por Américo Paim
Grudo no balcão. Eu tô nu, velho, é bom deixar claro. São três e meia da madruga e eu tô peladaço na recepção do hotel. Olho sério para a criatura, cara de papo reto. Ela ri. Claro que me viu chegando. E esse riso pode ser por causa de um monte de coisa. Melhor não futucar. Ela fala: “posso lhe ajudar”. Nem foi uma pergunta e eu tô ligado no tom de voz da lindinha. Não é toda hora que uma recepcionista de hotel recebe alguém na minha condição. Decido chegar devagar, como se pedisse um travesseiro a mais ou um café no quarto. Confiro o nome dela no crachá – Tatiana, e falo todo trabalhado na tranquilidade.
– Sim, minha linda, cê pode me ajudar.
– Que situação, hein?
– Repare, eu até posso explicar, mas…
– Ah, tenho certeza.
– Na moral, pode abrir o meu apartamento? Perdi a chave – mando logo, na tora.
– Não é tão simples, compreenda.
– Oxe… compreendo não. Cê tem todas as chaves aqui! Quéquetá pegando?
– Quem é o senhor?
– Hã? Ah, só isso? Climério Valadares, a seu dispor.
– Nem tanto assim, por favor.
– Oxe, peraê, foi só forma de falar, no respeito.
– Documento, por favor.
– Ô, minha preta, perceba minha condição.
– Difícil ignorar, não é? Com aquele espelho do outro lado então…
Viro na hora! Qualquer um viraria, véi. Vejo que não tem espelho porra niúma! Tô de costas pro balcão e ouço a risada discreta da féla da… Me pegou. E nem protegi as partes, lá elas… Ela conferiu foi tudo. Na boca de perder a paciência, faço cara de Caymmi em frente ao mar e volto à posição. A abençoada fala.
– A situação é menos complicada do que pensei. O senhor não tem nada mesmo.
– Epa, que papo é esse?
– Queria ver se estava armado.
– Ai ai, que conversa é essa, minha pedra?
– Revólver, faca, essas coisas.
– Ah, agora entendi. Cê vem com esse papo aí…
– Vejo que o problema é de pequeno porte.
Demoro a maldar a fala dela. A miseravona tá se divertindo com essa porra. Eu devia ser ignorante, só que vou na manha. Ela mexe na papelada, me olha de novo. Presto mais atenção na criatura. É bonita. Oclinhos redondos – tenho um fraco por mulher de óculos – uma cara fininha, acesa, pele de photoshop, os cabelos arrumadinhos, escorregando pelos ombros, o tal sorriso safado… cobra perigosa, isso sim. Tivesse de boa eu até jogava um agá pra cima dela, mas quem vai é o coelho, eu mermo não… Essa daí é esparro. Foco, Merinho, foco!
– Tati, se não for pedir demais, que tal um cobertor?
– O senhor está com frio?
– Veja só, o ar-condicionado aqui funciona bem, melhor que no quarto.
– Entendo. Isso reduz seu problema – fala, de novo na beira do riso, a descarada.
– É o quê?
– O cobertor. Ajuda, mas não temos aqui na recepção. Só no armário no mezanino.
– Hum, eu espero cê buscar.
– Não será possível.
– Como?
– Não posso deixar a recepção vazia. Estou sozinha e é contra as regras.
– Tati, que é isso? E se der piriri ou tiver que tirar água do joelho, fia?
– Eu não estou com vontade disso agora.
– Sim, sim, véi, eu tô ligado, peraê…
– O senhor está se alterando.
Paro para respirar. Tô me coçando todo, papá! É barriga, é braço. Até em lá ele tá dando comichão, véi. Que diabo é isso? Um arrupio só. E outra: tô com frio, nervoso, cansado e mesmo assim tô suando. Preciso me acalmar. E tem mais: e se o cara vier atrás de mim? O cornão pode ter perguntado meu nome na recepção. Depois da correria atrás da minha pessoa ele deve ter visto no elevador até que andar eu subi. Lógico. E deve tá achando que eu tô lá ainda. Fui esperto que só a porra de descer um trecho de escada. Agora, que maluquice da disgraça… Pego a mulé, rola a putaria delícia, ela fica lá toda liquidada e só aí me conta que é casada, meu bom? Peraê… Cinco minutos depois o galhado entra e corre direto pro quarto. Corno sensitivo, viu? Foi o tempo de sair detrás da porta e vazar desfilando no corredor. Se fosse botar roupa, lascou. Ou seja, a mulher, a toda uda, já ficou arrependida, apavorada, e falou meu nome, lógico. Oxe, com certeza. Mas será que eu dei meu nome? Eu nem lembro o dela. Cachaça é foda. Ainda tô viajando na história e a bruta interrompe.
