Depois dos intervalos, eu recolhia os copinhos melados de café com açúcar, virava as cadeiras sobre a mesa, varria o piso de cerâmica e contornava com a vassoura, sem encostar um fio, a mala do professor Belmiro. Ele a deixava todos os dias no canto do sofazinho perto dos armários. Não era segredo que carregava pedras e para todas tinha uma história.
Nas ruas, o professor de matemática era reconhecido pela maleta do tipo executivo e pelo jaleco branco amarelado. Ele descia no ponto final, a duzentos metros da escola e os estudantes apontavam de longe o gorducho alto e careca lamentando que ele nunca faltava.
– Eu vi. Ele entrou pelo buraco na cerca do terrenão, foi andando meio torto e olhando pra baixo. Daí se agachou e pegou uma pedra – Leandro contou ao Miguel enquanto eu varria o pátio.
– O professor coleciona pedras. Só isso – eu disse para os meninos.
– Ele pegou uma do chão, segurou como um passarinho, daí assoprou, olhou bem e guardou na mala – o menino continuou a contar sem dar importância ao que eu disse.
Alertei de novo pra esquecerem. Eu mesma queria esquecer. As pedras me distraiam do trabalho. Com os meninos, acho que provoquei o contrário. Dias depois, encontrei Leandro na sala dos professores tentando abrir a maleta. Assustado, me disse que estava lá por ordens do próprio professor.
– Que ordens do professor?
– Pegar as folhas de exercício.
– Não é na mala que vai achar – respondi e não prolonguei a história. Podia complicar pra mim, pro professor e pro aluno. Aquilo era coisa de moleque. Leandro deixou a sala sem as folhas e voltou para a aula que nem era a de matemática. Vi pelo quadro de horário. Tinha mentido para a professora de português. Disse que ia ao banheiro.
Da porta, acompanhei o aluno até ele virar à direita nas escadas e encostei a vassoura no armário. A sala e o corredor estavam desertos e então me sentei no sofá pra olhar direito a mala marrom de couro rachado. Era daquelas com cadeado de segredo embutido. Em todos os intervalos, sem falhar um, ele mexia nos números, abria a tampa e conferia as pedras antes de tomar um café. Na hora da saída, repetia a mesma coisa.
O professor era sempre o último a deixar a sala e eu não via a hora de limpar tudo pra ir embora. Tinha que abrir a maleta, forrar a mesa com uma flanela azul, tirar, contar e cheirar pedra por pedra antes de ir. Eu me apoiava na vassoura e acompanhava a cena. Ele encostava as pedras no nariz de um jeito que mexia comigo. Dava até vontade de fazer igual. Saber qual o perfume daquela coisa sem vida. Era estranho não se importar em fazer tudo diante de mim como se a prática diária fosse uma prova de confiança e um ritual de renovação.
Comecei a me perguntar onde aquele homem morava e como guardava outras pedras. Entre os professores, ninguém sabia. Não que eu tivesse procurado a informação. É que ele era meio calado e só parecia se sentir à vontade quando explicava o poder dos minerais.
– O nome desta é ametista- ele erguia a pedra contra a luz. É um membro dos quartzos e carrega a energia da proteção, da espiritualidade e da cura.
O professor deixava de lado o conteúdo de matemática para falar de qualquer pedra escolhida que levava no bolso do jaleco até a sala de aula. Os alunos toleravam , os pais é que não. Viviam reclamando com o diretor. Os colegas ouviam por educação e um ou outro mostrava interesse. Mesmo assim, com ele, ninguém sustentava uma conversa longa.
A ideia de saber onde ele morava começou a me perseguir desde o dia em que, além de cheirar a pedra, ele a usou para massagear a pele do rosto até o pescoço antes de lambê-la e beijá-la. Nem era das legítimas, como ele mesmo chamava. Ele dizia que pedras de verdade estavam nas montanhas. Era um pedaço de concreto com tinta vermelha, talvez aquele que o Leandro o tenha visto pegar do chão. Pessoas com anemia, como a Nena, minha vizinha, sentem vontade de comer terra e morder pedras porque elas contém ferro, mas o professor Belmiro não tinha anemia. Tinha forças para carregar todos os dias a mala pesada que revezava nos braços como se fizesse exercícios para os bíceps.
Numa tarde de chuva, depois da saída, mal limpei a sala e, como uma anêmica precisando de minerais, segui o professor para alimentar minha curiosidade. A tempestade, umas duas horas antes, tinha deixado as ruas enlameadas. Eu poderia esperar uma outra ocasião, mas com o tempo ruim, as pessoas nem olham para trás e o guarda-chuva ajuda a esconder meu rosto já conhecido na vizinhança.
