“Combo” tipo exportação

Ela chegou por volta das 19 horas. O céu ainda estava claro, parecia três da tarde. Cinco minutos antes, mirei pela janela da sala o painel luminoso na calçada. Primeiro deu o tempo médio de tráfego da avenida Nossa Senhora de Copacabana, depois, a temperatura, 46 °C. Dalí plasmou uma pintura realista da emergência climática quando fez a Persistência da Memória. O tempo, dilatado, esticou-se para o meio-dia e fixou-se ali, na hora do sol ebulindo, derretendo a areia das praias cariocas.

Helena era jovem, seus cabelos ruivos e lisos estavam presos num coque alto, deixando o pescoço livre para algum vento refrescar o calor. Sua pele tinha um bronzeado bonito, de tom caramelo, bem ao contrário do bronzeado “vermelho camarão” comum a pessoas de pele clara com sardas como a dela. Seu vestido curto, ombro a ombro, de tecido fluido, revelava o colo, sem mostrar onde começavam os seios. Toda aquela pele exposta cintilava uma iluminação de pele hidratada, e não de pele grudada de suor, como a minha.

– Nossa, o Alex é uma cópia da senhora. Tô chocada!

– Fisicamente, ele e o mais velho são meus alter egos masculinos. Parir também me deu atestado de feminilidade.

– A senhora é muito bonita, eu tive sorte.

– Sem formalismo, me chame apenas de Fanny, por favor.

– Tudo bem, Dona Fanny.

– Opa, só Fanny. Quem dera sermos donas das nossas vontades, não é? O Alex tá tomando banho e o seu sogro saiu para comprar umas bebidas.

– Eu e o Alex só nos vimos uma vez, ainda não é nada sério.

– Enquanto isso, me ajuda a por os pratos na mesa, por favor – talvez os afazeres domésticos, tão femininos, acelerassem a aproximação entre uma mulher jovem e outra de quase meia idade.

Apontei para a cristaleira na sala. Helena se agachou para pegar o conjunto de jogos americanos, guardados na prateleira mais baixa, me pareceu que ela não usava nada além daquele fresco vestido branco estampado de miúdos pares de cerejas unidas pelos ramos. Seus quadríceps eram fortes e bem definidos. A parte interna das coxas também era forte, mas não era tão definida. O que tornava suas coxas bem desenhadas, proporcionais da base aos joelhos, alongando suas pernas, dando a impressão de ter mais de 1.75 m de altura, apesar de ser mais baixa do que eu. Mesmo fazendo muitos exercícios de agachamento, avanço e retrocesso toda semana, nunca cheguei perto de ter pernas tão lindas como as dela.

– De onde você conhece meu marido? – eu me esforçava para manter os olhos direcionados para o rosto dela. Sentia esforço semelhante quando ela falava comigo, tentando manter o olhar alinhado ao meu, desviando da boca e do meu corpo.

– Há um ano acompanhei minha irmã no ensaio fotográfico de recém-nascido do meu sobrinho.

– O Roberto leva jeito com as crianças. Quando nossos filhos eram pequenos, dividíamos os cuidados por igual.

– Que bom, um super pai!

– Ele já tinha aquele estúdio quando nos conhecemos, imaginei que seria um bom pai. Então você é de São Paulo também?

– Moro em sampa, mas nasci aqui no Rio, minha família mudou pra lá desde cedo. Ainda temos muitos parentes aqui.

– Coincidência você conhecer o Alex aqui. Eu insisti muito para ele vir.

Uma faca que ela segurava caiu de ponta sobre a mesa. A queda fez bastante barulho, apesar de ser daqueles talheres leves, com cabo de plástico. O choque veio acompanhado de um ruído de metal riscando vidro. Ela pediu desculpa e continuou colocando os talheres ao lado de cada prato sobre o jogo americano.

– Costumo aproveitar uns dias de férias ou feriados para visitar meus parentes – ela disse.

Alex saiu do banheiro direto para a sala, seus cabelos e roupas estavam molhados. Virou hábito não se secar com toalha de banho, em poucos minutos o calor evaporava toda a água do corpo. Ele envolveu a cintura de Helena com os braços e quis dar um beijo na boca, mas ela virou e o beijo foi no rosto.

– O que foi? – ele perguntou.

– Sua mãe …

– Ela não liga.

– Você está todo molhado …

– Vou colocar o peixe para assar no forno, fiquem a vontade – eu disse.

