Pigarreei para não morrer ali mesmo

por Américo Paim

– O que pretende?

– Hein?

– Sem joguinhos, vamo lá…

– Não fazia ideia, sério.

– Descobriu só porque entrou aqui? Sou idiota?

– Uma coincidência, só isso. Alex é meu amigo.

– Ah, tá bom…

– Vim aqui jantar. Ele me convidou. O cheiro tá bom, aliás.

– Nada está cheirando bem por aqui.

– Você só está nervoso. Comporte-se.

– Tava procurando minha versão mais moderna, foi isso?

– Você era bonito assim como ele, quando era novo?

– Absurda essa comparação.

– Também acho…

Não gostei dessa última frase de Helena. Fiquei entre ironia e sarcasmo. Na varanda, o vento hesitante da noite quente não foi a única coisa desconfortável. Era tudo, assim que entrou no apartamento. Ela se afastou e foi ajudar Fanny na cozinha. Tudo que eu não queria. Não conseguia ouvir nada do que falavam, exceto os risos. Seriam risos de mim?

– Fanny, deixe que eu corto o pimentão.

– Não precisa, menina.

– Melhor, vou lhe ensinar. Primeiro lave, mas deixe a água correr na sua mão.

– Assim?

– Isso – Helena misturou suas mãos às dela. Sinta a pele do pimentão, a textura.

– Você é esperta e tão novinha. Onde aprendeu a cozinhar?

– Minha avó. Me contou sobre sentir as coisas antes de resolver misturar.

– Que interessante – Fanny saiu um pouco sem jeito, seus corpos se tocaram de leve.

– Posso lhe ensinar umas coisas – Helena falou com olhar incisivo.

– Ah, eu quero – Fanny respondeu pausado, respirando devagar.

– Vamos acertar isso.

Eu pouco interagi com Alex, que me contou da balada onde ele a conheceu. Eu estava desconcentrado. Ele ensaiando reclamar de novo sobre a minha falta de atenção, quando Fanny anunciou que o jantar estava à mesa. O que teriam conversado?

– Você troca de lugar comigo? – Helena sorriu indecifrável e não gostei do tom de voz.

– Como?

– Posso lhe chamar de você, né?

– Hã? Claro, sim – falei já olhando para Fanny.

– Dê o lugar a ela, querido. Nunca veio ao balneário. Me disse que adora essa orla iluminada.

– Ah, entendi. – ela e Fanny agora frente a frente na mesa. Não ficou legal.

– Essa salada parece gostosa, Fanny – disse Helena.

– Obrigado. É bem simples, prática, a minha cara.

– Adoro gente assim, resolvida! – falou e me fitou, rápida e suficiente.

– Coma a salada, Alex.

– Tô de boa. Não quero comer essas paradas verdes, não…

– Queria o quê, moleque? Maduras? – apenas eu ri da minha piada infame.

– Ele está certo. Tem coisa madura que não dá para engolir – mesmo olhar rápido para mim.

– Verdade, Helena – respondeu Fanny, com ares de intimidade.

– Você é muito bonita, Fanny, como lhe disse na cozinha – não olhou para mim e nem precisava.

– Obrigado, Helena, você também.

– Achei suas mãos lindas.

– Mesmo? Nunca me disseram isso.

– Uma falha grave.

– Obrigado. Não lhe perguntei antes: você está namorando?

– Saí recente de um relacionamento.

– Foi difícil?

– Achei que seria, mas mudei de ideia. Não vale o sofrimento.

– Foi ruim, então?

– Ah, no começo prestou. Me iludiu e tal e coisa. Depois mostrou a cara real.

– Poxa, que pena.

– Que nada, olho para ele agora e penso que precisava coisa melhor, mais intensa, sabe?

– Entendo bem o que está falando – disse Fanny e eu pigarreei forte para não morrer ali mesmo.