Ele seguiu na direção do córrego que costumava transbordar e arrastar pessoas, animais, pedaços das casas, bicicletas e bujões de gás nos dias de temporal. Uma vez, na escola, inventaram que um dia ele ia encher ainda mais a mala, se prender a ela e se jogar na água. Eu não via sentido na ideia. Ele beijava as pedras. Elas transmitiam boas vibrações. Entendo pouco destas coisas, mas era um caso de amor, uma anemia de alma.
Caminhei a uma distância de 50 metros. Quando ele parou sobre a pinguela, quase submersa pelas águas barrentas do córrego, me abriguei sob o toldo do mercadinho junto com uns ciclistas e motoboys de aplicativo.
– Olha lá o tio maluco! Vai se jogar na correnteza.
– Vai nada. Eu conheço. É professor na escola – olhei bem para o moço de jaqueta vermelha e para os dentes pequenos que deixavam ver as gengivas ´- Você estudou na Municipal, eu me lembro. Tá de barba, mas é o Flávio, não é?
– Tia Carla? Ainda trabalha na escola? Parei, mas um dia vou me formar. Esse tio aí não é do meu tempo.
– Chegou no ano passado.
– Olha lá! Olha lá! Tá prendendo a mala no corpo. Vai se jogar – outro entregador meio parecido com o Flávio interrompeu a conversa.
– Corre. Não deixa – eu disse.
Os moços saíram na chuva.
– Tio, tio, faz isso não – o Flávio saiu gritando
O professor, que dava a última volta de uma tira plástica em torno do corpo e ia arrematar com um nó, parou.
– Fazer o quê?
– Se jogar. Se joga não.
Ele fez um nó frouxo na tira plástica, colocou as mãos no bolso das calças e tirou duas pedras. Os meninos se abaixaram protegendo as cabeças. O professor riu.
– Levanta aí. Não vou atirar, é presente. Guardem lá na mochila quadrada.
Eles pegaram os dois seixos brancos de uns sete centímetros com desconfiança.
– O senhor estava amarrando a mala no corpo.
– Verdade – e o professor começou a desfazer as voltas da tira plástica na cintura sem se importar com a chuva que voltava a cair forte. – Esperem um pouco – os dois rapazes colocaram as suas pedras no bolso das calças largas, cruzaram os braços sobre o peito feito uma coreografia ensaiada. De longe, eu não estava entendendo.
Então, o professor pousou a mala sobre a pontezinha de madeira, ativou os números do segredo, abriu a tampa e vasculhou o fundo buscando uma pedra em particular. Uma não, duas, que ele tirou com cuidado e poliu com a pano azul de flanela meio encharcado. – Levem para Tia Carla que está ali. A vermelha é para ela e a marrom para o Leandro. A Tia Carla conhece o Leandro. Não fazia ideia de que ele falava de mim para os entregadores. Ele sabia que eu estava por perto e sabia também do interesse do Leandro.
Flávio estendeu as mãos para as duas pedras, afastou dos olhos para ver de longe e chamou o colega para confirmar a aparência de vidro das duas peças pesadas. Mesmo no dia nublado, as duas brilhavam.
– Bonitas, não são? Lembrem. A vermelha é para a Carla e a marrom para o Leandro.
Flávio entregou a marrom para o outro moço. Por um momento, ambos pareciam absorvidos pelo brilho molhado. A chuva caiu mais forte e eles correram de volta ao toldo. Acompanhei a chegada dos dois sem tirar um dos olhos do professor Belmiro.
– Ele não vai se jogar – Flávio entregou a minha pedra. Fica tranquila, tia Carla – ele puxava a camiseta molhada pela cabeça quando vi o mergulho do professor. Não deu tempo para mais nada. Ele deixou a maleta, mergulhou sem as pedras atadas e saiu nadando. Dizem que saiu nadando. Pra mim, tinha sido arrastado. Não vimos direito ali do mercadinho, mas quem viu de perto contou que saiu dando braçadas que venciam a correnteza. Não entendi por que escolheu que eu fosse testemunha. Nem eu, nem ninguém mais soube dele. Pra mim, ele nadou até o mar, achou uma vila de pescadores e mora numa gruta. Vai ver sempre morou numa gruta.
Dei a pedra marrom ao Leandro e contei o que vi na escola e à polícia. Até hoje, guardo a maleta de pedra embaixo da minha cama, a vermelha fica comigo. Ontem tirei de baixo do travesseiro e lambi. Amanhã, vou beijar.
