Vila Isabel sessions – Yan

A Arca de Noel
Deus criou o mundo em sete dias, no sexto criou os animais e os homens. Depois Deus criou a escravidão, ou os homens criaram e puseram a culpa Nele, o que dá na mesma. Então Deus criou os abolicionistas e, entre eles, o Barão de Drummond. O bom barão alforriou seus escravos num ato de nobreza, comprou um lote de terras e batizou com o nome da Princesa, caiu nas graças do Imperador e recebeu dinheiro para montar o primeiro zoológico do país. A Família Real foi exilada na França, o barão ficou sem larjã e criou o jogo do bicho para sustentar seu negócio (nesse país o empreendedor sofre desde sempre). O barão morreu, o zoológico mudou para onde ficava o Palácio Imperial; mas o jogo do bicho cravou todas as suas patas na cidade do Rio de Janeiro. Os bicheiros de Vila Isabel, cheios de um orgulho originário, patrocinam rodas de samba no bairro, nas quais sempre pinta essa canção de Luiz Ayrão:

Depois do avião, a maior invenção foi o jogo do bicho
Que um barão inventou, mas um burro jogou todo o trabalho no lixo
Proibiram esse jogo, atirando no fogo da contravenção penal
E ironia do destino, hoje o país é um cassino, a jogatina é geral

A liberdade é um passarinho
No dia 27 de setembro hordas de crianças percorrem a Avenida 28 de Setembro atrás de doces. A avenida leva o nome da data de assinatura da Lei do Ventre Livre. O dia anterior é o de São Cosme e São Damião. Terreiros de umbanda recebem crianças de carne e osso, distribuem doces; no meio do congá, médiuns adultos recebem entidades crianças (ibejadas ou erês), que comem doces, passam mel na cara de seus cavalos e cantam:

Eu quero doce
Eu quero bala
Eu quero mel pra passar na sua cara


No fim da gira, os ogãs cantam:

Andorinha que voa, voa, andorinha
Leva esse anjo pro céu, andorinha
Voa, voa, voa, andorinha
Leva esse anjo pro céu, andorinha


Acaba o dia 27 de setembro: as entidades crianças voltam para o ninho e as crianças de carne e osso voltam para as gaiolas.

A mais famosa do Poeta
Monrá entra em casa todo suado, carrega a caixa-mochila do iFood e a bicicleta. Põe o boné do jacaré da Lacoste na cabeça, discute com a mãe sobre a conta de gás que esqueceu de pagar, guarda a caixa-mochila do iFood e sai de casa com a bicicleta. Atravessa o Túnel Noel Rosa, pedala até o Jacaré, compra a braba de 20 e volta pro bairro. Ele encontra com a rapaziada no pé do Morro do Macaco. Acendem um dedo de gorila, batem palmas e cantam:

São Paulo dá café
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá ganja

O endereço do amor
Os dois se conheceram no Quadrilátero do Álcool, no maior dos quatro bares das esquinas do cruzamento da Torres Homem com a Visconde de Abaeté. Ele tinha acabado de se separar, ela procurava um namorado. No fim da noite ele disse que ia embora, ela disse que morava perto, ele se ofereceu para levá-la. Andaram até a rua Silva Pinto, número 85. Ela roubou um beijo enquanto ele pedia o uber no portão. Ficaram por algumas semanas. Ele não conseguia esquecer a ex e sumiu. No sumiço, sentiu saudades, compôs uma canção, gravou com voz triste e mandou pra ela:

Silva Pinto, 85
Saudade ruim de passar
Silva Pinto, 85
Nunca mais passei por lá

Se eu não digo o que sinto
É por não saber falar
Silva Pinto, 85
Como faz pra retornar?


Ela nunca respondeu a mensagem. Meses depois, ele soube que ela ficou noiva de um playboy e se mudou com o sujeito pra Copacabana.

Marcador de igualdade
Todas as mulheres de Vila Isabel têm um bronze lindo. Todas, sem exceção. A marquinha é o orgulho do bairro. As mulheres do asfalto vão até a praia, usam biquínis de lacinho de lycra fina e ficam com uma marca branca nos ombros dourados. As mulheres do morro vão até a laje, usam biquínis de fita isolante e ficam com uma marca marrom nos ombros pretados.
O som do lacinho desfeito ou da fita desgrudada soa mais bonito em qualquer ouvido do que todas as canções do Martinho da Vila (até sua filha concorda).

