- Dicionário:
É caô que precisa ser em ordem alfabética. - Carioca:
Pessoa natural do Rio de Janeiro; sangue-bom; às vezes bicho ruim; malandro, mas não o bastante pra reconhecer seus momentos de otário; pode viver na praia, pode sonhar em viver na praia, pode achar a praia uma merda; os Ss de sua boca chiam, seu peito também; sabe ser feliz até quando não deve; não necessariamente tem o sangue quente, mas a cabeça com certeza; um Atlas brasileiro que segura um cartão postal sobre os ombros e uma realidade filha da puta sob os pés. - Insentão:
As definições aqui presentes não representam, necessariamente, a opinião do autor – apenas a mais pura verdade. - Ainda:
“Coé, partiu praiana pra fugir do maçarico?”.
“Nem, tô sem nenhum”.
“Eu faço o da passagem”.
“Papo reto?”.
“Ainda, pô” - Marra:
De mais, é ruim; de menos, é pior. - Hospitalidade:
Um casal de gaúchos para no posto e pergunta a um taxista o caminho pro Cristo. O casal ouve a orientação e parte. Um pouco depois, percebem pelo retrovisor um carro piscar o farol. O taxista emparelha com o casal e diz:
“Tua placa tá imunda, não dá pra ler nada. Vocês são de onde?”.
“De Porto Alegre”, a esposa responde.
“Porra, achei que eram paulistas. Mandei vocês pra casa do caralho”, o taxista diz e guia o carro do casal até os pés do Cristo. - Arroz:
Cara que dá em cima de tudo que se mexe, mas nunca arruma nada; aquele que só acompanha. - Paixão:
Pegar a Avenida Brasil às 18:00 h de um dia de semana pra encontrar aquela pessoa. - Amor:
Dar o ovo de codorna do seu podrão pra aquela pessoa.
- Alfabetização:
“F de força
U de união
R de rainha da equipe Furacão
A de amizade
C de coração
A de autoridade
O de organização
Equipe poderosa, Furacão 2000
E quem não gostou
Vai pra puta que pariu”.
- Filho:
O vocativo mais carinhoso do carioca;
“Tô te falando de coração, filho”; ou
“Tá maluco, bom demais, filho”; ou
“Para de me pedir coisa. Não sou teu pai não, filho”.
- Leblon:
Todo o Rio de Janeiro nas novelas do Manoel Carlos (e, às vezes, na cabeça de quem nasceu e cresceu no Leblon). - Pontualidade:
Até meia hora depois da hora marcada.
- Grosseria:
Chegar pontualmente na hora marcada. - Cúmulo da grosseria:
Responder “bora, quando?” depois que alguém te diz “bora marcar alguma coisa qualquer dia desses”. - Barra da Tijuca:
De acordo com meu tio taxista, é que nem um cu: “Foda pra entrar, uma merda pra sair, mas quando tu tá lá dentro até que é gostosinho”. - Gualín do Tetecá:
Quem bessá, bessá; quem não bessá, só tomenlá. - História, Geografia e Matemática:
Seu sobrenome, sua cor, seu endereço e a renda per capita da sua família são inversamente proporcionais à chance de te encontrarem morto por bala perdida - Carioca da Gema:
Quem faz questão de ser chamado assim é baba-ovo; toda pessoa nascida no estado do Rio de Janeiro pode se dizer carioca – só tem que segurar a responsa. - Sabedoria popular
“Quer moleza, senta no pudim”; ou
“Quem nasceu pra ser lagartixa nunca vai ser jacaré”; ou
“O que é um peido pra quem tá cagado?”. - Tijuca:
Pro resto da zona norte, é a zona sul da zona norte; pro tijucano, é o centro do universo; pra zona sul, é um buraco na casa do caralho. - Humildade:
Um carioca e um niteroiense entram num bar. O carioca pede um joelho. O niteroiense corrige, diz que o salgado foi inventado em Niterói e se chama italiano.
“Nunca ouvi falar”, o carioca diz.
