ELIMINAÇÃO COLETIVA

Nosso organismo é composto por células vivas, que se alimentam de substâncias e, posteriormente, eliminam suas sobras e resíduos. A essa eliminação coletiva feita pelas células, dá-se o nome de secreção, e essas são suas histórias:

  1. O suor

eu, o suor da mulher. Por todo o seu corpo, dentro e fora da roupa, das dobras do short jeans à linha anterior ao encontro dos seios. Corro com pressa, saio por buracos cujo acesso desconhecia antes do calor. Lá fora o ar tão molhado quanto eu, que viro papa ao pingar no chão de terra batida, confundindo-me com os pingos da Heineken long neck no fundo da voadeira, para depois cair na escuridão do rio respingado por garrafas pet. Tento, a todo custo, voltar para a mulher, mas sou atropelado por mim mesmo, pelo suor que explode da mulher. Então ouço o berro do homem: “Flutuante do Jajá, Sun Paradise, Flutuante do Arara! comunidade do Abelha, Comunidade do Livramento, quem vai?!”. A essa altura, eu estou em todo lugar.

  1. O mijo

uma mulher toda aberta. O chuveirinho no meio das pernas. Higiene em primeiro lugar. Meu cheiro amarelo entregue ao fundo da privada sobe e perfumo seu entorno como um halo. Que maravilha, ele diz. Hã?, ela pergunta. Isso aí, ué, ele responde. Como assim?, ela continua. Uma bucetona toda arreganhada, o que tem pra não gostar?, ele resume. E limpinha, ela complementa. Ela sai da privada, cessa a água no chuveirinho. Os corpos anunciam o prenúncio da festa mais selvagem. Ambos esquecem de puxar a descarga, e aguardo minha jornada por entranhas de outra composição.

  1. O leite

escapo, endureço, alimento. Mas Túlio, você já tem trinta e quatro anos!

  1. A acidez

eu, que tento me fazer lembrar em silêncio, apenas por sinais. Sinais que pairam nas calcinhas que você joga no lixo, uma após o outra, quando não aguenta mais saber que estou lá. Minhas digitais agora restritas à rotina da casa: varrer o pátio, menstruar forte no segundo dia, assistir a aulas online nas terças-feiras. Eu, em silêncio na amálgama de meus lactobacilos, compondo um intrincado buquê de flora vaginal. A acidez de um corpo saudável, as pinceladas de sua siririca, os paninhos mais folotes para as vadias mais fodidas. Meses se passam sobre o tecido enquanto eu levo cores e trago outras, mais alvas, mais cegas. Manchas de lábios improváveis, sobre as quais não falamos sobre. No forro, um cartão de visitas de sua própria escuridão.

  1. A lágrima

lembra quando eu chegava e tudo parecia melhor depois? Apesar da dor de cabeça, algo em você era purificado com o meu sal. Lembra quando você vomitava depois do porre e, com o estômago limpo, o domingo começava a acomodar a semana? Agora eu sou como o vômito: demoro. E, ao contrário dele, sou pequenininha, não dou um pio. Garota, nada vai ficar bem.

  1. O sêmen

Meu melhor amigo é o abacaxi, e vou bem em qualquer lugar: na boceta, no cu, na cara, na boca, no sovaco, na mão, no umbigo, nos peitos, na virilha, na bunda, no resto de cuspe, no vaso sanitário, no vaso de planta, na toalha, no chão, no ônibus, no banheiro da firma, no papel higiênico, no Whooper Furioso, no Antigo Testamento, no banco do cinema, no rio, no avião, na rede, na enfermaria do Hospital Santa Julia e provavelmente em Marte, só por favor, por favor, não pergunte se o Edgar tem gala seca na cabeça, porque esse tipo de brincadeira eu não gosto.

  1. A cera

pelo chão inteiro, meus resquícios tingem o laminado, laranja sobre laranja. Viro uma festa de bolotinhas pegajosas, que vocês vão esquecer e pisar, esquecer e plainar na rotina dos pés pela casa. As coisas de cima agora embaixo. Porque solto um pouco dos fiapos de algodão do cotonete Topz. Porque o gato ama caçar cotonetes. Porque vocês jogam cotonetes de propósito no chão para que sejam trucidados. Porque os gatos amam cotonetes (pupilas dilatadas), mas odeiam  meu cheiro nos cotonetes (pupilas retraídas). As coisas de ouvido agora nas patas. De repente, uma vitória do inanimado: num golpe aloprado, o cotonete debaixo do fogão. Adentro agora um novo tipo de escuridão. Do quarto, você ouvem tudo nitidamente.

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