Por Susy Freitas
Ong namo… Gurudev namo… a voz dela tem um calor monótono ao entoar o mantra, e fica em minha cabeça por muito tempo. De olhos fechados, começo a segurar meus pés, uma mão em cada, as costelas abertas e a cabeça erguida. Visualizo a imagem de um lençol de algodão limpíssimo pairando no ar iluminado. Suas pontas caem em câmera lenta, encaixam-se aos poucos no colchão, o centro fofo por alguns segundos até o tecido se aprumar por completo e a cama estar feita.
Ela toca a minha costa amarela com a ponta dos dedos pálidos, apenas o suficiente para indicar uma correção sutil na postura: pede que eu enrijeça os glúteos. Agora minha pelve encosta com vigor no chão de taco, despertando a energia kundalini em meu chakra raiz. Minha lombar está ardendo, sou um arco. O acolchoado no tapete, ainda que fino, envolve meu púbis numa sucção mínima, e mantenho o equilíbrio como se eu tivesse raízes e meus quadríceps fossem galhos que tentam manter a firmeza em meio a uma tempestade.
É o que preciso para fazer surgir em minha mente duas linhas vermelhas no lençol, cada uma descendo de um canto. Elas escorrem em diagonal até se encontrarem ao centro do tecido. Tornam-se uma só linha, que segue até o chão. Tento voltar à imagem original e meu cenho talvez denuncie a digressão, pois no mesmo instante ela vem com o palavreado de rotina: mantenha a respiração e permita que os pensamentos que surgem possam entrar e sair. Eles estão de passagem.
Obedeço-a. Eu quero obedecê-la. Sem calcinha, meus grandes lábios e as polpas da bunda engolem a legging preta, ganhando contornos explícitos. Isso, muito bem, ela me diz, e é como eu sei que estou construindo um corpo fora do meu corpo através da dor em meus músculos e do prazer com a sua presença mansa e solar. Na minha mentalização, o desenho do cálice formado pelas linhas vermelhas ganham adornos cada vez mais complexos, franjas de um caleidoscópio.
Meu corpo treme sob o peso e o esforço, e talvez não só por isso. O diafragma infla e murcha o equilíbrio da postura, e me deleito com o controle absoluto que o cheiro dela me rondando e analisando inspira. O tapete me acaricia, sua espuma impregnada da minha umidade, uma fina camada de pele entre ele e as cerca de dez mil terminações nervosas do meu clitóris. A lombar no limite, minha dor no centro daquela expansão, os nervos encurtados da perna se contorcendo por dentro, um pouco mais a cada aula, rindo na cara dos limites, enquanto luto para não mastigar as carnes de dentro da bochecha. Deixar entrar e sair.
Eu quero que a dor acabe. Quero abrir os olhos. Não quero abrir os olhos. Quero seguir as formas da renda vermelha que preenchem o cálice na minha cabeça, o lençol ganhando um tom de carne pálida na altura da cabeceira, os cantos da cama cada vez mais arredondados. O que vejo agora é ela de quatro apoios. Ela expirando ao levantar os quadris para cima, mostrando como endireitar os joelhos e cotovelos. Ela como um V invertido. Ela moldando um corpo perfeito e uma mente superior. A cabeça pendendo vermelha, livre de tensões no pescoço, os olhos verdes fixos nos pés, perdido entre cachinhos alourados. As mãos na largura dos ombros, as omoplatas para fora, afastando-se da coluna. A respiração longa como uma serpente, o rabo para cima, puxando o fio dental vermelho-sangue para fora da legging, para dentro do cu, as rendas e o lacinho central de uma vulgaridade ímpar que me dá coices. Sinto-me num outro plano de existência: um que mancha meus fundos com gosmas, que anseia pelo cheiro acre da renda suada sob a pedraria falsa no meio do lacinho, que roça o meu corpo sobre o dela em fantasias sujas, nas quais lambo seu ventre e suas costas num desfiladeiro, abaixando aquela legging branca para revelar um plug anal que brilha com a força de mil sóis, e eu o tiro com suavidade, e ela treme e escorre, e eu encaro o que me encara, e ela diz sim, sim!, e eu cheiro o vão que fica com vigor, e eu pulo do prédio bem alto naquele cheiro, estou cega, cega para sempre, sou uma estátua de sal. Abro os olhos. Minha boca aberta, minha buceta em chamas. Om shanti shanti.
