Melhor não, mas se você digitar “idosa encontrada morta” no Google, na primeira página serão 10 links de notícia – nenhuma patrocinada, claro -, aquela partezinha do Google images com 4 fotos e mais outros 50 links. Dos 60, 19 são de maio e 13 de setembro. Das 60, 47 moravam em apartamentos. Aparentemente, maio e setembro são bons meses para se ser encontrada morta. E casas talvez sejam cenários perfeitos para se ser esquecida.
3 de maio de 2018
A primeira da busca é Quitéria, 89. Ligou pro 192, com uma dorzinha meio assim, tô com medo de passar mal. A dor é no braço, D. Quitéria, na cabeça, no peito? Não, na perna. Então a senhora fique tranquila, pela minha experiência não há de ser nada sério. Lembrou do endereço, do número do apartamento, deu o nome do zelador como único contato de emergência, não sabia do telefone, mas informou que era só discar *10 que ele atendia. Ainda lhe ocorreu dizer que o quarto era a terceira porta do lado esquerdo do corredor e que a chave estava no vaso de dracena. Ficou tranquila, mas por via das dúvidas colocou a roupa que tinha escolhido pro próprio enterro. Morreu antes do Samu sair da base. Infelizmente o socorrista rasgou a camisa de seda pérola pra tentar o desfibrilador.
24 de setembro de 2023
A que teve a notícia mais mal escrita foi Marluce. “Idosa encontrada morta em seu apartamento há quase 40 anos”. Você não sabe se ela morreu há 40 anos, se foi encontrada 40 anos atrás, ou se morava no Palácio de Roma desde moça. Mas dá pra saber que perdeu o sexto mandato de síndica na eleição do ano passado e que faltou à última reunião de condomínio. O novo síndico, que pleiteava segundo mandato, estranhou. Marluce estava em plena campanha, já tinha convertido quase todos os apartamentos do bloco B e era noite de eleição. Chamaram a polícia. Da porta mesmo deu pra ver Marluce nua na poltrona da sala de estar, o cinzeiro cheio na mesinha do lado, o gato vivo no colo do corpo morto, um disco da Angela Ro Ro na vitrola Panasonic. A agulha dando aquelas batidinhas depois da última faixa. Correu na portaria que era tão bem desenhada quanto imaginavam quando ela descia de penhoar pra buscar encomenda. Pedro, o zelador, lamentou o azul das pernas. Uma saudade danada do bronzeado de d. Marluce.
15 de maio de 2021
Rubia cultivou relação de tempo autônoma com a medicina desde menina. Lambuzava os joelhos com Merthiolate pra andar de bicicleta, emendava cartela da pílula antes de ser modinha, engolia a Neosaldina já com o primeiro Bloody Mary prevendo a dor de cabeça do dia seguinte. Foi encontrada com 8 dias de morte, branca-papel, gillette na mão, chuveiro ligado, pernas lisinhas, sem nenhum pelo, mas com um corte quase já na altura do pé. Sairia no sábado anterior com o Jorge, colega de hidroginástica. Teve medo da arritmia e triplicou a dose do anticoagulante. A conta de água do condomínio aumentou em 18% naquele maio.
27 de setembro de 2019
Damiana deprimiu em 2017 com a notícia da morte de Cosminha. Complementares até na puxada de perna – uma puxava a direita e a outra, a esquerda – quando de mãos dadas, andavam aprumadíssimas. Evitou contato com qualquer um como pode. Combinou com a diarista por Whatsapp que pagaria as 4 semanas do mês em adiantado, combinou também que em dia de faxina permaneceria no quarto, preferia não conversar. Eulália recebeu junho e julho e perdoou o atraso de agosto por duas semanas. Sentiu pena de largar o serviço. D. Damiana não deixava um único prato pra ela lavar. Mulher limpa, a casa parecia que nem usada era. Mas se fazer de doida, atrasar o pix e não abrir a porta do quarto quando ela bateu pra reclamar, aí já era demais.
