Não acreditei que Fanny tinha acabado de falar que meu filho estava trazendo minha ex-amante para jantar em casa. Como assim? No meio das férias eu ia ter uma surpresa dessas? Com tantas garotas na praia com seus biquínis minúsculos, Alex teve que escolher justo ela? E ainda por cima Helena disse que nós nos conhecíamos! Só se for do parquinho de diversões.
Entrei em pânico, meu bigode suava, me senti ridículo, o próprio tiozinho do comercial da sukita. Não deu nem tempo para eu pensar numa maneira de sumir dali, porque logo a chave girou na fechadura e o Alex entrou na sala segurando a mão da Helena. Fanny e Bobby, nosso vira-lata, sorriam. Que visão! Helena estava linda, com um vestido branco curto e colado. O decote era mais vasto do que uma planície, dava até para umas ovelhas pastarem no seu colo. Mas o melhor de tudo eram os mamilos, estavam quase pulando para fora do tecido, só faltava um pouquinho para que eles aparecessem. Tive que colocar minha mão no queixo para que ele não caísse. Só aí vi meu filho todo risonho, com aquele jeito bobo de adolescente. Me deu uma raiva monstruosa. Ele havia roubado a minha amante, justo ele, um pirralho que passava os dias com a cara na tela do celular, do computador e da televisão. O que ele sabia da vida além de ter espinhas?
Nos sentamos no sofá, Fanny trouxe uns refrigerantes, achei melhor abrir um vinho. Enquanto eu estava lutando com a rolha só ouvi minha mulher perguntar para Helena de onde ela me conhecia. Fiquei branco e fechei as pálpebras por alguns segundos.
– Da faculdade – ela respondeu.
Antes que continuasse, resolvi interromper.
– De quando eu ia buscar o Alex na faculdade para levar no urologista. Aquele probleminha que ele teve, lembra? Se transformou numa coisa medonha, por pouco que…
– Pai, cala a boca, não precisa contar isso e muito menos exagerar.
Fanny, meio brava, se levantou e foi tirar o jantar, não liguei. Só nesse momento reparei em como a minha mulher estava vestida e isso me emputeceu: calça jeans larga arrastando pelo chão, uma blusa fechada e cumprida com as mangas que iam até o cotovelo. Era o próprio convite à castidade. Não podia ser mais desleixada? O casamento acaba inclusive com a autoestima, a dela, claro. Se Fanny se fantasiasse de tatu, talvez eu demorasse uns dez dias para perceber. Voltei meus olhos para Helena, ela sim, brilhava como lustre de cristal.
Minha mulher serviu a entrada, pus o vinho em cima da mesa e fiquei prestando atenção onde Helena ia se sentar. Corri para pegar o lugar na sua frente. Só aí enchi as taças, mas confesso que não fui muito generoso, estava precisando beber mais do que qualquer um naquela sala.
Tirei meu sapato e enquanto comíamos a salada, tentei acariciar a perna de Helena. Achei que estava mais macia do que o habitual, mas ela era assim, praticamente um pompom. Até que senti um dente entrando no peito do meu pé. Cachorro maldito! Travei os lábios para não gritar. Como era impossível tirar os olhos do decote de Helena, decidi me concentrar na alface que estava lambuzada com molho de mostarda e passei um bom tempo apreciando as dobrinhas da tal verdura, porém nada se comparava à cordilheira cheia de curvas da minha princesa.
Eu não falava mais, só ouvia e a conversa girava em torno do casal de pombinhos, o que eles haviam feito nos últimos dias além de ir para praia. Fanny queria saber de tudo, se foram a algum barzinho, feito uma trilha, tomado sorvete. Eu, do meu lado, preferia imaginar o tamanho do biquíni de Helena e que muito provavelmente ela tinha parado a praia nos últimos dias ao desfilar na areia. Comecei a me irritar de novo, estava com ciúme de tudo, até do peixe frito que ela havia comido em algum lugar. De tão disperso nem ouvi Fanny me chamar.
