sussurros

sussurros (de Carol Schettini)

1- sobre charlotte 

(registro de nascimento)

Na lista de nomes para a bebê, Charlotte estava em primeiro lugar. Nome vetado. Charlotte é nome de cachorro, do cachorro do vizinho. Homem não pode escolher nome de menina. Nasceu a filha do homem e não ganhou o nome de Charlotte. Nasceu a filha da princesa, a princesa Charlotte. Enquanto frita bananas, escuta Charlotte latindo do outro lado da cerca. Charlotte também é o nome de uma cidade na Carolina do Norte. 

2- sobre van gogh 

(arte abstrata)

No campo de girassóis, deita. Os olhos, fecha. Quer o sol. O laranja penetrando por cada célula do seu corpo. Laranja sem azul não existe. Quer o azul. Azul da noite. As estrelas. A escuridão. Não sente nada. Viver dói. Respira. Imagina as cores misturadas e estampadas em uma tela branca. A vida é a tela. Mistura. Cria. Morre. 

3- sobre maior e menor 

(matemática)

Se a boca come, é maior. Se a boca grita, é menor. 

4- sobre a leitura 

(crime grave)

O professor diz: não pode ler livro de quem escreve pior. O escritor diz: tem que ler tudo, para escrever melhor. Dá como exemplo de livro ruim “O jardim dos esquecidos”. “O jardim dos esquecidos” era Harry Potter na década de oitenta. Li a coleção inteira. Por medo, hoje,  leio Verity de luz apagada. Embaixo das cobertas. 

5- sobre a chuva 

(afogamento)

A sola do pé dói andando na pedra. Na pedra da encosta, nas pedrinhas da praia. Na brita, também dói. No mangue, atola. O mocinho sempre pisava na areia movediça e afundava no filme da sessão da tarde. Se não conseguisse um galho, sumia rápido. Bem rápido. O homem afundou no rio. Será que ele levantou os braços?

6- a sensação na decolagem de avião 

(lição de economia)

A mãe enxuga as lágrimas na manga do casaco, na decolagem. Em terra, o filho procura o ticket do estacionamento. Se correr, talvez possa sair sem pagar.

7– como ele desenhava 

(serenata de amor)

Ela coloca no meio dos dentes e, creck, numa mordida parte em dois. Come a parte de cima primeiro, em seguida, a de baixo e, depois, coloca o recheio na boca como uma lua entrando no mar. Ele, ao contrário, morde tudo, de um jeito assim misturado. Nem todo mundo sabe dançar valsa. 

8- pedras do sono 

(amuleto)

Trouxe bonequinhas para dormir melhor da viagem que fez à Argentina. A vendedora assegurou: bastaria colocar embaixo do travesseiro. Sem preocupações, sem insônia, sem maus sonhos. Comprou uma de cada cor. Segundo a vendedora, bonecas também se cansam. 

9- sobre o fim 

(terceira idade)

Um nerd e uma descabeçada se tornaram melhores amigos de infância lá pela antiga sexta série. Quando ela teve um filho, ele entrou pela porta e saiu pela janela, foi a melhor visita do dia e nem olhou o bebê. Mandavam cartões um para o outro “você é chique, mora em Nova Iorque”; “você é chique, canta na Serenata de Natal”. Nunca foram chiques de verdade. Ela o obrigou a prometer se casarem com quarenta anos, porque queria vestir de noiva. Ela casou aos trinta e seis. Ele continuou solteiro. As décadas passaram e, finalmente, houve um abalo na amizade dos dois. O pai dele morreu. Na cena no cemitério, ao ver o amigo segurando a alça do caixão, doeu. Ali perdeu seu amigo de infância. 

10 – sobre o jantar de domingo com meu pai

(bem feito)

Soube que ela rasgou todas as dedicatórias dos livros, depois copiou o que havia escrito em livros novos ou colou as folhas rasgadas com durex, não tenho certeza. Também soube que jogou o celular dele na parede e trincou a tela. Tirou todas as bolas da árvore de Natal, largando tudo em cima do sofá de qualquer jeito. Ainda não quebrou nenhuma bola – ainda -. Há trinta e três horas não fala uma palavra com ele. 

“A culpa é toda sua”, eu digo.

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