Eros é continuar

A uruguaia Cristina Peri Rossi ganhou em 2021 o Prêmio Cervantes, maior prêmio da literatura hispânica. Era um dos segredos mais bem-guardados da literatura hispânica até seu Espaços Íntimos sair no Brasil pela editora Gradiva – embora ela já tenha sido traduzida para 20 línguas. Autora de 40 livros, lgbt militante, tradutora de Clarice Lispector, ativista de esquerda perseguida pela ditadura uruguaia, quando exilou-se em Barcelona e Paris fez uma amizade muito especial com Julio Cortázar, 30 anos mais velho: recentemente publicou Julio y Cris, sobre o caso entre os dois (e mais algumas mulheres).

Surgida na época do ‘boom’ latino-americano, não teve a mesma sorte de ser editada no Brasil. Talvez pela pegada libertária e gay de muitos relatos, ou talvez por conta de sua escrita inclassificável, que passa pelo fantástico delirante e por um realismo mais cru e cruel do que se esperaria de uma ‘literatura feminina’. A Sylvia Colombo fez uma boa entrevista com ela aqui. E aqui na piauí tem uma bela matéria sobre ela.

Realista à medula, em Espaços Íntimos destaca-se a aguda percepção dos processos emocionais de seus personagens, por quem demonstra sempre muita empatia (mesmo quando são terríveis), o humor sardônico, a falta de cerimônia em tratar de desejos e perversões sexuais, a escrita veloz, as frases precisas e as imagens originais, em relatos que fazem uma radiografia implacável e corrosiva do nosso zeitgeist.

Entre os personagens de Espaços Íntimos estão um sujeito solitário em busca de uma trepada; um serial killer que desperta paixões violentas; uma mulher solitária em busca de uma namorada; um tiozinho que dispensa a amante para melhorar o casamento; um tiozinho casado viciado em jogar paciência; um oncologista assediado por uma prostituta durante um congresso; um homem e uma mulher casados em busca de uma escapada durante uma convenção de firma; uma senhora suicida internada em uma clínica psiquiátrica; um comerciante que se transforma em ladrão de banco; um professor de biologia que tenta seduzir uma aluna.

Personagens tão plausíveis quanto miseráveis, tão deslocados quanto desesperados. Um ponto comum a todos os contos deste livro: os ambientes são sempre fechados – quartos de hotel, apartamentos vazios, celas.

PROPOSTA

Este semestre vamos trabalhar literatura erótica. Daí começarmos com essa historieta de sacanagem da dona Rossi.

Em Eros – O Doce-Amargo (Bazar do Tempo), Anne Carson ensina, lendo Safo, que “a experiência erótica é ao mesmo tempo de prazer e dor. Aqui temos contradição e talvez paradoxo. Perceber esse Eros pode diviidr a mente em duas. Por quê? (…) A palavra Eros denota ‘querer’, ‘falta’, ‘desejo pelo que não está lá’. Quem ama quer o que não tem. É, por definição, impossível para o amante ter o que deseja se, assim que ele tem, não quer mais.”

Carson lembra a filósofa Simone Weil:

“Todos os nossos desejos são contraditórios, como o desejo por comida. Eu quero que a pessoa que eu amo me ame. No entanto, se ele é totalmente devotado a mim, ele para de existir e eu deixo de amá-lo. E enquanto ele não for totalmente devotado a mim, ele não me ama suficiente. Fome e saciedade.”

Com essas reflexões como ponto de partida, você irá simplesmente… continuar o conto de dona Perri.

O que acontece nesse tal jantar que desfecha a narrativa?

Você pode continuar contando da perspectiva do marido, o narrador do conto acima. Ou pode escolher Fanny. Ou Alex. Ou Helena.

Sua única regra é narrar na primeira pessoa.

Não se preocupe tanto em descrever o lugar onde estão, e sim em pincelar os personagens e detalhar suas interações à mesa. Use diálogos.

Seu conto se passará inteiramente neste jantar, em uma única cena.

Se quiser, você pode concluir com um desfecho aberto.

Em uns 7 mil toques.

Deixe um comentário