De ladinho – Yan

Tudo está perdido
Imagine um menino escravo em uma estância de gado no começo do século XIX. Seu senhor manda o menino pastorear um grupo de novilhos, mas um se perde. O menino cavalga a noite inteira, acende uma vela para Nossa Senhora, mas não encontra o novilho. O senhor chicoteia o menino por um dia inteiro, o besunta de mel, o prende dentro de um formigueiro e vai dormir. Ao acordar, o senhor encontra o formigueiro vazio, o novilho no curral e o menino cavalgando livre no céu ao lado de Nossa Senhora. Agora imagine uma senhora branca, no começo do século XXI, que acende uma vela branca para o Negrinho do Pastoreio ajudá-la a encontrar uma bolsa preta antes que ela denuncie a empregada. A vela chega ao fim, a senhora encontra a bolsa. 

Antes eu não falasse a língua dos homens
Um anjo encara perplexo uma revistinha de palavras cruzadas. Ele aprendeu com a humanidade a amar. Ele aprendeu com a humanidade a odiar. Mas não consegue de forma alguma dizer o que seria “área do profissional que ensina” em dez letras.

A formatura
Por três anos seguidos, o discípulo treinou como nunca. No quarto ano, o mestre lhe disse: “Você está pronto”. Mal o discípulo pisou no campo de batalha, foi morto para sempre por um inimigo sem treinamento algum. Questionado sobre o ocorrido, o mestre disse: “O discípulo estava pronto. O inimigo, ainda não”.

Uma história edificante
Quando Joana D’Arc marchava com seu exército para Pontiers, encontrou um menino brincando com um montinho de galhos secos no meio da estrada. Ela lhe perguntou o que estava fazendo, o menino respondeu que estava cuidando de sua cidade. Ela lhe pediu que saísse do meio da estrada para seu exército passar. “Um exército pode destruir uma cidade, mas ela não sai do lugar”, o menino respondeu irritado. Ela riu e mandou seu exército sair da estrada para contornar o menino.
Tempo depois, Joana D’Arc viu muitas e enormes cidades na montanha de gravetos que a cercava, no momento exato em que atearam fogo nela.

O som da liberdade
A criança pedia ao pai: “Me conta uma história de era uma vez”. O pai devolvia: “era uma vez um gato maltês que olhava pra lua e gritava, Inês!”. A criança começava com o pai: “Lembra daquele dia…”. O pai concluía: “Em que o macaco deu bom-dia!”. A criança perguntava ao pai: “O que é isso?”. O pai respondia: “Chouriço com feitiço”.
A criança cresceu e se tornou funcionária do Departamento de Censura do Estado, encarregada de apreender e eliminar  documentos subversivos. Começou pelos livros de rimas engraçadinhas para crianças.

Todo tempo tem seu tempo
Exu acertará um pássaro ontem com uma pedra que atirou amanhã. E você aí, se ajoelhando todos os dias para pedir a deus pela chegada do seu grande dia.

Do pó viemos, ao pó voltaremos
Uma jovem mulher de trinta anos guarda uma caixa de papelão em cima da estante de seu quarto há três anos. Sobre a tampa lacrada da caixa há uma foto de seu pai, viciado em cocaína que foi ausente durante toda a sua vida. O pai da jovem mulher morreu de overdose quando ela tinha vinte e sete. E, antes de morrer, pediu para jogarem suas cinzas no mar.

Be water, my friend
Um mestre passa um treinamento a seu discípulo. O primeiro passo é segurar uma grande botija de barro embaixo de uma torneira. O discípulo não aguenta o peso e diversas vezes deixa água e cacos de barro no chão. Quando finalmente consegue segurar botijas cada vez maiores, totalmente cheias, sem derrubá-las, é chamado para o desafio final. O discípulo deve pegar uma minúscula xícara de chá de porcelana, entrar numa cachoeira caudalosa, voltar com a xícara cheia. E inteira.

Abstrato feito concreto
Em tempos de paz, meninos brincam de guerra com armas de brinquedo. Em tempos de guerra, adultos tratam com muita seriedade qualquer paz de brinquedo.