Chamei a atenção para o jantar e começamos a comer. Helena mastigava devagar e sorria em intervalos. Conversava fluida e Fanny colava. Como encontrou tanto para falar? Nunca foi assim tão comunicativa. Alex pouco interagia muito, mas estava tão tranquilo que nem parecia ele. O vinho estava ótimo e deixou as duas mais soltas. Alex bebia rápido. Helena parecia ter um controle sobre ele. Uns olhares e ele mudava a atitude. Há quanto tempo se conheciam? O que terão falado de mim? Fiquei com medo de perguntar.

Fanny foi à cozinha e Helena levantou-se “para ajudar”. Ela nunca deixava ninguém chegar perto quando lá estava. Foram de mãos dadas! Da mesa, onde eu contemplava o vazio da orla e Alex mergulhado em seu celular. A demora para retornarem me incomodou menos que aquela intimidade. Fanny foi sempre tão contida. Retornaram e estava claro que havia um prazer ali. O cheiro bom da comida me distraiu.

– Mãe, isso aqui tá irado mermo.

– Gostou, filho?

– Parece que ela é muito gostosa.

– Não é, Helena? – Fanny devolveu com um olhar pleno de palavras.

– Você fez algo diferente? – falei.

– É o espaguete com camarões de sempre, esqueceu?

– Hã? Não, claro que não. É que…

– Helena me deu umas dicas para ficar mais picante – aquele tom me acuou.

– O que achou? – Helena me perguntou.

– Eu achei que… quer dizer…

– É uma pitada afrodisíaca, deixa mais sensorial – ela nunca falou essas coisas comigo.

– Opa, isso é bom – veio Alex.

– Dá uma sacudida – disse Fanny, cúmplice de Helena.

– Mexe com tudo, liga os pontos certos – completou a moça.

– Querido, Helena me contou como lhe conheceu.

– Ela o quê?

– Você está bem? Está pálido. Será que foi a comida? – emendou Helena.

– Verdade. Tá bem, coroa? – falou Alex.

– Eu… estou bem… um breve mal-estar.

– Querido, viu que precisava de uns dias de descanso?

– O que ele tem? – Helena falou me olhando direto.

– Falta de disposição, cansaço – Fanny falou para Helena.

– Ah, conheço esse problema.

– Sério? Acha que pode ser o quê?

– Preocupação demais, falta de foco.

– E faz o quê?

– Seleciona, decide, atua. Resolvendo isso, melhora.

– Querido, aprenda com os mais novos.

– Eu não sei o que dizer. Foi algo momentâneo.

– Ué, não teve uma vez na academia? – Helena provocou.

– Nunca me contou, querido.

– Não foi nada. O personal fez muito barulho com isso.

– Ele passou mal, Fanny. Alguém disse que ele tinha vindo direto do trabalho. Parecia esgotado.

– Sério? Nunca fez isso. Sempre passava em casa.

– Talvez naquele dia ele não tivesse dado conta… – Helena, com riso de olhar.

– E vocês dois, quais são seus planos nessas férias? – desconversei.

– Qualé, coroa, nem sei o que vou fazer amanhã…

– Eu vou experimentar sabores desconhecidos – disse Helena.

– Falando nisso, lembrei da sobremesa. Alex, me ajude aqui, filho.

Assim que eles saíram, perguntei rápido a Helena, que parecia se divertir com a situação toda.

– Chega, o que quer de mim?

– Calma, querido…

– Não deboche. Você não tem o direito de…

– Só queria ver de perto por quem me trocou.

– É minha esposa. Não se atreva a…

– Ela é atraente, bonita, sexy. Deve ser gostosa.

– Oi? Que papo é esse? Tá vendo demais.

– Acho que você tá vendo pouco.

Antes que continuássemos, eles voltaram, com o brigadeiro de colher, sobremesa que Helena adora. Até isso? Eu ia puxar um assunto, mas ela foi mais rápida.

– Então, Fanny, estamos combinadas para amanhã?

– Combinadíssimas.

– Sairemos juntas. Vamos passear o dia todo – disse Fanny, sorrindo fácil para mim.

– Como assim? Onde vocês…

– Você pode me fazer um favor? Essa posição não está mais confortável para mim – Helena interrompeu,

   levantando-se.

– Não entendi.

– Quero trocar de lugar com você.

Deixe um comentário