Um sujeito prático
Deu o sinal bem antes do ponto. Brigou até o motorista manobrar o ônibus rente à calçada. Pulou pela janela.
O cúmulo da bondade
Parece que foram os assírios os inventores do empalamento. Ou, pelo menos, foram os primeiros a registrar a punição em seus códigos de escrita cuneiforme. Parece que a eles também se deve a expressão a palo seco, depois que um carrasco caridoso começou a passar azeite na ponta das estacas.
O caminho mais longo e mais rápido
Ele ouvia quando sua mãe lhe emprestava a gilete:
“É dois v: vai e volta”.
Ele dizia quando seu filho lhe pedia o chevete emprestado:
“É três v: vai e volta, viu?”.
Ele ouvia quando sua mulher lhe emprestava a dentadura:
“É cinco v: vai e volta, viu, viado véio?”.
Logline de documentário ainda sem título
O diretor/roteirista, que há dez anos recebe ligações em seu número pessoal com cobranças da Renner para um tal de Carlos Valdemar, investiga o verdadeiro número de Carlos Valdemar a fim de passar um trote dizendo ser o setor de cobrança da Renner.
Pra quem sabe ler um pingo é letra
Escrevi seu nome na areia, na boca do sapo, em poemas ruins, em cartas, em postais, em mensagens. Não tenho recalque da sua indiferença. Invejo mesmo é o seu analfabetismo seletivo.
Boa noite, dj
Ela chega em casa, atira a bolsa no chão, se atira na cama de cropped, glitter e boot. Toca uma música (que não consta no seu set list só de hits internacionais):
“Sim, eu estou tão cansado…”.
Tchic-tchic-tchrum.
“… eu estou tão cansado…”.
Tchic-tchic-tchrum.
“… eu estou tão cansado…”.
Indicador socioeconômico
Dos catorze amigos que festejaram juntos na noite de 31/12/2023, oito passaram a virada vestindo amarelo.
Conselho (em verso é menos pretensioso)
Escreve como quem brinca com as palavras
E brinca com as palavras
Como quem brinca
Ao ponto
Satanistas canibais capturam um renomado escritor da literatura contemporânea. Logo soltam suas amarras e o mandam embora. Explicam:
“Você não está pronto para ser cru”.
Amizade de rocha
Um pouco antes da minha separação, surgiu uma mancha enorme na parede da sala. Minha esposa exigiu do proprietário uma atitude. Surgiu Léo, o pedreiro primo do proprietário, e com ele um buraco esfarelento e rancoroso. Lá pela terceira semana de obra, quando meu casamento já se resumia a uma infiltração, Léo me perguntou se eu fumava maconha. Neguei, o proprietário era PM. Léo disse que fumava. Bolei um pra ele, pois pedreiro feliz é obra bem feita. Depois de muitos tragos, perguntei:
“E aí, velho, falta quanto pra tapar esse buraco?”.
Achei que ele ia dar mais um prazo falso, mas Léo era mesmo surpreendente. Soltou a fumaça e respondeu:
“Que buraco?”.
A obra ainda não tinha acabado, meu casamento sim. Fiz as malas e fui embora de cara seca – chorar seria o mesmo que passar reboco em torneira aberta. Uma semana depois, minha ex-esposa me ligou pra dizer que Léo estava triste porque eu não me despedi.
vazamento
perceber a mancha,
o mofo,
moer os tijolos à marreta
farejar rancores
e barro molhado como um
cão atrás de osso
trocar a areia do gato,
fumar um com o pedreiro (onde
há fumaça já houve fogo)
secar as lágrimas
e abandonar o barco:
na mala, o buraco.
Um escritor ruim e uma puta boa no puteiro
“Você é tão voluptuosa, tão genuína, tão vívida, tão fremente, tão lasciva, tão real, tão…”
“Obrigada. Agora abaixa a cuequinha e mostra esse adjetivo abstrato”.
Vivendo perigosamente
Quando Mariana entrava no banco de trás e não encontrava cinto de segurança, saía do carro. Era casada há dez anos e só transava de camisinha. Tomava banho de álcool gel e usava máscara na rua mesmo três anos depois do fim da pandemia.
Mas quando fazia omelete, quebrava todos os ovos direto na frigideira.
Fiosofia
Mais que eletricista, Marquim é sobretudo um pensador. Passa cinco horas tentando passar um cabo de rede taludo por um conduíte estreito. Ao ver seu ajudante exausto e sem esperança, Marquim responde:
“Claro que vai passar. É como eu digo: com cuspe e com jeito, se come o cu de qualquer sujeito”.
Logline do longa-metragem “Humanidades”
Um cientista social obcecado por provar que as humanidades são tão irrefutáveis quanto as ciências exatas adota um bebê e o cria dentro de um laboratório, realizando com ele todo tipo de experiências.
Comunhão
Você gosta de dizer que meu pau é seu; eu respondo: “é teu, amor, é todo teu”. Você gosta de dizer que meu coração é seu; eu respondo: “é teu, amor, é todo teu”. Você gosta de dizer que meu destino é seu; eu respondo: “é teu, amor, é todo teu”.
Tudo o que é meu é seu (exceto o que é meu e não é teu).
Logline do longa-metragem “Democracia racial”
Roteirista tenta matar de forma igualmente torturante todos os cinco membros da banca de heteroidentificação que negou sua inscrição como cotista negro no edital da Lei Paulo Gustavo.
O que escrevi na segunda página do meu exemplar de Limalha, de Rodrigo Lobo Damasceno
03/01/2024
Acabei de pegar este livro das mãos do autor na catraca da estação República. Eu vinha da linha amarela, terminal Vila Sônia. Tinha dormido na casa de M., no Campo Limpo. Acordei com a ligação de A., dizendo que S. teve outro surto psicótico (ou talvez ainda o mesmo surto do ano passado) e macetou a cabeça de A. com um ferro falso (simulacro de revólver 38). Os dois estavam em uma D.P. no Embú e eu sinceramente me senti na obrigação de ir até lá, mas passou. M. não queria me deixar ir embora, mas demos mais uma, passou e eu peguei um carro do 99 até a Vila Sônia. Nesse exato momento o que mais odeio em São Paulo é a falta de um 99 moto, pra eu poder gritar na garupa por dentro do capacete. Peguei o metrô, peguei este livro na catraca das mãos do autor. Li três poemas, comecei a escrever chacoalhando no trem sentido Itaquera, desci no Belém, comi um PF de fígado e a moleza passou. Limalha é negócio esfarelado e de ferro. Eu sou só farelo, não de ferro.
Mas devia ser.
O copo está em pedacinhos
Um dia antes do ano novo, ele encontrou uma grande esperança morta sendo carniçada por hordas de formigas. A príncipio isso o deixou deprimido, mas ele espantou o pensamento como a um mosquito. Concluiu:
“Com a esperança morta, finalmente as coisas podem acontecer”