Batalha de funk melody
Sim, a praça Barão de Drummond sedia uma batalha de rap tradicional e importante da cultura de rua da cidade. Mas pouca gente fala daquela épica entre o Biel e a Carlinha, na calçada do Feitiço da Vila.
Biel chegou de cabeça baixa, caprichando na humildade, e apelou pra MC Marcinho, o Príncipe do Funk:

Desde quando você se foi
Que dói demais
Dentro do meu coração


Carlinha estufou o peito  e foi pro ataque com Perlla. Levou a mulherada do bar à loucura com essas sábias palavras:

Tirap, tchurum! Tirap, tchurum!
Oh, ah! Oh, ah!”

Biel reforçou a cara triste e a voz de choro, o que fez alguns homens do bar levarem as mãos aos olhos. Mandou:

Às vezes eu tento te esquecer

Mas acho que isso não é a solução
A solução é você voltar
E nós dois juntos nos amarmos, então
Então eu acho que não tem ninguém
Que te ame assim

Carlinha não se abalou, e cantou, como a mulherada pedia aos gritos de “acaba com ele”:

Na madrugada, abandonada
E não atende o celular
Tirando onda, cheio de marra
Achando que eu vou perdoar

Quase sem forças, Biel foi pra sua cartada final, jogando toda a emoção no refrão e pedindo uma ajuda pra plateia. Os homens solteiros assobiaram, os casados pararam de assobiar assim que cruzaram olhares com as esposas:

Princesa, por favor volte pra mim
Eu te amo, meu amor

Carlinha percebeu que a partida estava no papo e pulou direto pro refrão, porque chutar cachorro morto é mais gostoso mas cansa:

Deu mole pra caramba
Tremendo vacilão
Tá todo arrependido
Vai comer na minha mão
Pensou que era o cara

Mas não é bem assim
Agora baba bobo
Vai correr atrás de mim”

Biel enfiou os olhos no chão e foi embora correndo com o rabo entre as pernas atrás de um rabo de galo no boteco sem nome do outro quarteirão. Carlinha comemorou a vitória tomando um chopp com o bombado mais gato do bar. Suas fãs do Feitiço da Vila seguiram cantando o grito de guerra:

Tirap, tchurum! Tirap, tchurum!
Oh, ah! Oh, ah!”

Em se plantando, tudo dá 
Sim, a Vila Isabel dá samba. Mas também deu muitas outras coisas. O hardcore carioca, gênero conhecido nos anos 2000 como bandinha, encheu muitas matinês das falecidas boates Raio de Sol, na Negrão de Lima, e Open, na Tijuca. Vinha até gente da zona sul, feliz ou infelizmente. O Forfun gravou pela primeira vez num estúdio aqui no bairro, antes de levar seu rock de colégio particular pra ser produzido pelo Liminha e lotar o Circo Voador. Mas, acima de tudo, uma das maiores bandas do reggae nacional, a Ponto de Equilíbrio, surgiu na esquina da Souza Franco com a 28 de Setembro. Fruto do encontro da playbozada de bijuteria do Bob Marley com os favelados de corrente de latão: prata da casa. Como não fazer a cabeça, e até às lágrimas, ouvindo essa na voz cortante de Helinho:

Vila Isabel, quem é da Vila não vacila
Vila Isabel, berço da música popular
Vila Isabel, morro e asfalto
Vila Isabel, só Jahjah sabe
(belbel, belbel, belbel, belbel)

Ouvido seletivo
Esse é um bairro bom de rima. A mais famosa é: Vila Isabel, terra de Noel. Morto há quase cem anos e ainda muito vivo, respeitá-lo é preciso. Mas, por algum motivo, pouco se rima o Poeta com pateta. Nem boemia com hipocrisia. Nem liberdade com desigualdade. Nem quando alguns do asfalto usam a palavra macaco pra chamar alguém do Morro do Macaco. Não à toa, pouca gente se lembra de cantar essa parte da canção mais famosa do Poeta:

A Vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço decente
Que prende a gente

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