“Do italiano?”, o niteroiense pergunta.
“Não, de Niterói”, o carioca responde. - Educação:
“Irmão, com todo o respeito: vai tomar no cu”. - Democracia:
A guerra contra o tráfico mata traficante, polícia, trabalhador, vagabundo, criança, velho, homem, mulher, não binário, morador do asfalto e favelado; nesse quesito, os ricos formam o único grupo prejudicado no acesso à cidadania.
- Barbeiro
Nenhum carioca admite que é, mas todo carioca admite que é melhor ser barbeiro do que roda-presa. - Roda-presa:
Paulista dirigindo. - Injustiça:
A música oficial das Olimpíadas de 2016 não ter sido esse hino dos Hawaianos:
“Eu sou brasileiro, sou do Rio de Janeiro
Demorou, eu sou funkeiro sim
Ô, por favor deixa eu passar
(…)
Não venha me chamar de favelado, de mau elemento
Sou batalhador e o funk é o meu sustento
Com fé em Deus acreditei no meu talento e me lancei
No movimento”. - Avenida Brasil:
Deus fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo; Deus percorreu a Avenida Brasil em um dia e descansou nos quatorze seguintes; Recife tem a maior avenida em linha reta do mundo e a Brasil não é sequer a décima maior avenida em linha torta do mundo, mas quero ver qual é o recifense que aguenta percorrê-la inteira. - Milícia:
Não conheço, nunca ouvi falar, juro por tudo o que é mais sagrado que não sei do que se trata. - Felicidade plena:
Uma criança, nas ruas de Vila Isabel ou do subúrbio, correndo atrás de saquinhos de papel cheios de doces no dia de São Cosme e São Damião.
- Masculinidade saudável:
A geração que cresceu ouvindo stronda, um tipo de rap de playboy nascido na Barra da Tijuca; ressalto Mauriçoca, grande hit do grupo Prexeca Bangers:
“A E I O U
Quem mija na cabine tem vergonha do piru” - Autossuficiência
Um homem filma com o celular dois ônibus parados, os passageiros descem correndo.
“Um ônibus bateu no outro ali, ó, e o motorista tá tacando pedra no ônibus”, o homem diz.
O motorista do ônibus apedrejado dá ré e amassa a traseira do outro ônibus. O motorista apedrejador embarca e os dois ônibus vão pra delegacia.
“Ih, rapaz, a porrada vai comer lá pra frente. A porrada vai estancar”, o homem diz.
As pessoas no ponto de ônibus olham a hora e xingam o motorista. O homem vira a câmera, mostra o sol se pondo atrás da Pedra da Gávea e diz:
“Mas olha só que vista maravilhosa! São Paulo não tem isso”. - Tolerância religiosa:
No domingo de 14 de junho de 2015, Kayllane Campos, de 11, andava pela rua com seus irmãos de santo, vestida de branco, e levou uma pedrada na cabeça. O homem que atirou a pedra trazia uma bíblia na outra mão. Isso aconteceu no subúrbio carioca, onde igrejas pentecostais e terreiros de macumba coexistem e, por isso mesmo, a prefeitura ama dizer que o Rio é uma cidade de todas as fés. - Maturidade:
Na terceira-feira de carnaval de 2012, durante a apuração do desfile das escolas de samba paulistas, um homem invadiu o palanque e rasgou as cédulas dos jurados. No dia seguinte, na apuração do desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí, um homem na arquibancada mostrava feliz um cartaz, que dizia:
“O que aconteceu em São Paulo não vai acontecer no Rio porque o carioca é educado”.
- Inferno:
Ao contrário do que muita gente pensa, não é Bangu com sensação térmica de 60 Cº; é ter que se sujeitar a procurar um shopping atrás de ar-condicionado.
- Paraíso:
A quadra do Cacique de Ramos; mas Deus disse que era o céu pra evitar a superlotação. - Imaculada concepção:
De acordo com Luiz Antônio Simas, o Rio de Janeiro é muito mais filho do conflito do que do consenso.