27 de maio de 2018
Lourdes detestava os dentinhos de criança, mas comia gelatina mosaico toda sexta-feira. Nas segundas, ela fazia delícia de abacaxi e nas quartas, assava bolo de chocolate com calda. Não era negligência não. O Freestyle Libre cravado nos 70, todo dia. É certo que as pernas vinham inchando como nunca e nem os Crocs cabiam mais. Mas ela já não animava pra sair de casa, as pantufas lhe iam muito bem, e depois o que vale é o número. Dr. Aroldo que tinha dito. Foi o calor do apartamento que chamou a atenção da vizinha de porta. Lourdes pré-aqueceu o forno, separou o leite, a farinha, o açúcar, os ovos, o óleo, o cacau e o fermento. Cada coisa em seu potinho. O forno ficou aceso por exatos 7 dias, quase o mesmo número impresso no adesivo de proteção da tela do sensor de glicemia. Nunca, nunquinha, Lourdes se deu conta de que o Freestyle Libre precisava de pilha pra funcionar.
11 de setembro de 2018
Domingo, 17 de julho de 94 foi o dia mais emocionante da vida de Carmem. Final de copa e ela era louca nas pernas do Taffarel. Passou mal no fim do jogo, a pressão foi nas alturas, 11×7, pra ela era um recorde. A vida toda foi assim no 9×5, levava um sachê de sal lebre na bolsa, desmaiava dia sim, dia não, vivia de mãos e pés gelados. Já bem velha, recebia a manicure em casa, duas vezes por semana, deitada na cama. O silêncio de Carmen e o barulho da TV, o jogo da seleção em looping. Lorraine era rápida, nunca chegava a ver os pênaltis. Pegava a mãozinha enrugada sem turgor de um lado, tirava a cutícula, cortava, lixava e pintava as unhas do mesmo rosa pétala da Colorama. Fazia igual com o pé, arrodeava a cama, pegava a outra e o outro, tudo de novo. Nunca trocaram palavra. Carmem morria de medo de ser enterrada com desleixo, fez a filha prometer que teria as unhas pintadas até o fim da vida. Era a filha quem depositava o dinheiro de Lorraine, deixava a chave atrás do extintor de incêndio pra ela e pra acompanhante, destravava a TV quando uma das duas ligava dizendo que deu pau. Lorraine foi na quinta e na segunda, depois de passar no otorrino. Andava na luta pra recuperar o olfato perdido desde a COVID. Até achou a mãozinha mais gelada que o normal, mas era tanta, tanta coisa pra pensar que nem lembrar da emenda do feriado lembrou, nem olhar pra cara de D. Carmen olhou. A filha de Carmen passou o 7 de setembro em Serrambi. Ela jura que não, mas parece que a acompanhante tinha avisado que também ia viajar.
14 de setembro de 2022
Ninguém batia Soraia no leg press da Competition da Baronesa de Itu. As pernas do corpo de 78 anos e os muitos % de massa magra empurravam 120 kg em 3 de 15, com 10 segundos de isometria no começo e 10 no final. Mas o bracinho fino não conseguiu levantar a janela guilhotina que acidentalmente lhe caiu sobre o pescoço quando ela molhava as cinerárias do canteiro da sala. Em respeito a Soraia, o leg press ficou interditado no dia da cremação. Três alunos reclamaram com o instrutor. O verão se aproximava.
30 de maio de 2023
O caso de d. Aline foi um pouquinho mais incômodo para os vizinhos. Poupo o leitor da angústia, mas adianto que só na mesa de jantar, havia um total de 60 objetos. Dos 60, 19 eram caixinhas abertas de coxas de frango agridoce do China In Box, e 13 latas vazias de SBP ultra. Pra chegar até à mesa, os bombeiros usaram aquelas hastes de metal que o povo leva pra afastar galho em trilha, sabe? D. Aline tinha companhia. De muita.

