Sobrevivente

Dos 5 que entraram no carro, só saiu uma. Foi no impacto que a porta do banco do passageiro abriu sabe-se lá como. Janaína voou da pista molhada pro canteiro central. Fraturou alguns ossos, deslocou outros tantos. Teria sido pior não fosse o atraso da prefeitura no pagamento da empresa que apara a grama. Incompetência institucional salvando vidas. Serão 5 dias de UTI sem visitas, 5 dias e 7 horas até localizarem a família. Janaína viverá mais exatos 57 anos. Voltará ao hospital para o parto da primeira filha, e para o dos gêmeos. Trará Melinda, Jorge e Dudu não sei quantas vezes ao PS da pediatria. Virá ela mesma no dia do cálculo renal e no da infecção urinária, que, maltratada, virará um segundo cálculo. Uma vida até bem boa, embora tanto nesses dias de hospital, quanto em todos os outros, nunca vá deixar de sentir o cheiro de borracha, gasolina, fogo, e grama molhada.

Soberba

Dra. Maura, 1,82 m, desfila o salto 10 nos corredores da emergência ortopédica. 

Sonâmbula

D. Tereza toca a campainha da enfermagem diariamente às 3h15 da manhã. A quem entrar pela porta do quarto 37, explica item por item do catálogo da Amway. Demonstra com as mãos, já roxinhas de tanta veia furada, a suavidade das mantas de vento, o cheiro dos xampus de nada, o tamanho perfeito e inexistente da cápsula de vitamina D. Dá pra tomar até sem água. Anota os pedidos não feitos pelos códigos dos produtos que ainda tem de memória. As enfermeiras podem até não saber, mas parece que a Amway ainda existe e que o desodorante segue sendo ótimo. 

Sondagem

D. Violeta, essa é a Cris. Ela vai acompanhar o procedimento hoje, tudo bem? Quanto mais tranquilinha a senhora estiver melhor, certo? Não tem mistério nenhum, eu vou higienizar aqui seu nariz, a gente vai aplicar um anestésico local, a senhora inclina a cabeça só um pouquinho pra trás. Olha lá, que beleza, mas a senhora tá muito sabida mesmo, D. Violeta. Nariz, esôfago, estômago como quem passeia no parque. Prontinho. Doeu? Imagina a senhora que é profissional da sonda. Vou dizer um negócio, se todas as pacientes fossem assim, eu não aceitava nem salário, chega dá gosto. Giovanna se despediu,  bateu a porta do quarto no sorriso do sucesso, respirou finalmente a 100%, piscou para as colegas do balcão da enfermagem, elas piscaram de volta enquanto aplaudiam sem som. Cris é professora de prática IV e aquela foi a prova final de Giovanna que nunca, nunquinha tinha passado uma sonda na vida. 

Sorteio

Não tinha ninguém pior pra tirar. Na lista de sugestões de presente que circulou no grupo do Whatsapp, dr. Antônio, cirurgião-chefe, escreveu do lado do nome: surpreenda-me. Carol, R1 da anestesia, lembrou da ilustração de Alice no país das maravilhas “beba-me”. Sentiu uma agonia na garganta, no céu da boca, não vomitou por um milímetro de segundo. A equipe inteira mandando “qualquer um de fruta”, “prefiro chocotone”, “se não for muito difícil de achar, gosto do de chocolate branco”. A bolsa dela, possivelmente, umas 50 vezes menor que o salário dele. Pediu ajuda pra mãe e equilibrou no metro, com o cuidado do mundo todo, um Língua de Gato da Kopenhagen. O amigo secreto travou. Carol tirou dr. Antônio e dr. Antônio tirou Carol. Ele com os R$157,90 da mãe dela e ela com os R$32,50 que dr. Antônio acrescentou na comanda do café da manhã. Panetone de goiabada com requeijão da Barcelona da Armando Penteado. Era 22 de dezembro só tinha sobrado esse. 

Soneca

Dra. Cândida dobrou o plantão da terça pra quarta. Pra manter os olhos abertos, imagina a voz do Patolino na fala dos doentes. Fica ótimo quando emendam tosse. Se o acompanhante disser qualquer coisa, ela mete um gaguinho. Por garantia, quando ficam em silêncio, canta na cabeça o pampampampampampampampampampa pampam. 

Sobretudo

Paloma quis ser médica desde que se lembra. Enfileirava as bonecas pra passar em consulta, Moranguinho está gripada, Limãozinho tem virose, enfermeira, leve Pesseguinho para o exame de sangue, Uvinha vai precisar engessar o pé, não, os dois pés. Os 3 anos de cursinho, 6 de faculdade, 2 de residência clínica e 2 de dermatologia, nunca a fizeram questionar a escolha. Até que os pacientes de consultório chegaram. Paloma tem repensado a medicina, sobretudo quando Pedro Inácio de Castro marca hora. Celibatário vaidoso da Opus Dei, ama o cilício, mas se incomoda com as manchas na coxa. Laser não dá, sr. Pedro Inácio, nem cicatrizou a última infecção. Se o senhor pudesse revezar pelo menos a perna esquerda e a direita. Não? Bora folgar um bocadinho então? E se a gente mandasse fazer um de aço inox? Não senhor, Bepantol não resolve. 

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