Uma quarta-feira
Às 6h30 da manhã senta-se na beirada da cama e alcança em slow motion o celular na mesinha de cabeceira. Quando vai dar um bocejo, custa-lhe encher os pulmões. O globo terrestre estava dentro de um pote repleto de mel e seu diâmetro era de 13.712 km, de acordo com os portais. Passou o dia arrastando surrados mocassins pegajosos.
No horizonte, gigantescas torres de favo e a luz difusa do sol.
Era quarta-feira.
Os adultos
Enquanto assam e decoram bolos na caixa de areia do parquinho, Aline e Júlia conversam:
– “Adulto” é “gente grande”? – Júlia quer saber.
– “Adulto” é gente que sabe chorar sem fazer barulho. – Explica Aline.
Livraria
Antonella e Miguel olhavam os livros. Na sessão dos best sellers, A moça tomou um deles nas mãos. É grosso, pesado e traz na capa uma mulher de vestido esvoaçante num jardim de tulipas. Leu o título em voz alta:
– Amor verdadeiro…
Ao seu lado, Miguel sorriu triunfante:
– É o mesmo que dizer “céu azul”!
– O céu não é azul. – Disse Antonella, devolvendo à estante o calhamaço.
Linhagem caninana
Caninana. Dizia em voz alta Lurdes, a mão direita apoiando o queixo, a esquerda fazendo do lápis uma gangorrinha veloz sobre o livro aberto na página das equações trigonométricas. Ca-ni-na-na. Caninana. Repetia para si mesma, entre sorrisinhos satisfeitos. Na margem superior do livro escreveu, como desenhando: Caninana. Depois voltou os olhos para as copas carregadas das árvores do quintal. Dez anos mais tarde, num dezembro, deu à luz Ana Clara Caninana Ferreira.
Tempo de figos
De manhã na feira, Dinorah andou até a banca de mangas, onde encontrava os frutos no ponto perfeito pra fazer geleia. Deu bom dia a seu Osvaldo. Perguntou como estavam os frutos. Docinhos, Dona Dina. Pode provar. Respondeu o homem, estendendo à mulher uma fatia sobre a lâmina do facão. Sorvendo o caldo amarelo, Dinorah pegou uma bacia a fim de escolher aquelas com as quais faria a geleia preferida do José Diogo. Escolhidos dez frutos, pagou e despediu-se. Entre a banca de cebolas e a de abacaxis, lembrou que fazia um mês e pouco tinha jurado nunca mais fazer o tal doce. A sacola de frutos amarelos pesava 10 toneladas inúteis. Parou na banca de figos, provou figo verde, comprou pimenta dedo-de-moça, uma melancia, uma jaca, maçãs verdes, maracujás, pimentões, um maço de couve e flores frescas. No caminho para casa, deixou num banco de praça as mangas maduras.
Furtiva
Elisabete foi a última a sair da piscina. Interrompeu contrariada o mergulho, pois eram 16 horas e tinham que ir embora. Depois que tia Célia fez a contagem geral dos alunos postos em fila, Bete esgueirou-se para detrás de uma mesa coberta com uma toalha longa. Tão pequena, foi fácil ocultar-se. Quando as outras crianças e as professoras desapareceram pra lá da porta do vestiário, a garotinha magricela voltou à piscina, a fim de dar o último mergulho.
Tétrico
Enquanto caminhavam, um envolvendo a cintura do outro, Marília contava ao rapaz a história de um primo que havia atirado na própria têmpora esquerda horas depois de receber do médico a notícia de que aos trinta estaria cego. Que… tétrico. Ele comentou. Marília pousou em seu ombro a cabeça ruiva. Era a primeira vez que ouvia essa palavra. Sim, muito tétrico. Respondeu.
Loucabobacapivara
De cada homem com quem se relacionou, Lorena recebeu um adjetivo. Foi guardando cada um. E eram como figurinhas muito repetidas. Do Augusto, louca, do Luís, bonita, do Marcelo, boba, do Mateus, burra, do Arthur, boba, do Lúcio, louca, do Samuel, burra, do Thiago, calma até demais, do Bruno, louca, do Lucas, burra, do Bernardo, boba, do Guilherme, avoada, do Esteban, el mejicano, tonta, e do Miguel, que a trocou pela miss da cidade, capivara. Usou assim o nome do bicho numa tarde enquanto, sentados sobre uma canga, olhavam o pôr-do-sol; você é tão… capivara. Um dia, muitos homens depois, Lorena tatuou no colo os adjetivos mais frequentes sem espaço que os distinguisse à primeira vista. Mas no lugar da burra, pôs a capivara. Achou bonito e gostoso de dizer.
Das vísceras
Sentada no vaso sanitário, deixa escorrerem pela porcelana os coágulos e outros restos pré-humanos. Os músculos do baixo ventre e das coxas estão enfim relaxados. Enquanto espera, distrai-se com uma gota viscosa de sangue e outros fluidos na ponta do dedo indicador esquerdo. Observa seus filamentos esbranquiçados e minúsculas bolhas de ar. Lambe-a. Ao redor, silêncio.
Lume
Um grupo de crianças descalças com idades entre seis e oito anos segue um vaga-lume, único ponto de luz na mata fechada.
