Do que ontem restava das páginas incandescentes de um diário

Enquanto é noite no Ocidente, é dia no Japão

Em Campos dos Goytacazes, passava um pouco da meia noite quando Ana Clara adormeceu. Às três da madrugada, despertou em uma rua de Nakameguro. Eram duas horas da tarde e a brutal luz branca atrapalhava a visão. Mesmo assim, viu o falecido pai, Altair Eugênio Pereira, baiano de Acajutiba, caminhando rápido em uma via ladeada de cerejeiras. Parecia ter hora marcada; alguém o esperava. Ana Clara chamou, o velho não ouviu. Correu até o homem de pele castigada, alcançou-o. Pai! Pai! Pai! O homem voltou para ela uns olhos confusos e assustados. あなたは私を他の誰かと混同しているに違いありませ, disse, e seguiu em frente, olhando de vez em quando para trás, para Ana Clara, petrificada no meio do caminho.

Azaleias

Depois de deixar na escola os meninos, Regina quis estender o caminho de volta. Sendo assim, alargou-o pelo parque. Ali reparou num arbusto carregado de azaleias, cada flor quase milimetricamente posta sobre a folhagem. Seus olhos cintilaram e na mesma hora irritou-a a visão de um moço arrancando dali uma azaleia branca e botando-a entre os cabelos escuros da namorada, que sorriu e levou uma das mãos às pétalas. Tão frágil. Regina sussurrou, meneando a cabeça de um lado a outro.

Joana boba

Joana, a babá, fazia questão de carregar nossas mochilas, um total de quatro sacos lotados de livros, cadernos e outras bugigangas que pré-adolescentes julgam indispensáveis, ladeira acima, ladeira abaixo, em especial nos dias de calor desmedido. Pendurava uma mochila em cada ombro e as duas restantes iam nas mãos, vergando e arroxeando os dedos roliços muito brancos e macios. Suava, arfava, pendia ora prum lado, ora pro outro, reclamava baixinho da dor nos braços, mas insistia, a fim de perder peso.

Aganjú

Tudo o que pode suportar o fogo fareis passar pelo fogo, para que fique limpo.

Yahweh

Às onze e quarenta e quatro deixou para o dia seguinte as planilhas. No bloco de notas à sua direita, lia-se, em letras desalinhadas sobre linhas retas: “Trabalha-se o dia inteiro e quando se vai usar o cartão, informa-se do bloqueio”. anger is an energy, a frase recém tatuada sobre a costela, arde. Sente solidão. Todos sentem, afinal. Mesmo assim, tinha passado o dia querendo um abraço, e tinha passado o dia com os ecos daquela música da Bebel Gilberto. Às dezoito horas havia concluído que a melancolia é capaz de purificar, como o fogo e a ferida fresca. Janelas e portas e muros afora, todo homem parece irretocável. Esguichou Rinosoro nas narinas; depois apanhou na estante um livro do García Lorca.

Christmas blues

Isadora sentiu uma dor insuportável no braço esquerdo quando os fogos começaram a estourar. Bluegreen escondeu-se. Abraçando o membro dolorido, Isa andou pelos quatro cômodos, chamando pela felina entre ais e outros gemidos. Desistiu da busca e passou o Natal de 2013 no quarto, antebraço latejante, ventilador ligado inutilmente; vestia uma camiseta estampada com dizeres toscos, “be you, be strong”, em letra cursiva e uma calcinha na qual se viam as abas do Sempre Livre. Jantou macarrão alho e óleo sem sal; tinha que comprar sal, mas no alvoroço, como?

Entre as centenas de cabeças no mercado largara o pacote de Cisne, as cebolas e o molho de tomate, tropeçara numa pilha de caixas vazias, apontaram-lhe câmeras de celulares, alguém pareceu estender-lhe a mão. Apoiou-se nos próprios dedos para levantar e correr em direção ao estacionamento.

Com a macarronada, bebeu quase um litro de suco de uva concentrado, parecia vinho barato, o melhor néctar da vindima, enquanto olhava um filme de cujo nome não lembra. Os olhos da Blue cintilavam na fresta do armário.

Era uma comédia escrachada e previsível.

Das normativas

Sentou-se à escrivaninha a fim de preparar a aula, usando para isso a velha gramática de sempre. Ao pesquisar o uso do ponto e da vírgula, notou, passando os olhos entre as explicações referentes ao uso dos pronomes oblíquos, um capítulo inédito intitulado A melancolia de cada dia, sobre comer e beber até a vertigem.

Talho

Natasha saiu com o tal cara insistente. Foi divertido. Ele contou-lhe histórias engraçadas sobre seu emprego, fofocas, anedotas, pagou o cinema e a pipoca, tentou beijá-la no escuro, não sem antes alisar e apalpar sua coxa. No dia seguinte não ligou, o tal cara, e o silêncio seguiu nos dias subsequentes. Natasha esqueceu-o. Depois encurtou significativamente os cabelos.

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