Meu coração é um petshop

Algumas noites os cachorros querem sair e não me deixam dormir.
As unhas rasgando a garganta por dentro. O peito latindo uns cinco corações além do meu.

É preciso cansá-los. Levá-los pra mijar nos postes disponíveis.
Delimitar os territórios. Alimentá-los, não.
É difícil organizá-los em suas coleiras.

Quase sempre quem começa o escarcéu é o beagle.
Ele se embrenha nos matos crescidos dos terrenos baldios que eu me descontrolei com a manutenção.
Fareja os rastros dos que passaram, dos remorsos e eu começo a lembrar das coisas que eu não queria.
Remoer o que não pode ser mais desdito.

O filhote de labrador ostenta entre os dentes os lixos que não são meus. Orgulhoso, equilibra pneus e galhos muito maiores do que ele.
Itens que são largados pela sala para que eu tropece enquanto ele precisa cavocar o sofá até destruir as almofadas pra resgatar o controle remoto que caiu entre os vãos. Controle remoto que ele mastiga e engole. Controle remoto da tv nova que comprei por um preço bom na blackfriday mas que agora incluindo os custos da lavagem estomacal não compensou o desconto tanto assim.

O pinscher raivoso quer morder o nariz de todos que cruza na rua. Avança, arranja briga. Se confundiu no meio dos ódios e não sabe mais por que está latindo. Só não chegue perto. É seguro recolher as mãos. A dentada sempre inflama.

O poodle carente se esganiça, implora, chora, arranha por atenção. Se mija todo por qualquer biscoito.

A vira-latas está sempre no cio rebolando a bunda na grade do portão, enganchando nas pernas das visitas. 

É preciso cansá-los diariamente para que se acalmem,
para que eu durma e não saia latindo e cagando nos tapetes por aí. 

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