A queda da bolsa (Carol Schettini)
Commodities
O Clube dos Pinheiros está colado na madeireira. A madeireira cortou todos os pinheiros. Podiam ter mudado o nome do clube para Clube sem Pinheiros.
Alavancagem
Duas ruas caminhavam lado a lado e davam no mesmo lugar. Uma delas era reta e um pouco asfaltada. A outra era torta, de terra, muito esburacada. Havia casa nos dois lados das duas ruas. Num dia de seca, quando a terra vermelha subiu, um dos moradores da rua torta teve uma brilhante ideia: “vamos colocar um portão eletrônico no início e final da rua”. Os outros moradores encantados com a possibilidade de morar em um condomínio, deram cinquenta reais cada e implantaram um portão verde no início e no fim da rua torta, de terra. O portão só abre no controle, ou se alguém bate forte com uma pedra (ou qualquer outra coisa barulhenta) na lata e o vizinho mais próximo, se não estiver deitado e muito menos chovendo, ficar com vontade de abrir a rua. Pois bem. Não se sabe por que cargas d’água a administração da cidade resolveu melhorar o asfalto da região, menos da rua torta. A rua estava fechada e o funcionário não sabia do truque da pedra.
Liquidação
Na calçada, tem uma placa: calçados, quinze reais. Por este preço, ninguém precisa andar sem sapatos. A dois passos dali, um homem descalço vira uma caixa branca de papelão.
Volatividade
Newport é uma cidade chique da Califórnia. Newport é o nome de um comércio perto do balão dos condomínios e do Itaipu. Ali os comércios não vão para a frente. Veja o caso da hamburgueria. Os pobres da região não têm dinheiro para pagar o preço do hambúrguer. Os metidos a rico não vão pagar para comer num lugar de pobre.
Small caps
“Ele é um homem bom, o problema é só quando bebe”, ela diz. “Ele bebe todo dia?”, pergunto por perguntar. “Todo dia não, né. Ele trabalha. Só quando sai cedo e não vem direto pra casa”. “Sei”. “E quarta tem jogo de futebol. Se o time dele perde, ih, é um problema”. “Torce pra ganhar, melhor.”, eu digo, apenas por dizer. “Se ganha, ele anima todo. É bem mais melhor. Ele bebe também, mas vira aqueles bêbado grosseiro e gentil, sabe?” Eu não sei e não digo. “Quando ganha, ele só dá uns gritos, uns palavrões, quebra nada, é de boa”. Só balanço a cabeça. “Domingo, a gente vai na igreja”, ela continua, “a gente ia de tarde, só que não dá pra beber e ir na Igreja, né? Fica feio, o pastor olha de ladinho assim”, ela mexe a cabeça e olha para baixo e para cima. “Dona Eulália, já é a quarta vez que a senhora pede pra tirar ele de casa. Não acha melhor a senhora não botar ele de volta pra dentro de volta?””Ah, minha filha, ele é um homem bom, o problema é só quando bebe”.
Bancarrota
O velho chega primeiro. Passa a porta da segurança do banco sem qualquer problema. O velho abre a primeira porta de vidro, entra, espera fechar e abre a segunda porta. O velho se identifica à recepcionista e senta no sofá de couro ecológico preto de um só lugar. O moço vem logo depois. Por causa de uma mochilinha de lona verde, fica trancado dentro do retângulo de vidro. Um peixe num aquário seco. Seus parcos pertences são apresentados ao segurança que libera sua entrada. O moço, então, senta sozinho no sofá de dois lugares de couro ecológico preto. colocando a mão sobre a testa, desabando seu corpo, recostando de uma vez no braço do sofá. O moço veste camiseta, calça jeans e sandálias pretas com meias brancas. O velho se levanta e senta ao lado do moço. O velho calça sapatos sociais e meias pretas. O moço começa a chorar. “Não adianta, vocês estão se destruindo, vai ser melhor assim”, o velho diz. A gerente chega, vê a cena e volta para trás, decidindo dar um tempo a mais aos dois. “Deixa os meninos com ela, e pronto”, o velho diz. O moço chora, soluça, coloca a mão na frente do rosto. “Eu transfiro o dinheiro, você vai pra casa e dorme um pouco”. O velho bate no braço do moço. Três vezes. “Vai melhorar, você vai ver”. O moço funga, passa a mão pelo rosto, chora forte. O velho pega o celular e liga uma música alta. Os outros clientes do banco ao assistirem a cena e, principalmente, ao por causa da música, sentem-se quebrados.