Ao final da aula, ela me pergunta para que direção vou, oferece uma carona. Minto, digo que moro no Village Vert, ali, no quarteirão ao lado. Espero que ela entre na Ranger, desapareça na avenida e sigo a pé para minha quitinete na Rio Juruá. O cenário me engole enquanto os prédios de alto padrão e casarões dos anos 1980 são substituídos por casas cada vez menores, em ruas cada vez mais estreitas e disformes. Muros sem reboco dão um mínimo de privacidade às numerosas famílias no interior dos imóveis, filhos em cima de pais e netos com tráfego livre entre a casa e o puxadinho. Outros, ainda menos afortunados, engolem com paredes o metro de calçada na tentativa inútil de expandir os seus domínios. São casebres cujas janelas invadem até mesmo o espaço dos retrovisores dos carros, moldando o asfalto carcomido ao seu bel-prazer, sob o olhar desbotado do mascote da copa de dois mil e catorze, porcamente pintado no muro de um terreno baldio, conhecido pelas tradicionais desovas de cadáveres.
No trajeto, conto catorze vezes o pixo “C.V” nos muros, até que desisto. A cidade sob o manto do tráfico como se a Alemanha declarasse guerra à Rússia e à tarde, natação. Um viadinho branco, com calças de brechó e cabelo rosa, acompanhado pela fiel escudeira de botinhas e tranças no cabelo batendo na cintura, aguardam em frente a uma das inúmeras portinholas de madeira da vizinhança em busca de kunk. A velha abre a porta, entrega o embrulho numa sacola do Baratão da Carne enquanto recebe o dinheiro, tudo com a mesma mão. É uma transação de segundos, apenas o tempo de reconhecer pela brecha, na tela da tevê da sala, o apresentador do jornal local anunciando quais celebridades globais já estão confirmadas nos camarotes do Festival de Parintins, a postos para a presença vip numa celebração nativa regada a magia, pó e putas – nossa Santíssima Trindade.
O suor me consome da cabeça aos pés. Sinto o rabo de cavalo me açoitar a nuca e já não retornar para a posição inicial, grudando meus fios nas costas, bem onde ela me corrigiu a postura. O tênis Nike, uma falsificação satisfatória em seu exterior, devora a pele fina de meus calcanhares por dentro e acumula a poeira ininterrupta da rua de casa. Avisto o portão e reconheço nosso porteiro, misturado às cores do lodo que se acumula ao pé do muro. É Belão, o vira-lata adotado pelos vizinhos para latir e avançar em estranhos em troca de restos de comida, nenhuma vacina, banho ou vermífugos. Acaricio sua cabeça pixé, atravesso a porta da quitinete e com cinco passos já estou no banheiro. O fio de água fria me alisando os cabelos e arrepiando o corpo. Já não sinto falta do chuveiro elétrico, queimado há mais de três meses. Me enxugo com a toalha fedorenta, ainda úmida do banho anterior. Esquento a água no fogão para fazer um macarrão instantâneo e me jogo na cama com as contas a vencer nos peitos. Abro o aplicativo do banco e encaro meu saldo na tela: vinte e trinta e oito. Por sorte, ainda tenho duas parcelas do auxílio-desemprego a caminho antes que vençam. Se eu continuar economizando, conseguirei pagar a luz e mais algumas aulas particulares de ioga. Depois disso, não sei. Não sei. Estou pensando. Não quero pensar. Penso naquele fio dental e um plug anal atochado no rabo dela até dormir. Sonho com a cidade branca e limpa, e com ela, breenta e suja. A panela já em chamas no fogão. Quero acordar. Não quero acordar.
