ou apóstrofe, ou opóstrafo, ou apóstolo. Aí você sente uma culpa católica e lacaniana por negar o nome do pai. Aí você acaba tendo filho e repete o erro pra tentar dividir a culpa, pelo menos um pouquinho. Aí você vê as crianças assinando o primeiro nome, um ´D´. e o nome do outro pai.
Teatro
Passei Natal e Reveillon no Spa Médico Sorocaba uma vez, eu com uns vinte e poucos. Tinha acabado de levar um fora, os amigos todos já com programação, sobrei e não consegui pensar em nada melhor. Chegando lá, resolvi inventar que eu era jornalista da Boa Forma. Não sei de onde veio não essa ideia. Outro cara, embarcou e inventou que era jornalista de futebol. Gastamos quase 10 dias brincando disso. Ele mandava muito bem na atuação. A gente falava um monte de absurdo sobre as nossas coberturas jornalísticas e embolava de rir. No último dia, me deu um cartão. Era o Juca Kfouri.

