Pífios dramas

  1. CONSTELAÇÃO DE GÊMEOS

Cláudio Ptolomeu catalogou o conjunto de estrelas conhecido como Constelação de Gêmeos no século II. Trata-se da 30ª maior constelação do céu, localizada na zona equatorial e melhor avistada no começo do inverno no hemisfério norte. Castor e Pólux nomeiam as estrelas mais brilhantes desse conglomerado celeste. Segundo a mitologia, eles eram irmãos, sendo um mortal e o outro, imortal. Ao se envolverem em uma batalha pelas mãos de duas jovens comprometidas, Castor foi morto, deixando Pólux solitário por toda a eternidade. Como estrelas da constelação, porém, os irmãos estão juntos para sempre. Dezoito séculos depois da catalogação de Cláudio Ptolomeu, mais precisamente no início da década de noventa, a narrativa mitológica passou a ser reencenada na Rua Constelação de Gêmeos, no conjunto Petros, em Manaus, Amazonas  Graças às fábricas e empresas de transporte de cargas em expansão na capital, aumentou a demanda por motéis para o desenrolar de paixões de meio expediente, affairs secretos entre motoristas de categoria D, putas e outros pífios dramas. Esse foi o segredo do sucesso de dois empreendimentos gêmeos: os motéis Letom e Chateau. Para sempre lado a lado, separados apenas por um muro, suas luzes são as mais brilhantes da Rua Constelação de Gêmeos, mais conhecida como Rua dos Motéis. 

  1. MORDE ELE

Eu vou provar aquela perninha grossa ali. Brancosa. Suada. É só chegar mais perto. Eu e toda a gangue. Quem é de braço que morda o braço, quem é de saco, que morda o saco, eu vou é de coxa. Aquele tesão de coxa! Que é pra dificultar até na hora de aplicar a antirrábica lá na Fundação de Medicina Tropical. Ele acha que eu tenho medo de água, que eu tenho medo de pedra, que eu tenho medo de berro, mas eu não tenho medo de nada. Eu só tenho medo da deputada estadual Joana Darc. Que tira a gente da rua e leva pro Nada Que Ninguém Nunca Viu. Alguns até voltam de lá, mas eles não lembram de nada. Só lembram de serem levados com focinheiras, em carros grandes, depois uma mesa cinza de metal e dá muito sono. Depois que voltam, eles nunca mais têm cachorrinhos, nunca mais. Até dá vontade de fazê-los, mas eles não são feitos. Disso eu tenho medo. Mas daquele jornalistazinho metido a intelectual orgânico, jamais!

  1. DUAS E QUINZE DA TARDE

Alejandro passa o isqueiro. Jose agradece. Gracias, Ale. Jose acende o baseado, e após duas tragadas compassadas e um olhar vago para um caminhão que manobra no horizonte, deixa cair o fininho. ¡Qué gafo eres!. E começam a se estapear. Os corpos magros, só de bermuda tactel, suando bicas, as pontas de bigode ralo perfurando seus rostos jovens e amarelos. Um dos cachorros da garagem de ônibus entra na brincadeira, pula pra cima de Ale com as patas dianteiras amistosas e o pau duro. ¡Hijueputa! O cachorro não desiste, por mais que Jose tente ajudar o irmão a se livrar dele. A menos de vinte por hora, policiais do décimo primeiro DIP passam em uma viatura e assistem ao combate. O cachorro, enfeitiçado, esquece os irmãos e cheira a bosta e omijo da roda traseira. O gambé baixa o vidro fumê, o que faz os garotos ficarem em pé, olhando para o chão, com o temor que faltou à esposa de Jó. Rala peito, rala peito!, vocifera o PM. Jose e Ale correm para o tereno abandonado, somem através de muros pixados e mato alto. O kunk docinho na rua, em sacrifício por todos nós. 

  1. LETOM

Os caminhões pra frente e pra trás, pra frente e pra trás, até conseguirem manobrar nos portões estreitos das profundas garagens das fábricas. Onde despejam até a última gota de mercadorias indefinidas, coisas matéria-prima que apenas os iniciados, os de crachá, conseguem entender, estocar, catalogar. Logo à frente, um buraco eterno, molhado, brota lama e se alimenta da chuva, torturando a suspensão de motoristas desavisados. Ao lado, a curva para um portal. A luz verde alienígena promete uma ambiência cafona e suspensa. Onde podemos ficar a sós na tarde. Meu pé preto nos chinelos, temperado na poeira que os caminhões levantam sem parar, insaciáveis. Evito encostá-lo na roupa de cama, ela tem a paleta das minhas calcinhas mais desinteressadas, aquelas de 3 por 15 do bate palma. O quarto. Me faz pensar em Presença de Anita. A luz do quarto, como se holofotes âmbar fumegassem longe por de trás das janelas inexistentes do Projac. A disposição dos poucos móveis no quarto com cara de sobrado do interior. E, especialmente, a cabeceira da cama do quarto, com as voltas do ferro escuro indo e vindo, pra frente e pra trás, na minha cara bochechuda enquanto dou de quatro. Não olho para trás, o tráfego ali é só um detalhe. O que estou focando é na lembrança dos seus olhos naquela única foto, aquela onde seus cabelos, curtos e ásperos, se misturam às finas rugas da testa e olhos cansados, dois buracos eternos, molhados. De onde escorrem as rugas do canto da sua boca dizendo algo mudo, algo que parece desdém. Algo que me comove.

  1. ENSINO MÉDIO COMPLETO

Como pinguins nos trópicos. O colete preto sob o uniforme branco, ou o contrário, o que o movimento sugerir. Os crachás pendendo dos pescoços, jogados pras costas, nas mãos. Como algas marinhas. Os olhos puxados sob a pele quase negra. A maioria. As risadinhas quanto passam bem na frente dos motéis da rua, o mesmo movimento de cabeça, as mãos rudes indo à boca. Até nisso, uniformizados. A migração até as paradas de ônibus. Como um desastre climático, the point of no return. Mas eles voltam depois do Natal. No ombro, a alça colorida da sacola térmica da Sadia. O frangão garantido para a ceia. A prova indubitável da intervenção dos deuses: o S de plástico duro contra o vento. Como anilhas de registro e identificação animal. As barras das calças embranquecendo com a poeira dos caminhões a cada passo. Enquanto isso, uma fintech sudestina líder de mercado na América Latina aponta um crescimento de 20% das vendas na Black Friday em relação ao ano passado. Eles não distribuíram bônus para um seleto grupo de diretores, mas apenas a Thiba Transportes e Cargas do Amazonas contemplou cada colaborador com um frangão da Sadia. O ápice de um ano cheio de desafios.

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