Antes juventude do que sábado

(Leticia Eboli)

Segue o seco sem sacar que o caminho é seco

Sem sacar que o espinho é seco

Sem sacar que seco é o ser sol

A essa altura as vozes já desciam escorregas, os olhos piscavam frouxos e só quem fazia o caminho de volta eram as garrafas de cerveja, que vazias retornavam aos engradados amarelos. Enquanto o sol botava o roupão, as mulheres seguiam com seus biquinis de top de triângulo e os homens de sungas finas nas laterais numa época em que eles rebolavam. Pelo menos é assim que me lembro da alegria dos quadris do meu pai e tios de sangue e postiços. 

Na sauna, os dias se recusavam a terminar. Todos batucavam nos bancos e paredes de madeira escura quebrando o som seco com eucalipto jogado sobre as pedras. Os adultos se espalhavam apertados entre os bancos a cada esbarrada com um “êeee”. E, nós crianças, éramos limitadas ao andar debaixo. “Dá, licença, dá, licença. Que não é só o vapor quente que sobe!”. Por alguma ironia do destino, me lembro do tio Beto brincalhão pedindo passagem pro andar de cima. 

“Tio Beto, você não vai passar não. Não pra esse andar aí”. Pelo visto eu não era a única que me recusava a deixá-lo ir. Fiquei mais de uma hora parada atônita ao lado de seu caixão escutando em looping as memórias dos nossos verões no quintal com a jabuticabeira. Deixei o suór, que fazia trilha escorrendo entre minhas pernas, conversar livremente com as gotas da sauna dos anos 90. 

Primeiro, pipocavam nas costas dos homens, depois tiravam os cravos para dançarem pelos poros abertos. Tia Jane circulava com suas unhas de limpeza de pele reclamando da meia luz. Enquanto isso, as crianças competiam de “quem aguentava mais” na sauna. Normalmente eu vencia. Não por mérito, mas por fascínio por aquela coreografia do verão. Minha mãe, a mulher mais bonita que já conheci, mergulhava a ponta dos dedos no pote vermelho de máscara capilar, que espalhava pelos seus cachos. Tio Jaime puxava o hino “do Caralho”, do famoso carnaval de 74. Tia Nenê raspava a perna e depois rodava a gilete entre as mulheres, me levando ao desejo de um dia ser adulta e ter com quemcompartilhar intimidade. No canto da sauna, morava um sabonete e uma pedra pome. Me lembro do tio Beto, com seu 1.90, amassado entre o teto e a quina, passando a pedra nos pés. 

Logo embaixo, notei uns farelos de pele chovendo na toalha verde floresta aonde me sentava. Pus as mãos no meu ombro e percebi que ali também havia pele. Achei que do alto dos meus onze anos gritaria na energia de quem viu uma barata. Mas não. Fiz uma pinça com meus dedos recolhendo todos os vestígios de pelinha tio Beto espalhados, torcendo invisível para que ele não percebesse que sua pele caía sobre mim. Fiquei torcendo pra fazer mais sábado, pra nunca deixar de ser verão. 

Hoje era sábado de um dia que fazia verão, mas quase não sobrava nada de tio Beto na minha frente. Porque inventamos no momento de despedida ter versões das pessoas que mais amamos pior do que foto de passaporte? Pelo menos no documento sobrava o olhar pra viagem. Podia imaginar a qualquer momento ele se levantando, jogando com seus ombros largos a natureza morta pra longe. Puxaria a primeira pessoa a sua frente pra dançar e pular na piscina. Descalço, sempre. Tia Nenê conta que no casamento ele se recusou a usar qualquer calçado e que por isso ela acabou fazendo bainha no vestido e foi descalça. Torci para que debaixo de tantas flores mal cheirosas pelo menos os pés estivessem livres. Me agoniei imaginando sua pele em contato com flores de porta de cemitério. 

“Câncer de pele. Tão novo. Ia adorar conhecer a netinha” As pessoas nos velórios entram em shuffle encadeando uma sequência que não falha: Motivo da morte. Expressões de lamento. Palavras de um futuro não conjugado. Eu ocupava a minha boca com minhas mãos. Não sobrava unha, cutícula ou palavras. Talvez devesse abraçar meus primos, mas era abraçada por eles. Já estava acostumada a justificar meu sofrimento sob a justificativa “canceriana”. Seres aquáticos afeitos ao drama. 

Nas férias, as crianças ficavam na casa de campo quase que direto e os adultos faziam um revezamento tomando conta da gente e no final de semana todos subiam a serra. Comecei a tomar gosto pela natação com o tio Beto, na semana com ele, ia ao clube Friburguense e ele que tinha sido nadador quase profissional me treinava. Depois eu que entrei pra equipe de natação e nunca mais parei.

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