– Dá para você prestar atenção na gente. Já te pedi para tirar o lombo do forno duas vezes.
Fui sem reclamar, mas ao puxar a assadeira, o pano escorregou e eu queimei meu dedo. Soltei um grunhido alto, mas ninguém se deu ao trabalho de perguntar o que tinha acontecido.
Quando eu estava pegando uma fatia de lombo, Helena colocou a mão em cima da toalha, em seguida meu filho começou a acariciar seus dedos. Como era desengonçado. Alguém precisava avisar o Alex que a mão dela não era um controle de PlayStation. Todos acabaram de se servir e assim que espetei o garfo numa batata, Alex me veio com essa:
– Helena vai dormir aqui hoje.
Hã? Eu iria dormir ao lado do quarto do meu filho e ficar ouvindo os gemidos e manobras do casalzinho? Cheguei a estremecer. Meu reflexo foi enfiar uma batata inteira na minha boca. Como estava pegando fogo, afinal tinha acabado de sair do forno, a casca grudou no céu da minha boca. Eu não podia cuspir no prato, não na frente de Helena. Doía muito. Quando consegui que ela caísse na minha língua, pude sentir uma bolha enorme e redonda que latejava no ritmo do meu coração. Além da lágrima, eu agora falava como um retardado, fora que alguns pingos de saliva pulavam na toalha. Olhei para Fanny e dei um pulo na cadeira, outro susto: minha mulher estava com um corte de cabelo novo e era de cuia! Com esse cabelo que eu andava me deitando?
– Você está se sentindo bem? – perguntou minha mulher.
– Claro, por que está perguntando isso?
– Passou o jantar todo fazendo caretas.
Sugeri que Alex e Helena fossem em alguma balada, que aproveitassem a vida e principalmente sumissem a noite toda, mas a única coisa que meu filho me respondeu foi que já tinham feito isso ontem. Para não ter que falar mais nada, me levantei e comecei a tirar a mesa. Fanny e Helena me acompanharam. Quando fui para cozinha pela segunda vez levando o prato do meu filho, que não se deu ao trabalho de se levantar da mesa, vi as duas cochichando perto da geladeira. Agora eu tinha certeza de que era uma emboscada. Helena queria todos ao seu lado, menos eu.
Não quis comer o merengue e passei o resto do jantar mudo. Eles estavam entretidos combinando um passeio de barco, que por sinal eu não iria de jeito nenhum. Helena lambia os morangos com tanta graça que eu quase a perdoei por estar com meu filho.
Assim que acabou o jantar, liguei a televisão. Escolhi um filme de ação na Netflix, do tipo que Alex gostava, esperando que os dois não fossem para o quarto. Não deu certo. Eles desapareceram em questão de segundos. O cabelo de cuia ficou comigo sentada do outro lado do sofá. Uma certa hora, Fanny foi dormir. Eu fiquei lá e acabei pegando no sono.
Acordei assustado no meio da madrugada. Tinha sonhado com Helena. Os mamilos foram me visitar no sofá no meio da noite e feito todo tipo de indecência. Ela me lambia como se eu fosse um daqueles morangos. As coxas mais grossas do que a última vez que nos encontramos reluziam com o brilho da TV e na boca um sorrisinho ainda mais maroto.
Com esperança de que esse sonho tivesse sido realidade, fui correndo para a porta do quarto do meu filho e coloquei o ouvido na porta. Talvez estivesse acordada e me esperasse quietinha. Para não fazer muito alarde comecei a arranhar a porta com as unhas, não demorou para que eu ouvisse um barulho. Para meu total azar, Alex apareceu.
– Pai, o que você está fazendo? Você está arranhando a porta a essa hora?
Gaguejando um pouco respondi – Deve ter sido o Bobby, ele estava por aqui agora mesmo. Vai dormir.
Dei boa noite para o sem noção do meu filho e fui me deitar bem longe do cabelo de cuia.