Roberto insistiu nesta viagem de reconciliação. Como eu não estava a fim, deixei a organização nas mãos dele e deu nisso: dezoito horas de viagem de carro e uma locação minúscula de Air B&B em falência. Pra piorar, coincidiu de chegarmos durante a nova onda de arrastões. Mal podemos ir a praia, os “Justiceiros de Copacabana”, um “rebranding” da milícia dos pit-boys, fazem a segurança pública a golpes de jiu-jitsu. Atacam até vendedores ambulantes, usando a cor da pele como critério para identificar quem é bandido. Só deu pra ir a praia no primeiro dia, e mesmo assim nem deu pra curtir. Havia uma profusão de caixinhas de som bluetooth, quase uma para cada banhista. Não dava pra conversar, muito menos relaxar. O funk dominava as playlists. Letras tão explícitas, descrevendo acrobacias sexuais, ou melhor, as “sentadas”, não davam espaço a qualquer exercício de imaginação. Eu só queria sentar, literalmente, por os pés na areia, sentir o vento fresco e tomar um banho na água fria do mar, mas só tínhamos sol, suor e sentadas, um “combo” nacional tipo exportação.

Coitado do Roberto, a pandemia quase exauriu nossas reservas. Eu ainda consegui reabrir minha agência de fotógrafos ao final do primeiro ano, enquanto ele só voltou a fotografar quase dois anos depois. Eu fiquei segurando as pontas e ele virou um dono de casa reprimido, sempre querendo me agradar, talvez se sentindo descartável diante da minha autossuficiência. Alex se parece mais com ele, vive se vitimizando, enquanto Luís, o mais velho, tem personalidade próxima a minha. Luís está passando uma temporada na Europa, se aperfeiçoando como fotógrafo de moda. Em menos de um ano fotografou sua primeira capa de Vogue, sem qualquer mediação minha, daí decidi agenciá-lo. Não me pareceu boa ideia deixar o Alex sozinho em casa, apesar de já ter 17 anos e corpo de adulto. Além disso, eu não estava empolgada com a ideia de segunda lua de mel proposta pelo meu marido.

Nosso caçula é bonitão, moreno, alto, magro, olhos esgateados e cabelos pretos lisos, quando curtos, e ondulados, quando passam de um palmo. Talvez Helena só tenha observado esta parte. De qualquer forma, pai e filho poderiam fazer boa companhia um ao outro e me poupar da falta de privacidade e distrações que eu iria me submeter por infinitos 7 dias de verão escaldante. Eu e Roberto nos suportávamos, nosso casamento era só uma convivência tolerável. Quando casamos ele quis mudar para a fotografia de moda, enquanto eu desisti dela e virei agente do setor assim que fiquei grávida do Luís, apesar do meu nome ter aparecido entre os 50 talentos globais na categoria “New Wave Creatives” do “British Fashion Council’s”. Não era a primeira vez que eu abandonava uma carreira em ascensão, fiz o mesmo quando meu nome figurou no hanking “Top Newcomers” do “Models.com”. Viver sob o esteriótipo “linda e burra”, que o meio fashion projeta sobre as modelos brasileiras para alavancá-las ao topo do mercado, era insuportável para mim. Os ensaios que ele teimou fazer eram muito cafonas e em meu casting eu reunia apenas fotógrafos premiados ou promissores. Acho que sua mágoa, hora convertida em subserviência, hora em admiração, tem origem na esperança dele em se destacar algum dia na área que eu domino.

Quando voltou a trabalhar, Roberto insistiu para que eu administrasse a conta bancária digital do estúdio dele. Queria recompensar o tempo que ficou sem contribuir com as despesas da casa, direcionando a maior parte dos pagamentos do estúdio para esta conta. Foi assim que eu descobri a Helena, três meses atrás. Uma notificação do app do banco apareceu no meu telefone, informando o recebimento de um Pix de 1 centavo enviado por Helena Paraizzo a conta do estúdio. No recibo havia uma mensagem no campo de descrição do pagamento: Roberto, preciso te ver, só pra conversar, nada demais. No dia seguinte mais um Pix, desta vez, 10 centavos: Por favor, desbloqueie meu número no whatsapp e nas chamadas de voz, deixa eu te ver pelo menos no Instagram. Os Pix eram enviados nas madrugadas: 0:01, 0:10, 1:40 … Passados dois dias após o segundo Pix, caiu o terceiro, de 1 real, com uma confissão: ainda estou sozinha, saudades da tua furadeira arrombando minha buceta. Houve mais 3 Pix, no ultimo, de mil reais, uma ameaça de Paraizzo: vou infernizar sua família!

De início encarei Helena como uma amante desprezível. Se era sexo que os unia, devia ser humilhante para uma mulher gastar algum centavo em busca da atenção de um homem com performance sexual tão triste quanto a do meu marido. Nem me lembro da última vez que ele me fez chorar por baixo.

Um mês depois que as mensagens cessaram, passei do desprezo a admiração. Aquela sequência de Pix respeitava padrões matemáticos. O intervalo de dias entre os envios, os horários e valores correspondiam a números de Fibonacci e progressões geométricas de razão 10. Que inveja! Se tivesse a mesma frieza, de calcular o valor das relações, já teria dado fim ao meu casamento.

