
A mistura de cena narrativa, poesia, ensaio e memória produzida por Lydia Davis em seus mini e microcontos já foi chamada de flash fiction. Virtuose do conto – criou textos em todos os formatos breves possíveis – , a autora de Tipos de Perturbação e Nem Vem gosta desses flagras brevíssimos da “mente quando brinca“, no dizer de Cynthia Ozick. Ou seja, sua linguagem busca, através da repetição, do paradoxo, da contradição, da surpresa, do inesperado, espionar situações banais com a lente do absurdo, do nonsense e do humor. Parece que as personagens ou os tempos ou a linguagem ou o espaço, algum dos pilares da construção narrativa, está sempre inadequado, fora de lugar. Talvez “a surpresa que sempre antecipa o riso”, no dizer de Bergson (“o riso acontece quando temos a impressão de que vida se desviou”), talvez seja esta a chave que abre a porta para estes pequenos mistérios.




















PROPOSTA
Bem, isso é o que você vai fazer: uma antologia de flash fiction.
Busque suas anotações.
A ficção relâmpago talvez já esteja em forma de relâmpago mas você não prestou tanta atenção. Mas talvez esteja ainda em forma de nuvem, e você precisa adicionar ou tirar algum elemento.
Não tenha medo de parecer esquisito. Sua historinha não se preocupa tanto com a roupagem, ou seja, a linguagem. A ideia é buscar a simplicidade, ainda que pareça estranha.
Assim, busque olhar de um jeito nonsense para suas notas, sem se preocupar tanto com o modo como as histórias são escritas, mas sim em quebrar sua lógica interna.
Busque narrar cenas banais, nada espetaculares, infraordinárias.
Busque a ambiguidade, a contradição, o paradoxo, o imprevisto.
Busque o tom menor.
Mas lembre que em cada microenredo é preciso que, em algum grau, estejam lá os três pilares da ficção: personagem, espaço e tempo.
Escreva em qualquer pessoa, o máximo de ficções-relâmpago que conseguir, em até uns 7 mil toques.
E feliz ano novo.
