– Tu vai querer cerveja ou drink?
– Acho que eu prefiro drink.
– Uma Heineken e uma Gin tônica então?
– Não, eu vou de Mojito.
– Mojito!? Ah, se é Mojito tomo contigo. Deixa eu te falar um negócio…
Era assim sempre que Jade escolhia o drink. Contava os segundos entre o to de mojito que saia de sua boca e o hem de Hemingway que sairia da deles. O medalha obviedade foi, coincidentemente, Ernesto – juro que não tô inventando. Nem pra introduzir o assunto ele se deu ao trabalho. Ela: eu quero um Mojito. Ele: Hemingway. Como quem responde naqueles programas de TV que se aperta um botão e se diz meio gritado: Dom Pedro I. A média era de 4 segundos, mas só porque antes de dizer qualquer coisa que faça eles se sentirem muito inteligentes e cheios de referência, os homens gostam de acrescentar um “Deixa eu te falar um negócio”. Mas não era o Hemingway que levava Jade a escolha não. Deixa eu te falar um negócio, na real a história não procede. Nem o Hemingway nem o gosto. Rum quando não presta é foda. Era a hortelã.
Às vezes dava errado. Nem todo mundo macera as folhinhas e inteiras elas não cumprem função. Às vezes dava certo. Se viessem bem pequenininhas, se o lugar não mandasse canudo, bastava um gole, no máximo dois, o recorde foram três. O cara segura o drink, leva uma eternidade no caminho entre a mesa e o copo dela, eles se olham, mais outros longos segundos entre o brinde e a boca e aí pronto, é só esperar aquele sorrisinho que a gente dá depois do primeiro gole.
Quando Jade era pequena, ela, a mãe, o pai e o irmão passavam as férias de julho no sítio de tio Chico, em Cachoeirinha. Não tinha muito o que fazer. O irmão se metia no quarto, o pai se metia com o trator, tio Chico e a mãe, pensando agora, ninguém lembra muito bem onde se metiam. Jade? Jade se metia nas contas. Quantos segundos pra esse porco sair daqui pra lá, quantos centímetros de um farpado pro outro do arame, quantas espremidas no peito da vaca pra encher o balde.
Até que tio Chico comprou um cavalo. A crina da mesminha cor do cabelo dele. Parecia gente. Gente forte, sabe? Aí que todas as contas passaram a ser sobre o bicho. Qualquer coisa que dissesse respeito ao chanfro, à mandíbula, ao costado, às ancas, aos ossos, aos músculos, ao suor no pelo. O que impressionava Jade era a escala. Tudo grande, tudo firme, tudo muito. Um dia, ela de pijama ainda, sentada na cerca, contando quantas vezes ele baixava a cabeça pra comer, o bicho segura os músculos do pescoço, leva uma eternidade no caminho entre a grama e a altura da última talisquinha de madeira, eles se olham. O olho dele nove vezes maior do que o dela. Mais outros longos segundos entre o abrir e fechar da pálpebra e aí pronto, Jade não dá conta, cede, olha pra baixo. Ele percebe, devolve um sorrisinho. Quarenta dentes, amarelo dominó. Entre os incisivos centrais, um pedaço de grama do verde mais verde do mundo.
A coisa ficou dentro dela o resto do mês, o resto da adolescência, o resto da vida. No começo resolvia com a fita dental. Desde que da Oral-B, a da Johnson’s é azul. E fita, tá? O fio não dá o mesmo efeito. Passava horas diante do espelho vendo o verde rasgar o vão dos dentes. Depois foi aprimorando. Entendeu que era no dente dos outros que a imagem se fazia completa. Se fossem fumantes, tanto melhor. Se fosse folha de comida, verde bandeira, melhor ainda. Agora se fosse entre o molar e o canino, entre o canino e o incisivo lateral, entre o lateral e o central não valia. Tinha a ver com o meio, sabe? Folha verde de comida na linha do nariz em dente amarelo de boca aberta num sorriso. Não demorou muito pra Jade sacar o poder da hortelã. Mas e se o cara não cair na conversa do Mojito? Problema nenhum. Quem resiste a um tabule? Deixa eu te falar um negócio…

