O mostruário dente de leite 

(Leticia Eboli)

Eles são em 8. Quantidade que sempre me soou esquisita, já que pra mim deveriam ser múltiplos de 3 e vocês vão entender. Deve existir todo um racional de produto, marketing, vendas, sei lá quem decide sobre amostra grátis – ou sample – como costumam falar nas intermináveis reuniões que poderiam ser emails. 

Eu sou coadjuvante nesse rolê, mera espiral de um catálogo de papel da sofisticada Crane’s Lettra. Lettra com dois tt, como enchem a boca pra falar. Pelo menos nisso concordam, deve ser parte da lavagem cerebral de RH. Eu mesma às vezes me esqueço de que estamos falando de papel, no meio de tanto “100% de algodão orgânico”, “fibras longas”, “raro e versátil”, “folhas descompactadas”. O que não aguento é quando vêm falar de resistência e estabibilidade. No fundo, quem há 3 anos encosta a barriga no balcão da gráfica segurando as pontas desse ego todo? Eu. A única mulher do grupo e a que mantém todo mundo unido, de segunda a sábado. 

O catálogo é uma pequena pasta de pasta de cerca de um palmo de largura por um palmo e meio de altura – prefiro usar essa medida para poupá-los de inches. Os papéis estão no seu interior, protegidos por uma capa acetinada. Sobrepostos um ao outro de forma que seja possível enxergar um dedo de cada exemplar, exceto pelo primeiro – o Branco Fluorescente -, que sozinho ocupa o mesmo espaço de todos os outros. 

Olhando todos de cima, vemos numa metade um layout similar ao das teclas de um piano com cores e texturas diferentes e na outra metade o Branco Fluorescente, vou começar por ele em sua versão com gramatura de sertanejo universitário. 

A lógica desse catálogo é que ele está dividido em três grandes grupos. O primeiro de gramatura 120g, o segundo de 300g e o terceiro é a turma do duplex. Se vier falar que se diferenciam só em gramatura você vai escutar. Parece que são construídos em duas camadas de papel sobrepostas de modo planejado, ou seja, tem uma parte fina do dinheiro no banco de seu país e outra generosa em um paraíso fiscal com vista. 

Branco Fluorescente120g

O campeão de bilheteria, mais vendido, popular. “Esporte favorito? Futebol. Democrático. Basta uma bola, um gramado ou areia e garante a diversão de 22 pessoas.” Criaram o Bloco Papelão, que sai no circuito alternativo dos hipsters do carnaval.

Branco perolado 120g

O espetinho de presunto com melão dos papéis, se intitulam como “modernos & sofisticados” (quem ainda usa & que a camisa da Reserva destruiu?). Apreciam rótulos de vinhos e cartão de médios executivos. Na retrospectiva do Spotify, compartilham seus gostos que pensam ser nem tão cronópios, nem tão fama.

Branco Fluorescente300g

Dizem que a vida melhora mesmo é depois dos 300g. “Nessa gramatura deixamos de comer Presunto Perdigão e migramos para o de Parma.” Apreciam o minimalismo, investem um troco em criptomoedas e sonham com um dia criar com uma Herman Miller semi nova. 

Branco perolado – 300g

O favorito das noivas que usam decote coração, mas que não dispensam um tecno lounge na pista. 

Branco Natural – 300g

O favorito das noivas que usam decote coração, coroa de flor na cabeça, mas que não dispensam um tecno lounge na pista. “Um sonho? Que os alimentos orgânicos e sem conservantes cheguem às classes de gramaturas mais baixas.” 

Duplex – Branco Fluorescente – 600g

O CEO que não se deixa afetar pela posição, conectado ao presente e cultiva poucas certezas. Uma delas é a de que está em todos os grupos de whatsapp da equipe. 

Duplex – Branco Perolado – 600g

Românticos, acreditam no casamento pra vida toda, mas não dispensam a praticidade na hora de recomendar regimes de separação total de bens. “Os duplex podem ter dois quartos, duas salas e duas varandas mas raramente duas cozinhas”. 

Duplex – Branco Natural – 600g

Vivem nas alturas mas sem tirar o pé da terra. Seus funcionários fingem que fazem compostagem, eles fingem que o golfe emprega muita gente. Engajados, liideram movimentos do terceiro setor de grande expressão “pelo fim da palavra mostruário”,  “pela popularização do papel semente para populações ribeirinhas”, “contra o clareamento dos dentes de leite”. 

Nota de rodapé

Sou muito grata e feliz por ser uma espiral de metal, nascida e criada como uma espiral de metal, por isso apesar de trabalhar duro reconheço minha sorte por viver alinhada ao meu propósito na terra. As amostras grátis raramente conectam o seu espírito a sua materialidade. Apesar da origem esnobe, são pobres meninos ricos, que como papéis mereciam receber lápis, tinta e não apenas dedos ensebados. No apagar das luzes, rezo para que um dia uma criança sequestre a amostra grátis e os rabisque até sufocar

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