Cabelos azuis

Eu estava em pânico, todas as portas fechadas e eu pelado no meio daquele andar imenso. Fui correndo até o final do corredor na esperança de encontrar o lugar onde as camareiras guardavam os lençóis e as toalhas. Nada. Quando dei meia volta, ouvi o plim do elevador bem alto. As portas se abriram devagar. De lá saiu o cara que eu tinha roubado a esposa. Nem consegui piscar. Ele veio para cima de mim contudo, segurava um cabide de madeira enorme. Só lembro de sentir uma dor horrível e cair para trás.

Ao abrir os olhos, vi uns cabelos azuis bem perto de mim, como se fosse a auréola de um anjo. Pisquei para ter certeza de que era isso mesmo, já que esse anjo estava com a boca grudada na minha. Levei um susto quando percebi do que se tratava e me afastei depressa.

Era uma senhorinha com bem mais de oitenta anos. Ela estava ajoelhada ao meu lado e vestia um macacão florido. Não era lá muito grande e o rosto lembrava o de uma coruja.

– Por acaso a senhora estava me beijando?

– Uma respiração boca a boca de nada, só isso – disse mostrando a dentadura cheia de saliva – ouvi um barulho e vim ver o que estava acontecendo. Como você não acordava… Seu nariz está péssimo. Vou lá no meu quarto, já volto.

Ela sumiu por alguns instante, continuei deitado, não estava me sentindo bem. Quando voltou, segurava uma pomada na mão.

– Seu nariz está todo amassado. De qualquer maneira, está bem melhor que aí em baixo.

Ela queria tirar casquinha de mim a essa hora da madrugada?

A mãozinha de veias estouradas apertou o tubo e depois esfregou uma gosma roxa no meu nariz. Tinha a delicadeza de um mastodonte. O mais aflitivo era que ela insistia em ficar com o rosto colado ao meu. Já estava vendo hora em que ela ia enfiar sua língua de lhama na minha boca.

– A senhora pode me ajudar com mais uma coisinha?

– Ah vou dar um jeito nele também – e olhou para a minha cintura.

Ela ameaçou pegar mais pomada mas parou com o grito que eu dei.

– Preciso de uma toalha.

– Como você é estressado. Precisamos resolver um outro probleminha. O carpete está ensopado de sangue.

– Ai meu Deus! Onde?

– Na altura da sua cabeça. Deve ter batido com força quando caiu.

Quando virei o pescoço para o lado pude ver uma mancha vermelha grande. Tossi de nervoso e depois perguntei:

– Gases e esparadrapo, seria pedir demais?

– A única coisa que eu tenho é uma meia-calça – depois sorriu e disse – ela é bem apertadinha.

– Que tal a senhora me emprestar o resto do modelito, não dá para perceber que estou pelado?

Ela foi para o quarto com uns passinhos bem ligeiros. A velhinha estava em forma. O cabelo azul voltou segurando uma toalha que em vez de dar para mim, jogou no chão. Fiz sinal de puxar mas ela pôs o pé em cima.

– É para o nosso piquenique.

– Um piquenique agora?

Trouxe também uma garrafa de vinho branco, dois copos e uns amendoins, fora, é claro, a meia-calça. Me sentei e amarrei a meia na minha cabeça, doía como se um dinossauro tivesse sentado em cima dela. Confesso que não cheirava muito bem, de qualquer maneira me senti um pouco vestido.

– Ainda não sei o nome da senhora.

– Barbarella e o seu?

– Que nome bonito. O meu é Jonas, o que foi comido pela baleia – me arrependi na hora de ter dito isso, mas já era tarde.

Ela deu uma risadinha, depois abriu o vinho com uma destreza de profissional.

– O que você faz da vida? – ela perguntou.

O que eu ia dizer? Que não queria mais trabalhar e passava de cama em cama roubando a mulher dos outros?

– Dou assessoria para mulheres que estão se divorciando.

– Eu fui tanatopraxista, essas coisas de arrumar defunto, gostava bastante, sou muito habilidosa.

Virei meu copo de uma só vez. Era impressão minha ou ela estava me arrumando para o meu funeral?

– Bom não ter ninguém por aqui, assim ninguém atrapalha, não é, Jonas?

– A senhora tem razão, esse carpete está muito confortável, tão sujinho…

– Come um pouco de amendoim, vai melhorar sua pressão.

Eu não conseguia mais falar. Os amendoins eram bolas sal. Barbarella de cabelos azuis sentadinha ao meu lado me deu mais vinho, precisava desgrudar minha língua do céu da boca.

Quando acabei o segundo copo, perguntei se ela não podia me emprestar um dinheiro, logo o metro ia abrir e eu poderia ir para casa. Ela se recusou.

– Ainda não terminamos o nosso date.

Que date?

– Você continua tenso. Vou te fazer uma massagem.

Sentir o geladinho da arnica nas minhas costas foi gostoso. O problema era que Barbarella parecia um massagista ninja. Onde arrumava tanta força? Ela me apertou como uma máquina de moer carne. O mais tenebroso foram os sussurros e o bafo quente que chegavam no meu ouvido. Quando terminou deu um beijinho na minha escápula e encheu meu copo outra vez.

Estava me preparando para puxar a toalha do chão, amarrar na cintura e dar o fora, mas a Barba pressentindo que eu queria escapar, puxou a toalha e foi em direção ao quarto.

– Estou cuidando muito bem de você, sossega aí.

Fiquei bebendo o resto do vinho e pensando se não era melhor descer para o saguão, mas nem consegui pensar muito porque logo os cabelos azuis voltaram. Tinha uma sereia dourada enorme nas mãos.

– Ela também vai participar do nosso encontro?

Barbarella nem respondeu, só vi o rabo vir na minha direção e me acertar bem no topo da minha cabeça.

Quando acordei eu estava deitado entre duas poças de sangue, a garrafa de vinho jogada ao meu lado e para o meu total desespero, as dentaduras do ex anjo azul em cima do ossinho do meu quadril.

Eu sabia direitinho o que a Barba tinha feito, mas não queria nem imaginar.

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