Na infância eu participava de olimpíadas de matemática. Durante a adolescência cresci muito rápido e meu corpo se transformou cedo também. Ao terminar o ginásio saí de Sete Barras para a capital paulista aos 17 anos, sonhando cursar medicina. Meus pais tiravam o sustento da família do cultivo de bananas e hortaliças. Não passei na USP, nem na UNIFESP e achei que dava pra pagar uma faculdade de medicina com o trabalho de modelo. Meu maior desejo agora era conhecer Helena, talvez ela fosse um prodígio, uma nerd robótica querendo fisgar um “sugar daddy” para bancar seus estudos, como eu mesma pensei que ainda dava pra fazer na minha época.

Eu abri a porta quando Roberto chegou, ele estava muito suado e parecia constrangido. Preferiu ir direto pra cozinha acomodar as garrafas de vinho e cerveja no balde de gelo.

– Helena já chegou – eu disse.

– Só vou dar um oi rápido e tomar banho.

Acompanhei ele até a sala pra ver como reagia.

– Como o Gabrielzinho está? – ele perguntou ao cumprimentá-la com um aperto de mão.

– Já está engatinhando, falta pouco pra andar.

– Que esperto! Aquele ensaio tem quase um ano.

Meu marido finge muito mal. Sei que ele rompeu com a Helena há três meses, quando as mensagens começara a surgir, pouco depois de eu ter perguntado se ele tinha outra mulher.

– Posso ajudá-la a finalizar o jantar? – ela disse.

– Claro, falta terminar a salada – pelo visto a conversa com meu filho não estava muito interessante.

– Você pode lavar as folhas de rúcula que estão na pia – eu disse ao entrarmos na cozinha.

Ela ficou em frente a torneira com o pé esquerdo no chão e o direito apoiado na lateral da perna esquerda, na altura do joelho, formando um 4 com as pernas. Eu me agachei para pegar um caixote guardado debaixo da pia e o ofereci para ela apoiar o pé direito. Ela se assustou, mas continuou lavando as folhas e usou o caixote de apoio. Me parecia que ela realmente não usava nada por baixo daquele vestido.

Quando estou sozinha em casa, gosto de lavar as louças nua, com um dos pés apoiado no banquinho e as pernas entreabertas, me excito quando a água respinga abaixo do umbigo e alguma gota mais densa entra em mim. O rosto de Helena enrubescia, ela também devia explorar este mesmo prazer. Eu a abracei por trás e de costas ela ofereceu o pescoço. Eu o cheirei e beijei. Ainda preservava um suave perfume amadeirado e doce, marcado por cúrcuma e canela. Os finos pelos de sua nuca arrepiaram. Subi a mão direita em direção aos seios dela e desci a esquerda para baixo do vestido. A vulva estava nua, como eu suspeitava. Empurrei meu anelar e senti sua umidade mais profunda. Ela soltou um gemido muito baixo, mais parecido com uma respiração de yoga, virou-se de frente para mim e beijou minha boca. Eu afastei o quadril dela para longe da cuba e o empurrei para cima da bancada da pia, onde ela se sentou. A água continuava escorrendo, caindo sobre as folhas, fazendo um barulho oco. Deslizei o caixote pelo chão e o coloquei na vertical, de frente para Helena, sentei sobre ele, enquanto ela ampliava a abertura das pernas. Cheirei seu monte de Vênus e o beijei lentamente, sentindo a textura dos pelos crespos dela roçando meus lábios. O leve perfume amadeirado e doce também estava enraizado ali. As pernas de Helena tremeram e ela as escancarou, usei a ponta do meu nariz para massagear o ponto escondido na junção superior dos pequenos lábios. Afastei um pouco meu rosto para admirar a anatomia do casulo encapsulado no topo daqueles lábios. Aproximei o rosto de novo e uni a ponta do nariz ao casulo, massageando-o, como um encontro de narizes num beijo esquimó. Ao mesmo tempo meus lábios tocavam a abertura de sua vagina, onde minha língua fazia movimentos circulares. O som abafado das sucções, contrações e dilatações remetia ao oco da água sobre as rúculas. Helena movimentava as pernas devagar, como as asas de uma borboleta pousando com cuidado sobre a flor. Por fim se contorceu, me puxou pelos cabelos, encostou seu rosto no meu e me beijou, sugando seu próprio néctar, que ainda molhava meus lábios. Também me contraí, dilatei e contorci, sentindo a doçura de Paraizzo preenchendo minha boca. Estávamos em pé abraçadas, acalmando a respiração quando Roberto entrou na cozinha e falou resignado.

– Deixem que eu termino a salada e sirvo a comida. Vocês já tiveram muito trabalho para fazer o jantar. Fiquem na sala se distraindo com o Alex.

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