Fracassos imigrantes

(Leticia Eboli)

Dichavar 

Parte 1 

Perceber que as chaves de casa se foram no trem onde você não estava. Passam bem no bolso de seu marido, a 50 milhas de distância da porta trancada na sua frente. Você se lembra de odiar milhas e Fahrenheit. A primeira medida, a da ilusão do mais perto, a segunda, a do mais quente. Pra uma brasileira, 34F é fake news do calor. Em português claro significa -1C, temperatura em que o amor morre na porta. Você já acreditou um dia no amor, em Minancora, na Mega Sena (aqui Power Ball). Agora talvez ainda acredite em Ocilom-A Orabase, que carrega no seu bolso. Uso oral, como o nome fala. Você espalha a pomada na afta, depois ao redor da boca, embaixo do nariz indo até a testa, que descasca no inverno. 

Parte 2 

O carro começa a apitar e o visor atrás do volante entrega: “keys not found” (chaves não encontradas). Você desconfia. Seu marido, que acabou de sair do carro, agradeceu à carona à estação de trem levando a chave do carro com ele. O carro inteligente não precisa de chave na ignição. O carro inteligente fareja a presença da chave. Ou a ausência. Você liga para seu cônjuge, que após seu segundo sequestro de chaves já foi rebaixado de marido ou parceiro a isso. “Verifique os seus bolsos”- você resmunga ao telefone. Vem a confirmação de que chaves estão no trem, longe do banco do carona do carro. O cônjuge te liga de volta. “Pesquisei na internet. Não desliga o carro, assim ele continuará em movimento, funcionando normalmente”. Você se lembra da Sandra Bullock, em “Velocidade Máxima”. Só que sem poder desligar o carro. Passa a viatura da polícia e você pensa “nem fudendo vou parar” caso me chame. Você não tem carteira daqui e bateu o carro há duas semanas. No banco de trás está a criança, que no percurso precisa ser deixada na escola. Ela entende que tá acontecendo alguma coisa. Você explica que tá tudo bem, que talvez mamãe e papai só se separem de novo. Não, essa parte você só imagina. 

Parte 3

A filha acompanhando do banco de trás o esquecer das chaves se lembra contente da história, que ela na verdade não se lembra porque tinha apenas dois anos, mas de tanto escutar parece se lembrar. A Nina esse dia iria para a escola com a Vera, que antes de sair do apartamento foi colocar o lixo fora, perto da escada de emergência, levando além da sacola apenas sua roupa do corpo. A Nina bateu a porta, que só abre sem chave pelo lado de dentro, onde ela estava. Não tenham portas que só se abrem sem chaves por dentro. Eu aconselho, mas nunca fiz nada para mudar isso. Nem com essa história. Pânico da Vera, que pede para que a Nina passe pra ela a chave do apartamento, localizada em cima da bancada da cozinha ao lado de seu celular. A Nina então vai até o quarto, abre o seu baú de brinquedos. Pega seu molho de chaves da Fisher & Price, caminha de volta até a cozinha e tenta passar as chaves de plástico azul, verde e vermelha por debaixo da porta. Uma solução grande demais para uma fresta tão pequena. A Vera desce no prédio para pedir ajuda. A Nina segue sozinha no apartamento com livre acesso a facas, três privadas, uma quantidade hipocondríaca de remédios, duas tesourinhas de unha e alvejantes – palavra que quis colocar aqui pelo surgimento da oportunidade inédita de escrevê-la. Entram depois muitos personagens do prédio, o zelador, o faz tudo, a vizinha. E finalmente um chaveiro. Final feliz. Em especial porque a mãe só ficou sabendo da história na hora do pix “Chaveiro Romildo”. 

Americanos do Norte

A velha norte americana

A velha falou: “seria ótimo se todos os imigrantes falassem inglês bem como você. Na verdade, a velha falou em inglês esganiçado: “It would be amazing if all immigrants spoke English as well as you.” Eu tava desprevinida amassando argila e assim segui com a garganta de terra entalada. Passei as duas horas seguintes amassando respostas na aula de cerâmica. Já havia aprendido a perder chaves em inglês, perder repertório de respostas ainda não. 

Anotei a frase da velha no papel, que sujei todo de barro. Depois, digitei no celular o ocorrido e pedi uma sugestão de resposta ao chat gpt, que sugeriu: “Obrigado(a) pelo elogio! Estou sempre tentando melhorar meu inglês e me comunicar da melhor forma possível. Se precisar de alguma ajuda ou tiver alguma pergunta, estou à disposição!”

Chat GPT colonial. Não quero oferecer ajuda alguma pra velha. Ela se levanta pra ir ao banheiro, arquiteto com o ralador a minha frente ralar o seu prato cafona. Jogaria o farelo sobre seu cabelo loiro palha americana enquanto em português diria: “sua velha escrota, que acha que ‘America’ (em tom esganiçado em sotaque americano) é isso aqui, que inglês é o idioma do mundo. Seria amazing se você não fosse pra debaixo da mesma terra que eu.” 

A escola norte americana

Uma das coisas que me irrita na escola pública da minha filha são os americanos. Na escola brota uma gente loira, com crianças cujo universo permite que incluam em suas brincadeiras “butler” (mordomo). No entanto, as mães que poderiam ser filhas da loira da cerâmica, acham que têm um departamento de diversidade dentro da associação dos pais da escola. Assunto lidado com amadorismo em Connecticut ou no Rio de Janeiro, onde uma vez, a coordenadora de uma famosa escola particular me respondeu “Um em cada turma” para a minha pergunta de como era a política de inclusão do colégio .Ela quis dizer que em cada sala de aula tinha a “cota” de uma criança portadora de necessidade especial, no máximo uma. Aqui até se vê um pouco mais inclusão mas se vê ainda bem pouca diversidade. Diante do incômodo fui dia desses, visitar uma escola pública no meu bairro, mas que faz sorteio para receber crianças de outras regiões. Fiquei encantada. Visivelmente havia ali uma combinação de origens distintas. “Nina, fui visitar uma escola e lá percebi que tem muitos latinos, muita gente como a gente. Você não se sentiria melhor assim?”. “Como assim mãe, gente como a gente? Você não deveria falar isso.” Fico muda, mas dessa vez num silêncio irrigado. Quando consegui dar liga as palavras respondi “Você tem toda a razão, todo mundo é igual, gente como a gente.”

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