– Senhor, esse silêncio não está ajudando.
– Tati, você é bonitona, inteligente, vamo resolver?
– É Tatiana. E eu só preciso de que se identifique.
– Você checa meu nome no 32º andar. Que tal?
– Qualquer um pode chegar aqui e dar um nome.
– Mas, rapaz, se oriente aí, eu tô aqui nu, todo cheio de tremilique.
– Essa etapa já foi superada, senhor.
– Até já apanhei hoje. Uma mulher tava com o filho no corredor e me picou a bolsa no juízo.
– Não acha razoável?
– Nem perguntou se eu queria ajuda.
– Senhor, se alguém chegar aqui não vai ser legal.
– Faça uma caridade aí, nunca lhe pedi nada.
– Senhor, quero ajudar. E não sou a única interessada.
– Oxe, tem mais alguém aqui?
– Pouco antes de o senhor chegar, um hóspede lhe procurou.
– Óia, tá vendo que sabem que eu tô no hotel?
– São coisas diferentes.
– Ô mulé difícil… Quem foi?
– Não damos informações dessa natureza.
– E era sobre o quê?
– Saber onde o senhor estava.
– Opa, opa… Cê falou alguma coisa?
– Não damos informações dessa natureza.
– Aê, cê é retada mermo. O que ele disse?
– Que se eu soubesse de alguém andando nu por aí, que avisasse.
– Cê não vai fazer isso, né?
– Não é da minha atribuição.
– Isso, isso. É que rolou um babado aí e talvez ele exagere na reação.
– Senhor, não me compete. O senhor precisa se vestir, isso sim.
– Então me ajude. Vou lhe recompensar e vai ser generoso.
– Quer me corromper?
– Peraê, peraê, muita calma nessa hora! Que agonia é essa, rapaz? Vamo conversar.
– O senhor é insistente.
– Eu não sou daqui, não conheço ninguém. Cê precisa me ajudar.
Ganho no cansaço. Ela fala pra eu esperar no meu andar até 5h00, quando a pessoa da limpeza chega. Corro para o elevador. Vou pelo de serviço até o 33º. Vai que o cornudão tá lá na cocó? Desço a escada de emergência devagar. Abro a porta e dou uma geral. Tá de boa. Vejo a porta do armário de limpeza. Espero. A luz do sol começa a aparecer e chega um iluminado. Sorte retada. Se fosse mulher, ia ser um escândalo, mas ele me olha meio estranho, interessado, sei não… Vou devagar e falo com ele, que ri da minha situação, faz umas piadas. O cara tá me cantando, véi! Que situação é essa, meu pai? Explico que não é minha praia e tal e coisa. Ele fica com dó de mim e topa abrir o apartamento. Arruma até uma flanela pra eu proteger lá ele. Abre a porta e eu entro. Atravesso o pequeno corredor que dá na saleta antes do quarto. Paraliso. O homem chifrudo, o marido da maravilhosa, tá de pé ao lado da poltrona. Ele tem uma faca. Agora fodeu. Me olha com uma cara ruim da porra e dá dois passos pra frente. Agora fodeu de vez. Ele larga o doce.
– Chegou sua hora, desgraçado.
– Vamo conversar, chefia. Repare, eu não sabia…
– Cala sua boca!
– Peraê, oxe que num precisa dessa agrestia toda. Dá pra conversar?
– Nada disso. Estou lhe esperando há muito tempo.
– Como entrou aqui, santidade?
– Pela porta.
– Engraçadinho, né? Como foi? O cara da limpeza só chegou agora e a recepcionista não dá a chave.
– Quem? Tatinha?
