“Precisamos dar um nome para isso.
‘Não é isso, é ele.’
Na hora em que todos voltam do trabalho, ele chega cantando. No começo, achei que era uma cigarra, depois um recém-nascido com dor de ouvido. Quase confundi com um dos meus quando vi a cara preta atrás do vaso de babosa. O meu não tem aquelas remelas todas, as orelhas cortadas e os olhos duvidosos. Primeiro, chamei de gambazinho quando vi um farolete branco na ponta do rabo, mas meu marido disse que não dava para terminar com ‘inho’, porque demonstra carinho, e não podemos nos apegar a quem passa o dia na rua e quando resolve aparecer é para encher o saco e bater nos nossos.
‘Flanelinha?’
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Por um cocozinho, Carlos?
‘Seu cachorro fez um cocô no meu portão.’
Acendi uma vela. Um sansão-do-campo aproveitou a tempestade para dar fim aos seus galhos e destruir o telhado do vizinho.
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Areia vulcânica
Tem 16 anos, está de tênis branco e vestido xadrez por cima de uma calça de adulto, em pé sem tocar por completo a sola, numa praia de areia vulcânica em Chiba. Segura um vaso cilíndrico com água até a metade. Enquanto espera a polaroid secar, segura a pose como quem sustenta a família com seu cartão de crédito.
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Vivo ou morto?
Um helicóptero decola rumo à Serra do Mar. ‘Os quatro estão vivos’, acredita a filha de um dos passageiros. A Netflix faz uma nova versão do filme ‘Vivos’, sobre um time de rugby uruguaio e um acidente aéreo na Cordilheira dos Andes. Havia neblina no momento do voo, a polícia e os mateiros contratados pela família do piloto fazem buscas perto da última localização do pouso de emergência. Faz dez anos que sumiu o avião da Malaysia Airlines. Neusa desabafa: ‘Por que o piloto não ficou lá e pediu ajuda? Por que ele quis voar se não tinha combustível?’ Na zona oeste de São Paulo, um roteirista salva no TikTok todos os vídeos de acidentes aéreos para um apanhado narrado em tom apocalíptico.
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Voo profundo
Em Narita, Tóquio, uma adolescente com baba escorrendo no travesseiro é acordada com batidinhas no ombro pela última tripulante do voo JAL417. ‘Que sorte, né? Você foi a única que não se apavorou com as turbulências.’ No ziplock, junto com o passaporte, uma medalhinha do Sagrado Coração de Maria e um envelope vazio de Stilnox.
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Presídio da Bafuda
Malu dá três voltas para a direita, uma para a esquerda e deita em cima do seu rabo. Um cão classista que escova os dentes com pasta de dente sabor frango e só morde colaboradores. Tenho medo quando falam ‘o cão é o dono’. Foi pega algumas vezes comendo cocô do gato.
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Vestido de cauda no heliporto
Uma menina ensaia uns sopros de gaita de boca sentada na janela do apartamento de sua terapeuta, este no décimo terceiro andar. Tem medo de tropeçar em vestidos longos e de altura, mesmo assim fecha os olhos e se imagina desfilando com uma cauda de seda gigantesca no topo de um prédio. Entre um acorde e outro, canta: ‘Me disseram que se você quer fazer isso nesse jogo, tem que ter sorte, tem que ter aparência.’ A terapeuta viajou e deixou a menina se hospedar na casa dela por 3 meses, com direito a diarista, banho de chuveiro a gás e mamão papaia servido sem sementes toda manhã. Ela só precisou passear um Cocker Spaniel velho duas vezes ao dia.
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“Um colete de linha de pesca flutua sobre o mar. Nele, 192 anzóis pendurados sem nenhum peixe esperam a submersão para contar uma história.
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Brilha um cão estrela
Quando chove, Lála volta suja de terra e empanada em grãos de amaranto no seu nariz. Passa o dia deitada onde comeu a terra Bibi, a primeira cadela de Andreia, que jaz num jardim onde o bredo cresce deixando tudo da cor vinho. ‘É Lála de Lalaland?’ ‘Não, é Lu-Lála.’
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Um óculos de três aros é encontrado numa composteira do futuro. Cientistas acreditam ser de uma trilobita em estado de primavera. Será que somos tão toscos como seres humanos que precisamos ser o tempo todo sensibilizados?
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Vamos tirar uma carta para o ano novo! Pensa no pai e sai um barco afundando. Pede um conselho, sai uma ilha.
