1
Uma das crianças que brincava de esconde-esconde se encaixou tão bem no vão entre os pilares que precisaram chamar os bombeiros para bater o pique.
2
Três mulheres em uma mesa redonda com tampo de ardósia. Não é o tampo que importa. É o redondo. Três gerações em todas as ordens. A mãe, a mãe da mãe e a menina. A avó, a neta, a mãe. A filha, a mãe, a avó. A neta, a avó, a mãe. Quase sempre tem uma mãe no meio.
3
A bola com estampa de melancia ficou esquecida até murchar. Fosse uma fruta de verdade ia apodrecer. As crianças largaram o brinquedo murcho do mesmo modo que largariam uma melancia estragada. A bola que não é mais bola e nunca foi melancia vai levar cerca de 450 anos para se desfazer no meio do canteiro de agapantos.
4
Uma mulher alta exercitava braços e pernas nos equipamentos de ferro verde para ginástica. Ela estava descalça, com as roupas suadas e disse “gostei do seu nome” ao se despedir de uma criança que brincava nos mesmos equipamentos. A mãe o fez agradecer e acenar. Não ouvi o nome do menino, nem consegui ler o nome da mulher pendurado no seu crachá de trabalho.
5
As vassouras feitas com folhas de palmeira são bem mais corretas para o ambiente que o aparelho de soprar lixo. Além é claro de fazerem um barulho agradável.
6
A mãe praticava uma espécie de cross quando escolheu a pista de terra sob as árvores para passear o bebê. As rodas grandes faziam o carrinho tremer e a criança, no piloto automático, mantinha um sono profundo.
7
Senti um desconforto quando a senhora de uns oitenta anos escolheu o meu banco para tomar a água de coco. Ela acomodou a bengala entre mim e o seu corpo e sorvia o líquido numa postura ereta. Quando me viu com o celular nas mãos, disse que tinha esquecido o dela e que isso não tinha a menor importância. Falava baixo, sem pressa nenhuma. Então encarei e estudei o seu perfil. Os olhos contemplavam a rua além das grades como se ali ficasse o mar, um rio, um lago. Mirei bem os riscos fundos na sua pele e o queixo meio indefinido. Foi quando substituí o incômodo por uma espécie de perspectiva. Exceção à bengala, quando eu encolher, quero ser igual a ela.
8
Para corridas e caminhadas, não há tecido que substitua as camisetas de algodão com os furinhos do uso e das traças. Elas ventilam de verdade e nos fazem parecer mais humanos que os esportistas de alta performance e suas roupas tecnológicas. Estes atletas costumam bufar quando se exercitam ou correm.
9
A primeira vez que vi aquela mulher usar um cinturão largo com ganchos ela fazia um aquecimento estranho com o apoio das mãos numa mesa de concreto. Ao mesmo tempo que alongava braços e pernas, fazia giros rápidos com a cabeça e os cabelos acompanhavam o movimento ora para a direita , ora para a esquerda. A segunda vez que a vi, ela fugia das abelhas do pé de jambo em que se pendurou com as cordas presas ao seu cinturão. Os insetos devem ter se sentido ameaçados pela mulher girando de cabeça pra baixo.
10
Queria identificar o que canta o atleta que corre com fones de ouvido do tamanho de duas latas de pastilha Valda.
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A faxineira substituta é quase uma menina e ontem à tarde, com o parque quase vazio, dava impulsos com pés e pernas e chegava mais alto que qualquer criança nos balanços. Os cabelos voavam e na sua camiseta preta consegui ler “ State of mind: happiness”. Em letras douradas .
12
Há um homem sobre o qual não consigo observar ou comentar nada. Só mesmo que ele pinta os cabelos.
13
As babás não usam uniformes, mas quase todas usam camisetas brancas que são quase uniformes.
14
Ficus são árvores de crescimento rápido que dominam o paisagismo de alguns parques. Seus troncos e raízes às vezes parecem formas humanas.
15
Um homem no banco diante dos aparelhos de ginástica massageia as têmporas e às vezes aperta as bochechas preenchidas por grossas costeletas.
16
O Carnaval só entrou no parque pela camiseta bordada de lantejoulas da filha que dava o braço para apoiar os passos curtos e lentos da mãe.
17
Há um homem de sobrancelhas espessas que todos os dias caminha de calça jeans, camisa polo e cinto de couro. Ele é uma versão mais formal de outro homem que veste bermudas, camisa Polo, cinto de couro e um quipá. Ambos usam relógios com pulseira de metal. O primeiro caminha sempre olhando para o chão.
18
Na rua, atrás das grades do parque, uma mulher usava um vestido com estampa de onça.
19
Nasceram uns cogumelos brancos nas bordas úmidas da madeira dos carretéis de cabo telefônico. Estes carretéis devem ter outro nome. Talvez bobina. São aqueles grandes que alguns bares costumam usar como mesas. Olhando com atenção, os cogumelos pareciam chicletes colados. Engraçado pensar que comparamos elementos da natureza a coisas artificiais criadas pelo homem. Penso que o contrário seria mais aceitável.
20
Prometi que não faria a foto da moça com chapéu coco sentada no banco ao lado de um guarda-chuva preto de cabo curvo. Ia só descrever a imagem, mas cedi à tentação e fiz uma imagem em preto e branco que apagou as flores coloridas da blusa que usava.
21
As tardes sempre me parecem mortas ou cheias de segredos. Os casais que vão ao parque perto das duas parecem em férias, despreocupados. Pelos menos aquele que estava sem netos. O outro, na função de avós, não passava a mesma tranquilidade.
22
“E ela vai sair candidata pelo PCO” – ouvi a mulher falar alto e em seguida gargalhar do mesmo jeito. Era para todo o parque ouvir e não apenas a mulher a seu lado, que descobri em seguida não ser uma companheira de caminhada ou partido. A mulher megafone falava pelo celular.
