Júlio e Laura se conheceram nas rede sociais, conversaram um pouco e logo marcaram um encontro. Gostaram da foto do perfil do outro e isso era o suficiente. Quando ele chegou no barzinho e viu que ela era magérrima e muito baixinha quis dar meia volta e ir embora. Tarde demais, Laura acenava com sua a mãozinha pequena de rato. Ele não tinha outra coisa a fazer a não ser se sentar, não dava para fugir. Já ela, estava com os olhos brilhando. Ele era bonito, loiro e forte. Cada braço que parecia uma tora.
Laura logo foi puxando assunto, perguntando se ele tomava cerveja, talvez algo mais forte, uma caipirinha, sei lá.
– Cerveja está bom.
O garçom que estava de pé ao lado da mesa ouviu a conversa e fez o pedido.
Para quebrar o silêncio, que tinha se sentado entre eles, Laura perguntou como tinha sido o dia dele. – Trabalhou muito? Você trabalha com o quê?
– O de sempre. Sou engenheiro.
Seus lábios se fecharam e não abriram mais. Júlio estava muito arrependido de ter marcado o encontro, queria sair correndo. Laura falava sem parar, virando o tronco para os lados e mexendo as mãozinhas no ar.
– Sou tradutora, de inglês e francês. No momento estou sem trabalho.
A cerveja chegou, o garçom encheu os copos e ela propôs um brinde.
– Que amanhã seja um dia melhor! Hoje não foi nada fácil para mim.
Ele bateu o seu copo no dela e não se deu ao trabalho de perguntar o que tinha acontecido. Mas não precisou, ela foi logo contando:
– Minha lontra está doente.
– Hã? Lontra?
– Sim. Meu bichinho de estimação.
– Você tem uma lontra na sua casa?
– No meu apartamento. Queria pedir uma coisa para você, mas estou com vergonha.
Ele virou o copo de cerveja e pensou ah não, lá vem. Ficou imóvel esperando o que ia sair daquela boquinha minúscula, sabia que não era boa coisa.
– Tenho que dar remédio para ela e não consigo sozinha. Se você pudesse me ajudar…
– O que ela tem?
– Deixei um pacote de biscoito recheado no sofá, ela adora esse tipo de biscoito, só que passa mal depois.
Lontra, biscoito, mãozinha de rato, era demais. Achou melhor ajudar, assim podia ir embora logo depois, não ia precisar ficar de conversa mole com a dona do aquário.
Quando Júlio concordou, Laura deu um salto da cadeira e deixou o dinheiro da conta em cima da mesa. Ela era ainda menor do que ele imaginava.
– Moro aqui pertinho.
Depois de caminharem um quarteirão e meio, chegaram no prédio. Assim que Laura abriu a porta, Júlio não acreditou na bagunça que estava a sala: caixas de papelão para tudo que é lado, pilhas de livro no chão, algumas roupas por cima. Fora o cheiro, uma mistura de roupa que não secou direito com alga. Ao colocar os olhos no meio da sala, viu a lontra esticada nos tacos de madeira olhando para ele.
– Ela está meio gorda, não?
– É que ela come de tudo. Penélope é o nome dela. Está vendo, nem se mexe. Deixei ela aqui quando fui para o bar. Os comprimidos estão na mesinha. Sabe qual é o problema? Ela só abre a boca se alguém aperta a barriga dela, por isso preciso de você.
O cheiro desagradável era da lontra. Colocar as mão nela ia ser um suplício, paciência. Júlio arregaçou as mangas da camisa e teve que fazer muita força, a barriga era dura. Penélope deu um gemido e mostrou os dentinhos. Os remédios desceram pela garganta.
– Quer uma cerveja? Vou pegar.
Ele aceitou, estava exausto. Quando brindaram pela segunda vez, Penélope deslizou pelos tacos de madeira fazendo um meio círculo pela sala, foi parar na porta do banheiro.
Laura se mostrou impaciente – Ela quer ir para a banheira, só que tem que subir o escorregador, não consegue, está fraca. Sempre fica melhor na água. Será que você pode empurrar a para Penélope?
Ele virou o copo e foi em direção da lontra. Realmente não foi fácil, tudo que vai ladeira acima corre o risco de desabar.
Depois de muito esforço, Penélope estava na água.
Já cansado e de saco cheio, ele disse que ia embora. Mas ela insistiu que ele tomasse mais um copo.
– Um só.
Assim que ele acabou de engolir o último gole, ela se aproximou e deu um beijo na boca dele. Júlio acabou topando e o clima começou a esquentar. Em alguns minutos as roupas começaram a voar e os dois foram em direção ao quarto.
Quando estavam na cama se beijando, ele sentiu algo molhado encostar no seu braço, e pior, com cheiro de alga. Ao se virar, viu Penélope na cama, toda esticada e olhando para ele, só faltava bater palminhas.
– A lontra está aqui, tira ela daqui.
– Deixa ela…
– Não consigo transar com a Penélope encostando em mim.
– Deixa de besteira.
Ele levantou com raiva e foi para sala pegando a calça e a camisa que estavam no chão. Depois percebeu que a carteira e o celular tinham sumido. Perguntou para Laura onde eles estavam.
– Ahhh Penélope deve ter escondido, ela sempre faz isso. Volta para cá!
Ele se recusou entrar no quarto de novo. Não conseguia parar de bufar. Passou um bom tempo de quatro vasculhando a bagunça da sala. As duas dormiram logo, sorriam uma para outra. Júlio só foi embora uma hora mais tarde. Achou seus pertences dentro do pote do comida da Penélope, agora o cheiro era de sardinha.
