Obsessões nascem em vasos? Era a pergunta que eu fazia todas as manhãs. Passava um tempo considerável pensando no que eu podia dizer para o Sebas. Para que as nossas conversas rendessem e ele não me deixasse sozinha no celular, comecei a estudar biologia marinha, ele era especializado em polvos. Se eu falasse de ventosas, respondia mais de dez linhas. Tentáculos, umas catorze.
Eu não parava de conferir as redes sociais dele. Precisava de um gancho, uma isca, o que quer que fosse para que Sebas caísse na minha rede. Um dia postou uma foto de umas carnes assando numa churrasqueira, me enrolei no cobertor e sofri, queria estar ao seu lado. Apaguei a luz do abajur e depois de algumas horas em claro, soltei uma espécie de soluço. Não sei se de choro ou de raiva e imaginei a minha pele coberta de bolhas. Se ao menos pudesse ver as brasas. Lembro de em algum momento ter colocado o indicador na boca e morder até sangrar.
Quando escrevi para ele que os polvos deviam saber amar como poucos, já que tinham três corações, ele me deu uma resposta curta e seca, os três órgãos se comunicam entre si. Como eu ia capturar um homem desses? Era difícil arrancar qualquer coisa dele.
Não demorou para que eu visse uma foto que me deixou atônita: duas taças de champanhe em cima de uma mesa. Duas? Tentei achar alguma marca de batom, um pezinho perdido em um dos cantos, não havia nada. Alguém toma champanhe com um amigo? Fechei meu celular e esquentei minha mão no forninho elétrico. Fazia um frio terrível.
Eu precisava reverter essa situação. Não aguentava mais falar sobre os polvos, as lulas, os camarões, as estrelas do mar. E muito menos lembrar toda hora do brinde. Será que havia feito algo mais?
O pior era que ele contava muito pouco da sua vida pessoal, quase não se expunha. Eu olhava sua foto de perfil várias vezes ao dia. Tinha o nariz com a ponta para baixo, olhos levemente puxados e uma boca larga e grossa. Os cabelos eram escuros e encaracolados. Aparecia de corpo inteiro numa foto de capa. Grande como um polvo alpha, devia comer um cardume inteiro de sardinhas de uma só vez.
Algumas lulas podem ser mais rápidas do que um tubarão, li isso em algum lugar. Mas o meu oceano estava parado e morto. Ou eu dava uma investida drástica ou ia ficar a ver navios. Não sabia muito bem o que fazer. Por isso peguei uma garrafa de vinho no armário e bebi de uma só vez. A coragem apareceu.
– Sebas, você não quer brincar comigo?
– Como assim, brincar?
Mandei uma foto da minha barriga, ela estava cheia de marcas de queimaduras, a do meio bem nova ainda.
– O que é isso?
– Vou te mandar uma foto da próxima queimadura, depois você me conta o que achou.
Sentei na frente do fogão e esquentei um espeto de ferro pequeno. Prendendo a respiração, fiz duas marcas como se estivesse queimando um rocambole, bem abaixo do estômago. Minha calcinha ficou molhada na mesma hora. Tirei uma foto e enviei para o Sebas. Como ele demorou para responder, meu coração quase saiu pela boca.
– Parece um peixe-espada.
Era um tubarão, mas achei melhor ficar quieta.
– Faz algo redondo, que lembre um caranguejo. Os polvos adoram comer crustáceos.
Lógico que obedeci. Peguei um cigarro e comecei uma sequência de bolinhas até formar uma bola grande, depois fiz as patas. Assim que enviei, ele me perguntou:
– Você mora longe?
Em pouco tempo ele estava na minha casa. Nós sentamos no sofá da sala sem falar uma palavra. Falar para quê? Acendi outro cigarro e abaixei metade do meu short. Ele estava com os olhos fixos no meu quadril. Me senti fervendo por dentro, algumas gotas de suor escorreram pelo meu rosto.
Depois de vários furos, me virei para ele e perguntei ainda tremendo:
– Está pronto, sabe o que é?
– Um camarão?
– Não, um golfinho.
Não estava indo muito bem, o próximo com certeza iria ser melhor. Fui correndo até a estante e peguei um charuto. Em pouco tempo o ambiente estava todo esfumaçado. Me sentei na cadeira da mesa de jantar e pedi que ele se ajoelhasse entre as minhas pernas. Puxei minha camiseta e o sutiã para cima. Pelo jeito que ele olhava, percebi que tinha gostado dos meus seios. Mas isso não importava. Virei o charuto para mim e encostei a brasa no meu colo.
Não segurei os gemidos. Sebas estava perplexo, nem piscava. Resolvi deixar a minha mão parada. Um buraco enorme se abriu em cima do meu coração. Ele se assustou quando um líquido amarelo saiu da ferida e desceu até o meu umbigo. Por causa dos seus olhinhos apavorados entrei em êxtase.
Desmaiei quando a brasa tocou o osso externo. Ao acordar, vi Sebas voltar do banheiro com o rosto molhado. O buraco estava lindo, perfeito, dava para enfiar a ponta do dedão.
– Está doendo? – ele perguntou.
– Sempre dói.
– O que você desenhou?
– Ainda não terminei.
– Fala, o que é?
– Um eu te amo. Um eu te amo em forma de polvo.
