Por Susy Freitas
O que você acha que aconteceu, Helena? Foi o que Fanny me perguntou. O que eu acho. Que aconteceu. Com uma voz monótona, de tom uniforme, nem grave, nem aguda, uma sequência de sons invisíveis que me atingiu como um raio, deixando um clarão que percorreu minha espinha através da mesa de jantar. Por quê? Porque ela tirava a cara do filho com muito cuidado de dentro do prato de massa, catando de seus cabelos três folhinhas de manjericão. Alex desacordado, respirando uma calma que eu desconhecia de nossas fodas propositadamente prematuras.
Já o outro, eu não tive coragem de olhar o rosto dele largado dentro no prato. O rosto que ela tirava do tagliatelle e limpava com uma delicadeza inumana. Afastando o prato, certificando-se de que o molho não persistiria nas rugas e linhas de expressão dele, ou em seus cabelos que, com alguns fios grisalhos, revelaria um camarão. Esses e outros detalhes que eu realmente não tinha parado para prestar atenção antes. Mas afinal de contas, o que eu acho que aconteceu aqui? Pai e filho, dormindo como crianças e cuidados como crianças.
É que assim fica mais fácil de conversar. Temos assuntos pendentes, não?, e, ao dizer isso, ela me fez ter a certeza do que aconteceu e por quê. Assuntos indigestos, ela complementou, movendo a cabeça em negativa enquanto tocava meu braço com as pontas dos dedos gelados, impedindo que eu levasse a taça de água até a boca.
Ela permaneceu assim por alguns segundos. Mesmo após eu voltar à posição inicial, olhando em meus olhos como se os atravessasse, como se eu fosse alguma coisa inerte por de trás dele, e não ali. O frio de seus dedos se dissipando sobre minha pele elétrica. O batom impecável no sorrisinho em seus lábios, acompanhados de algumas sardas nos cantos dos olhos, lembranças da praia.
Com o Alex, a coisa começou faz pouco tempo, umas duas semanas. Eu o via entrar e sair do apartamento algumas vezes, sempre meio que arrastado pelos pais. As longas pernas soltas no short, a toalha pendurada na nuca, os óculos escuros dobrados sobre o peito, na gola da camiseta. O outro, o pai, carregando a térmica e a bolsa de praia, aquela tira de barriga branca e fofa se relevando ao levantar os braços para pedir passagem na faixa de pedestres. Relembrando agora, é estranho constatar como Fanny era uma figura amorfa. Mesclava-se à paisagem. Um rosto sem rosto, um corpo sem presença, o sal no mar. O completo oposto da figura agora a minha frente, com um tempero muito próprio.
Foi também num espaço sem presença, nas trocas de mensagens e telefonemas, que eu consegui me aproximar de fato do Alex. Dar a ele fácil o que costuma ser difícil, mesmo quando se é jovem e belo, especialmente de uma mulher. Porque para ele eu era uma mulher completa, não uma menina, mesmo com vinte anos, vinte e um daqui a dois meses. E isso é diferente, não? Ser uma mulher. Porque na praia, todos os corpos estão em vitrine, mas toca-se menos que o esperado, e por isso um menino como Alex botava a cara no telefone para tirar apenas quando necessário. Necessário. O que é necessário? Provar para uma mamãe que a ouve, que balança a cabeça em sinal de sim ao que ela diz. Que ele faz parte.
Mas com uma mulher não. Ainda mais assim, com transas ainda tão poucas e recentes. Eu era a praia onde ele queria realmente estar, o prato principal. Ainda. Então era fácil ser mulher. Sentar, quicar, chupar, gemer, o roteiro completo do parque de diversões, o top 10 de modalidades dos filmes pornôs, a depilação perianal, uma xota sem pelos, sem poros, sem manchas, sem pequenos lábios, lubrificada ao menor toque dos tentáculos do monstro alienígena. Isso uma mulher saberia mostrar ao menino. O contrário, não.
Com uma trama tão fácil e previsível, óbvio que Alex não seria o ponto de chegada. Ele era o caminho. O caminho de volta até o outro, o pai. Para quem eu não era uma mulher, mas uma menina, e talvez menos que isso: uma saia rodada, uma meia de babados, um dedinho na boca. Ou, talvez por isso mesmo, ser mais que a outra, a que ficava em casa enquanto eu transformava suas punhetas numa realidade amorfa, uma mistura entre a expectativa e a frustração até o gozo. De certa forma, tudo igual ao que deveria prover ao menino, mas com uma pequena grande diferença: era algo que não planejei, mas aconteceu.
O pai me ocupou a cabeça um pouco demais. Quanto menos eu o tinha. E ao ter, e ao pouco me saciar, mais me deu vontade de tomar território. Uma mulher – e aí acho que são assim as mulheres, e não as meninas – quer o que quer de um homem, e, uma vez sob nosso domínio, há muito pouco que ele pode fazer para impedir isso. Mesmo que suma. Mesmo que broxe. Isso é irrelevante. Porque não depende mais dele, embora seja o corpo dele o veículo através do qual a mulher constrói o castelo de areia de seu próprio prazer. As mulheres, suspeito que elas amam amar mais do que amam o amor, e que quando entendem que o vento pode derrubar tudo, que seu castelo não tem fundação, assistir às ondas levarem a areia embora também lhes dá certo prazer. Já os homens, eu já não sei. Acho que não há nada de interessante para se saber sobre eles. Você apenas torce para dar certo.
Você tem chance, Helena? Alguma chance?, foi a dúvida de Fanny ao tirar os dedos já aquecidos do meu braço. Dedos que envolveram o saca-rolhas e abriram a garrafa de vinho num golpe, leves como bailarinas.
Chance? Não entendo o que ela fala. Talvez eu não entenda nada de nada. Porque ao ver a família saindo do apartamento rumo à praia dia após dia, havia ali uma unidade que eu até então não vislumbrara nos meus planos de trazer o pai de volta para mim. Havia ali a previsibilidade dos movimentos, o jeito de ele tocar as costas de Fanny para garantir que ela seguisse pela faixa de pedestres, um conforto, como se o dia refletido na areia fosse demais e ele de repente colocasse os óculos de sol, os óculos de Alex como um grande guarda-chuva. Um incômodo que me traz de volta o rosto arfante de Alex sobre mim, seu pau se afastando num susto na tentativa de retardar o gozo precoce, e a constatação de que ele era uma mistura uniforme dos traços de seus pais: os lábios grossos dele, o nariz fino dela, o maxilar tenso mordiscando chicletes imaginários. Pedacinhos de uma mesma coisa, como ingredientes numa sopa.
Olhando dessa perspectiva, talvez eles é que sejam as fantasias, e eu a realidade. Eles têm a estrutura a seu favor, e minha permeabilidade atinge apenas certo ponto do que quer que seja isso. Eu suo enquanto ela permanece limpa, bebericando sem borrar o batom. Não, você não tem chance. Não a do tipo que você quer. Você quer mais, não é? Quer tudo. O garoto, pode até ser, mas a concorrência é grande, isso eu garanto. Eles nem precisam ter o que querem para querer outra coisa. O outro, eu já cuidei disso. Eu acho. Por enquanto, pelo menos. Pelo menos no que te diz respeito. Isso não muda nunca, menina. Mas você é bonita. Também pode aprender a ser esperta. A verdade é que nós não vencemos nunca, e quase sempre ficamos amargas. Mas até lá, você consegue coisa melhor. E ela chega assim perto, os olhos me percorrendo de cima a baixo e os dedos novamente no meu braço, liberando em mim uma descarga compacta, até então adormecida.
