Fetichismo

Mariana Enriquez é a atual grande dama da literatura hispânica. Herdeira de Silvina Ocampo, de quem escreveu uma biografia A Irmã Menor (Relicário), a portenha publicou seu primeiro livro aos 19, Bajar es lo peor, romance sobre a juventude punk de La Plata, a cidade onde vivia, que virou best-seller. Virou jornalista de música e anos depois lançou Como Desaparecer Completamente (título tirado de uma canção do Radiohead), sobre um adolescente abusado sexualmente. Seu primeiro livro de contos, de 2009, Os Perigos de Fumar na Cama (Intrínseca), acaba de sair no Brasil, a tornou uma querida da crítica literária, por seu sutil enlace entre horror, crítica social e mergulho na sexualidade, sempre com um flerte com a música pop (na novela Este é o Mar, ela conta a história de ídolos do rock que são levados ao suicídio por uma entidade). Outro livro de contos, As Coisas que Perdemos no Fogo a tornou festejada internacionalmente, e o romance Nossa Parte da Noite – que aproxima o tema dos desaparecidos políticos do sobrenatural – a colocou onde está: a mais influente escritora hispânica de sua geração, lançando luz (e sombras) sobre toda uma nova geração de autoras que também foram contaminadas pela escrita venenosa de dona Ocampo, como Monica Ojeda, Fernanda Melchor e Samantha Schweblin. Aqui tem uma boa entrevista com ela.

PROPOSTA

Este conto trata de fetichismo e é isso o que você vai fazer: vai escrever uma história baseada em algum fetiche.

Existe um longo caminho para explicar as relações entre feitiço e fetiche. Mas dá pra resumir assim:

“‘Feitiço’ é uma palavra portuguesa derivada do latim factitius; fetisso e ‘fetiche’ foram produzidos na transliteração de ‘feitiço’ para línguas faladas na Costa da Mina pelos comerciantes africanos; fetish é a tradução ou transliteração da palavra créole fetiche [antilhana] derivada de ‘feitiço’, para o inglês; Fetisch e fétiche são traduções ou transliterações da mesma palavra para o alemão e o francês, respectivamente” (daqui).

Um caminho mais curto para a compreensão desse termo – que é central em teorias marxistas, psicanalíticas e pós-estruturalistas – é observar que o fetiche é apresentado sempre como uma metonímia metaforizada do Outro.

Tomemos, por exemplo, Almodóvar, um sujeito tem fetiche por saltos altos. Ou seja, os saltos altos representam a parte pelo todo. Uma coisa menor, digamos os saltos, são parte de algo maior, digamos uma mulher. (Em um sonho ou em uma experiência estética, mesmo os saltos altos também podem aparecer através de metonímias: o som dos saltos altos batendo no chão, o cheiro do couro dos sapatos, o gosto do couro, a sensação dos saltos altos furando a pele etc). Mas os saltos estão no lugar da mulher, representam a mulher, figuram uma mulher. Este processo é o da metáfora – em que um elemento sugere outra coisa. Uma outra coisa que pertence a um Outro.

Em psicanálise, a metonímia está associada ao conceito de condensação. Num sonho, por exemplo, em que aparecem saltos altos, a imagem sintetiza a lembrança de uma imagem maior, por exemplo as pernas de uma determinada mulher que é importante para o sonhador. Já a metáfora está ligada ao conceito de deslocamento, quando uma imagem está no lugar de um sentimento ou sensação: por exemplo, os saltos altos metaforizam o medo ou o desejo que o sonhador tem por determinada pessoa. (Mais tarde Lacan vai bagunçar todos esses conceitos, mas isso não importa agora.)

O que metonímias tem a ver com fetiche? Bem, o fetiche se associa ao conceito mágico de feitiço, que é uma compreensão ocidental equivocada de que determinado objeto, poção ou palavra – ou seja, pedaços, fragmentos e portanto metonímias de um saber mágico maior – são responsáveis por criarem um evento mágico. Uma varinha mágica, uma estatueta, um encantamento seriam capazes de mudar o rumo da realidade objetiva.

(A compreensão ocidental é equivocada pois para a ciência religiosa africana o feitiço – originalmente o termo kindoki – é um conjunto de saberes e conhecimentos que nunca podem ser usados em partes, conforme explica aqui Tiganá Santana.)

E o que isso tem a ver com o conto de Mariana Enriquez, verdadeiro manual prático do fetichismo? Bem, parece óbvio: a audição de batimentos cardíacos falhados faz a protagonista ter desejo sexual e motivam sua estratégia amorosa. Esse é seu fetiche. Batimentos cardíacos doentes são o feitiço que faz com que seu coração acelere. Os batimentos são ao mesmo tempo metonímia (porque são um fragmento do coração) e metáfora (porque estão no lugar do desejo amoroso). Seria até meio óbvia a associação batimentos cardíacos / coração / tesão / paixão, não fosse a bizarrice da autora buscar especificamente batimentos cardíacos doentes.

E aqui é que você aparece: você vai primeiro inventar algum tipo de fetiche. Lembre que o fetiche é sempre um pedaço e um símbolo de outra coisa.

Por sugestão, seu fetiche pode estar associado a um dos sentidos. Seja criativo na criação desse fetiche:

  • audição (batimentos cardíacos doentes, uma determinada música, ASMR, som de trovão etc)
  • tato (uma sensação tátil específica, advinda de um objeto específico)
  • olfato (um cheiro, um aroma, um perfume)
  • paladar (uma comida, um gosto, um apetite, uma iguaria)
  • visão (a mera visão de determinado objeto ou coisa)
  • ou uma mistura de tudo isso (por exemplo, digamos uma pessoa que tenha obsessão com correntes – ela pode por exemplo se sentir estimulada ao ouvir o som de correntes, ou ao sentir um gosto metálico que lhe recorda uma corrente, ou ao sentir correntes deslizando por seu corpo…)

Escolhido o fetiche, a história vai se delinear mais facilmente. Como seu personagem lida com esse fetiche? Com aversão ou desejo? O que acontece quando ele se aproxima desse fetiche? Em que ocasiões isso acontece? Quem oferece a ele esse fetiche? Ele aceita ou foge? Ou foge e então finalmente aceita? Ele está consciente desse fetiche? Já falou sobre isso com outras pessoas? Quem? Conhece outras pessoas que também têm esse fetiche? Seu fetiche coloca seu personagem em perigo? Que tipo de perigo? Vexame público, risco de morte, de cometer um crime? Seu personagem atinge a realização sexual ao se encontrar com esse fetiche? Como isso acontece? O que acontece?

Escreva em qualquer pessoa, em uns 7 mil toques.

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