A intriga é o tempero da vida
A rainha Baó tomou seu primeiro marido, um ferreiro mais velho e muito sábio. Anos depois, já com seu poder estabelecido, tomou um cozinheiro jovem e bonito como segundo marido. A rainha Baó amava a comida e o corpo do segundo, e já não procurava a cama do primeiro, que cozinhava para tentar reconquistá-la. O segundo disse para o primeiro: “coloque um pedaço do seu pênis na comida, ela vai gostar”. Quando cuspiu o naco de glande e viu do que se tratava, a rainha Baó se enojou. O segundo marido disse para o primeiro:
“Não é como se você usasse mesmo. E não tenho culpa se seu gosto é ruim”.

Sem intermediários 
A mãe dele teve várias religiões, mas ao longo de toda a vida disse para seu filho: “eu te abençoo”. No velório, ele permitiu que vários sacerdotes de várias religiões fizessem cerimônias fúnebres para sua mãe. Ao fechar o caixão, ele percebeu que tinha se amaldiçoado para o resto de sua vida.

Quem nasceu pra ser mera incoerência nunca vai ser paradoxo
Dizer “não tem nem como comparar” já é uma comparação.

Leitura de destinos no céu da boca 
Quando completaram três anos, a mãe mandou os três filhos se desfazerem de suas chupetas. O primeiro filho jogou sua chupeta no rio, “pra dar pros peixes”, e será um artista brilhante que vai morrer tuberculoso e no abandono. A segunda filha jogou sua chupeta no telhado de casa, “pra dar pros anjinhos”, e será uma alta executiva da bolsa de valores que vai morrer ao pular do quadragésimo andar. A terceira filha disse que jogou sua chupeta na árvore, “pra dar pros macacos”, e será uma dona de casa pobre. Vai guardar a chupeta até o fim de seus dias e morrer dormindo, cercada por todos os seus filhos, netos e bisnetos.

A Santíssima Trindade
Ele tem uma imagem de São Jorge no quarto. Todas as noites antes de dormir ele dá um beijo no santo, no cavalo e no dragão. Às vezes ele tapa os olhos do santo, do cavalo, do dragão, e dá um beijo na lança.

不可译的 (buke yi de), unübersetzbar, የማይተረጎም (yemayiteregomi), jan jaqukipañjamawa, untranslatable: intraduzível
Uma beletrista muito reconhecida, poliglota e erudita, dedicou toda a sua carreira a traduzir livros de autores do mundo inteiro. Em uma entrevista no fim da vida, perguntada se ainda havia algum desafio profissional que a motivasse, ela respondeu:
“Quero criar uma língua que só eu não saiba falar”.

Espiritualizado & globalizado
Um ocidental pesquisa no Google parábolas de Lao Zi e Kong Fu Zi para utilizar no seu dia a dia. Come de kuai zi (pauzinhos), toma chá wu long e usa produtos manufaturados por mãozinhas de criancinhas chinesas. Zomba de quem reza em latim ou em iorubá.

A calidez da infância
Um professor entra na sala de aula vestindo uma camisa social listrada, presente de sua mãe morta. Sua aluna de nove anos pergunta se a camisa é nova. O professor sorri, alisa as listras da camisa e diz que sim. “Parece com um lençol que eu tenho”, a aluna diz. Ela encontra o olhar do professor e emenda em seguida: “Mas é o meu lençol mais quentinho, prô”.

A realidade tal e qual
Um homem gostava muito da história do sábio taoísta que sonhou que era uma borboleta e, ao acordar, não sabia se era um sábio taoísta que sonhou que era uma borboleta ou se era uma borboleta que sonhou que era um sábio taoísta. Um dia, o homem que gostava muito da história do sábio taoísta foi dormir e nunca mais acordou.
Alguém esmagou a borboleta com um mata-mosquito.

Pequena alegoria para transmitir uma lição moral
“Parábola” provém do grego parabole, uma palavra composta que significa literalmente “colocar de lado” (CHEUNG, 2003, p. 4). No uso bíblico, parábola é o contraste ou comparação entre uma realidade natural com uma verdade espiritual. Algumas parábolas entram por um ouvido e saem pelo outro. Algumas parábolas te viram pelo avesso e te fazem repensar todo o sentido da sua existência. A maioria delas, porém, têm alguma força, apenas o suficiente para te virar de lado.

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